7 atalhos mentais que influenciam suas decisões sobre investimentos

Entenda os atalhos mentais e vieses comportamentais nos investimentos

Como funciona sua mente quando você precisa tomar uma decisão? É claro que a resposta para essa pergunta não é tão simples! Seja para decidir o próximo destino de férias ou o investimento onde você vai aplicar seu dinheiro, são muitas as variáveis envolvidas no processo de escolha. Escolhas essas que, aliás, não são sempre feitas de forma racional.

Mesmo sem tomar consciência, recorremos a atalhos mentais, ou vieses comportamentais, para facilitar o processo de tomada de decisão. Esse é um campo de estudo da economia comportamental, que acabou de ser laureada com o Prêmio Nobel de Economia pelos trabalhos do economista Richard Thaler1.

Neste artigo faremos um resumo dos principais atalhos a que seu cérebro recorre na hora de tomar decisões relacionadas às suas finanças pessoais e investimentos. Antes disso, vamos entender como funcionam esses atalhos ou vieses.

O que são heurísticas, vieses e atalhos mentais

Tomamos decisões o tempo todo, mesmo que a gente não perceba! Já pensou quanto tempo gastaríamos se tivéssemos que refletir e pensar cuidadosamente sobre cada escolha que fazemos em nosso dia a dia?

Para lidar com isso, desenvolvemos estratégias para tomar decisões de forma mais rápida. Essas estratégias são conhecidas pelo nome técnico de heurísticas. Elas nos ajudam a tomar decisões ao simplificar a percepção e avaliação das informações que recebemos o tempo todo — e que, aqui entre a gente, são muitas!

Apesar das heurísticas nos ajudarem bastante no dia a dia, elas podem acabar nos induzindo a erros quando acabamos simplificando demais a tomada de decisão. Assim surgem os chamados vieses comportamentais ou atalhos mentais, aos quais precisamos estar atentos! 

Vamos passar rapidamente pelos sete principais vieses que influenciam suas decisões sobre investimentos.

1) Ancoragem

O viés da ancoragem acontece quando usamos algum dado como referência para a tomada de decisão, independentemente de ele ser relevante para aquele momento. O dado “ancora” a sua decisão.

Por exemplo, se antes de investir somos expostos a palavras como “promoção” ou “oferta imperdível”, esses conceitos podem direcionar a avaliação que fazemos do investimento nesse caminho. Sabe quando o gerente do banco manda um e-mail dizendo que tem um “excelente investimento” para recomendar? O objetivo é justamente que você perceba a recomendação como excelente antes mesmo de analisar o investimento.

Quando falamos de ancoragem também é muito comum pensarmos em valores numéricos, como a tal rentabilidade mensal de 1% que muita gente busca, não importa a quantas anda a taxa de juros ou a inflação.  

2) Aversão à perda

Já o viés de aversão à perda nos faz dar um peso maior às perdas do que aos ganhos, o que pode nos levar a correr mais riscos para compensar um prejuízo. Estudos afirmam que isso acontece porque a dor da perda é maior que o prazer do ganho.

Já foram feitos vários experimentos para entender esse tipo de comportamento, principalmente na linha de como reagimos a ganhos e perdas do mesmo tamanho. A dor de perder R$ 100, por exemplo, seria maior que o prazer de ganhar os mesmos R$ 100. Racionalmente parece não fazer muito sentido, certo?

A dor de perder R$ 100 é maior que o prazer de ganhar os mesmos R$ 100

Mas pense naquela ação da Petrobras que você (ou algum amigo seu) comprou uma vez há bastante tempo. O preço da ação começou a cair, depois caiu mais e mais e mesmo assim você não conseguiu se desfazer dela porque pagou um preço muito mais alto. Provavelmente o viés de aversão à perda estava atuando nessa decisão.

3) Falácia do jogador

Também conhecido como falácia de Monte Carlo, esse viés se origina de uma falha em compreender a interdependência dos acontecimentos e a probabilidade de eles acontecerem novamente.

Por exemplo, quando jogamos uma moeda para o alto, a chance de dar cara é de 50% e de dar coroa também é 50%. Não é porque joguei três vezes a moeda e nas três vezes deu cara que a chance de dar uma coroa na quarta vez é maior. As probabilidades são independentes, mas a sensação que fica é que a coroa terá que sair logo!

Imaginem o quanto esse pensamento pode ser perigoso para alguém que está acompanhando diariamente os preços de uma ação na bolsa de valores…

4) Viés de confirmação

O próximo viés, o da confirmação, descreve a tendência de procurarmos evidências e fatos que comprovem os nossos pontos de vista. Por exemplo, se acredito que a economia vai melhorar nos próximos meses, provavelmente darei mais atenção às notícias que corroborem com essa ideia do que a outras que sejam neutras ou tragam um contraponto.

Se acredito que a economia vai melhorar, dou mais atenção às notícias que corroborem com essa ideia. É o viés da confirmação

O resultado é uma análise completamente parcial dos fatos, o que pode nos levar a fazer escolhas erradas sobre onde investir dinheiro.

5) Lacunas de empatia

Esse viés está totalmente relacionado às nossas emoções e à dificuldade de interpretar os acontecimentos em diferentes estados emocionais. As lacunas ou falta de empatia acontecem tanto com outras pessoas quanto com nós mesmos e faz com que a gente subestime as emoções na hora de tomar uma decisão.

Por exemplo, quando estamos tranquilos, decidimos que o limite tolerável de desvalorização de um investimento seria de 10%. Porém, no momento em que o investimento começa a cair e ficamos mais apreensivos, com as emoções à flor da pele, decidimos alterar esse limite para um percentual menor de tolerância, contrariando o que havíamos decidido em um momento de mais racionalidade.

6) Autoconfiança excessiva

O viés da autoconfiança excessiva, como o próprio nome diz, leva às pessoas a confiarem excessivamente nas suas opiniões, tendendo a acreditar que sempre estão certas e que quando erram é por conta de fatores externos, e não por uma avaliação errada.

É possível que o viés da autoconfiança excessiva aconteça juntamente com o viés de confirmação, buscando informações que proporcionarão ainda mais confiança na opinião própria da pessoa.

Para um exemplo de autoconfiança excessiva basta pensar naquele amigo sabichão que está sempre dizendo se o dólar vai subir ou cair, se a bolsa vai valorizar ou desvalorizar… Você se lembra do que ele disse quando algo aconteceu diferente do que ele esperava? Certamente ele não assumiu nenhuma culpa.

Um estudo observou que 74% dos gestores de fundos declararam ter desempenho acima da média e os outros 26%, desempenho mediano 

Quer mais um exemplo do viés de autoconfiança em ação? De acordo com o material da CVM Comportamental que indicamos ao fim deste artigo, em 2006 foi realizado um estudo com 300 gestores de fundos. Os resultados foram um tanto curiosos: 74% dos gestores declararam que seu desempenho está acima da média, enquanto que quase todos os 26% restantes informaram que possuem desempenho mediano.

7) Efeito de enquadramento

Também conhecido como framing, esse viés se refere à forma como a questão é apresentada para que você tome a decisão. Ela acaba enquadrando sua percepção sobre o assunto.

Por exemplo, hoje vemos muitas pessoas perguntando se um investimento tem garantia do FGC sem sequer saber para que o FGC serve. Isso provavelmente se deve a um enquadramento prévio feito pelas instituições financeiras que destacavam a garantia do FGC como principal qualidade de certos tipos de investimento.

Esse viés pode atuar em conjunto com outros vieses, como o de aversão a risco. Um exemplo conhecido é o experimento que pede para as pessoas escolherem entre receber de graça um vale-presente de R$ 10 ou desembolsar R$ 7 por um vale-presente de R$ 20. Qual você escolheria? A maior parte das pessoas costuma escolher o vale gratuito de R$ 10, que é menos vantajoso financeiramente, mas não dá a sensação de perda.

Como escapar dos vieses comportamentais

Talvez você já esteja se perguntando: como se blindar desses vieses ao tomar suas decisões?

A primeira dica para evitar decisões enviesadas é simples: basta saber da existência dos atalhos mentais, ter ciência de que estamos sujeitos a eles durante a maior parte do tempo. Isso já ajuda bastante!

A outra dica é evitar tomar decisões financeiras em época de estresse, em momentos com alta carga emocional ou até mesmo sono e fome. Essas situações diminuem nossa capacidade cognitiva para tomar boas decisões, o que dá mais espaço para as heurísticas atuarem.

***

Passamos de forma rápida pelos sete vieses comportamentais. As perguntas que eu deixo para continuarmos essa conversa nos comentários são:

  • Você se identificou com algum dos atalhos mentais?
  • Consegue se lembrar de uma decisão tomada de forma enviesada?
  • O que é uma boa rentabilidade para você?

Comente!

E se você, assim como eu, se interessa em economia comportamental e quer explorar melhor os vieses, recomendo os materiais da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre o tema, começando pelo primeiro volume da série Vieses do Investidor, que foi fonte de informação para este artigo.

 

1Richard Thaler é um economista norte-americano que estudou a fundo a psicologia da tomada de decisão econômica, tendo criado o conceito de contabilidade mental, segundo o qual separamos “caixinhas mentais” para as quais atribuímos valores diferentes ao dinheiro de acordo com o uso que ele terá.

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Categorias: Economia comportamental, Iniciante, Intermediário, Avançado
  • Nathan Souza

    Muito show a matéria! Gostei muito dessa discussão e espero ter mais artigos como esses no blog. Se tiverem mais fontes para aprender mais sobre economia comportamental, por favor me informa!😁

    • Ana Vitória Baraldi

      Oi Nathan!

      Esse tema é muito apaixonante mesmo né?
      Sugiro que você entre no http://www.economiacomportamental.org/ e siga eles no Facebook, eles sempre postam artigos e notícias sobre o tema.

      E pode ter certeza que falaremos mais sobre isso por aqui também!

      Abraços,
      Aninha