Advis: uma gestora no divã

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À medida que um indivíduo amadurece, ele coleciona desapontamentos e aprende que a vida é mais difícil do que havia projetado em seus sonhos da juventude. Cada revés que o mundo lhe impõe aumenta sua capacidade de avaliação, tornando-o mais sábio e prudente. Mais maduro. Em certa medida, é possível afirmar que esse padrão de amadurecimento acontece também com as empresas, de modo geral, e particularmente com as gestoras de recursos.

Antes de prosseguir na leitura, sugerimos que tenha lido o artigo “Quanto valem o passado e o futuro ao longo da vida?“, em que são discutidas algumas diferenças de percepção temporal em diversos estágios da vida. O artigo explora superficialmente o processo de amadurecimento, desde o surgimento da antevisão e da paciência na infância, até a perda de perspectivas futuras na velhice, passando pelo equilíbrio entre impulso e prudência na maturidade.

Advis Investimentos

A Advis é uma gestora fundada em 1997 que firmou-se como uma casa de excelência na gestão de recursos. Largamente reconhecida no mercado, em maio de 2013 trabalhava com mais de R$ 9 bilhões em ativos sob gestão e mais de 6.000 investidores nos seus diversos fundos.

Desde 2006, os fundos geridos pela Advis apresentam desempenho brilhante. Os resultados atraíram investidores e elevaram a empresa, que na época geria apenas alguns milhões, ao patamar atual de quase uma dezena de bilhões. Em apenas oito anos, a Advis deixou de ser mais uma boa gestora independente e tornou-se uma das maiores e melhores gestoras de recursos no Brasil.

Em apenas oito anos, a Advis deixou de ser mais uma boa gestora independente e tornou-se uma das maiores e melhores gestoras de recursos no Brasil

A principal estratégia de investimento dos maiores fundos da Advis envolve a convergência da taxa de juros brasileira para patamares mundiais. A queda da taxa de juros no Brasil, de mais de 15% ao ano para os atuais 8%, comprovou a tese da gestora, que, associada aos controles de risco desenvolvidos na própria Advis, resultou numa estratégia vencedora.

Porém, essa mesma tese de convergência de taxas de juros, que construiu o excelente histórico da Advis, foi responsável pela brusca queda que seus principais fundos sofreram nos últimos dias. Clique aqui para conferir.

A situação foi agravada pelo rápido e expressivo crescimento dos fundos nos últimos anos. Quando seus produtos começam a atrair uma onda acelerada de investidores, algumas gestoras optam por suspender a aceitação de novos clientes. Fazem isso para refrear o crescimento do fundo. Numa pausa para reflexão, reavaliam a estratégia, reavaliam o tamanho máximo que podem atingir sem perder qualidade, reavaliam o perfil dos clientes, para entender o que esses investidores esperam e planejar como entregarão o resultado almejado.

Os fundos da Advis chegaram a fechar durante alguns meses, mas logo o principal fundo foi reaberto. De certa forma, isso atrapalhou a formação das posições e principalmente, prejudicou o controle de riscos. Por mais que a estratégia global ainda possa estar certa, o solavanco que os fundos apresentaram não condiz com a expectativa da maioria dos investidores e isso pode prejudicar a gestora, se esses investidores perderem a confiança na capacidade de gestão da empresa.

Adquirindo maturidade

O problema da Advis não foi a tese de investimentos em si, mas sim uma questão de personalidade, se é que uma empresa pode ter personalidade.

Nos parece que um dos pontos centrais dessa história é que a Advis nunca errou, pelo menos não de forma significativa. Desde o início de sua existência, as estratégias funcionaram bem, os investidores obtiveram boa rentabilidade com um nível aceitável de risco. Com isso, a empresa cresceu a passos largos.

Talvez a ausência de reveses em sua trajetória tenha feito com que a equipe da Advis ficasse cada vez mais confiante de sua própria habilidade, de maneira semelhante ao adolescente retratado em nosso último artigo. O excesso de confiança na estratégia pode ter sido a causa do descuido que gerou as perdas das últimas semanas

As principais gestoras também já passaram em algum momento por situações parecidas com a da Advis

Assim como as decepções e erros da adolescência nos levam ao amadurecimento, as principais gestoras também já passaram em algum momento por situações parecidas com a da Advis. O que se espera nesse momento é que a descoberta da própria falibilidade impulsione a gestora para um momento de reflexão no qual as pessoas envolvidas processarão as novas informações disponíveis, discutirão e adaptarão a estratégia e o próprio comportamento para evitar cometer os mesmos erros. Algo semelhante a sessões de terapia.

A descoberta de que gestora pode errar mesmo quando tem alta convicção de sua estratégia deve provocar a inclusão de novas variáveis no processo de decisão. As gestoras que passam por isso e aprendem com o susto evoluem, amadurecem. Para os clientes, ganhar dinheiro é tão importante quanto não perder dinheiro e, por isso, é comum que alguns fundos fujam do risco (e do potencial de ganho) em momentos de instabilidade no mercado.

Muito a ganhar vs. Muito a perder

Intuitivamente, atribuímos solidez a gestoras ou bancos que existem há bastante tempo ou que possuem muito patrimônio sob administração. Essa análise é superficial, mas existe uma razão consistente por trás dessa percepção.

Intuitivamente, atribuímos solidez a gestoras ou bancos que existem há bastante tempo ou que possuem muito patrimônio sob administração

Instituições antigas já passaram por processos traumáticos, colecionam mais reveses. Passaram por mais oportunidades de aprender a gerenciar impulso e prudência ao lidar com as operações financeiras, os clientes, fornecedores, empregados, reguladores, etc, em muitos cenários diferentes.

Analogamente, instituições com um patrimônio expressivo sob administração geralmente atingiram esse patamar com esforço acumulado durante muitos anos. Sua posição é naturalmente cautelosa, pois têm muito mais a perder do que a ganhar com mudanças. Esse banco ou gestora vai dar menos espaço para estratégias mais ousadas e vai ser mais vigilante para evitar excesso de confiança na assunção de riscos.

Mesmo assim, a adolescência de gestoras mais jovens não é necessariamente uma característica negativa. Muitas delas terão a capacidade de aprender com a experiência das outras e nem precisarão passar pelos mesmos erros.

O momento de vida da empresa que ainda precisa conquistar seu espaço a leva a promover inovações e gerar resultados surpreendentes. Seu ânimo impulsiona a evolução do mercado e cria oportunidades, estimulando também a competitividade, que é favorável ao consumidor de seus serviços: os investidores.

Na hora de investir, a simples observação da idade e experiência de cada gestor diz pouco ao investidor. É mais um elemento que deve ser observado, dentre outros vários. Os momentos de vida (das empresas e das pessoas envolvidas) afetam a forma como esses indivíduos percebem os diferentes incentivos existentes na prudência e no impulso. Cabe a nós compreender as nuances dessas percepções e incentivos, para fazer o melhor uso possível de cada uma delas.

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Cofundador da Vérios e diretor de Estratégia de Investimento. Resende é gestor de recursos credenciado pela CVM e especialista em Data Science, mas pode chamá-lo de "Father of Algorithms" :)