As manadas e os neurônios-espelho

Já se perguntou por que as pessoas ficam tão envolvidas, por exemplo, com esportes? Parecemos um bando de malucos. Ficamos ansiosos, nervosos, roendo unhas e suando frio durante um jogo importante. O mesmo ocorre no cinema, quando assistimos a um bom filme. Há algo em nossa mente que nos conecta a outras pessoas quando as observamos, sejam elas jogadores de futebol, atores em um filme ou, simplesmente, alguém que encontramos ao acaso.

Pesquisas recentes revelaram que há um conjunto de células em nosso cérebro que são responsáveis por isso. Elas receberam o nome de neurônios-espelho e foram descobertas por acaso por pesquisadores da Universidade de Parma, liderados pelo professor Giacomo Rizzolatti. Eles estavam conduzindo testes motores com macacos. Sempre que eles faziam um movimento com as mãos para pegar um amendoim, os eletrodos sensíveis à atividade cerebral conectados aos macacos emitiam um som semelhante ao barulho de um leve choque, indicando que a região do cérebro responsável por atividade motora era ativada. Pelo menos era isso que os pesquisadores pensavam monitorar.

No entanto, um dia um pesquisador entrou na sala e pegou o amendoim. Um macaco, ainda conectado ao equipamento, que observava a movimentação gerou o som de choque. O macaco nem havia se movimentado. Foi um humano que pegou o amendoim e mesmo assim o cérebro do primata foi ativado. Ou seja, a região do cérebro que estava sendo monitorada não diferencia entre ver algo e fazer algo.

As duas coisas são tratadas da mesma forma pelo mesmo conjunto de células cerebrais. Para esse grupo de neurônios, assistir a alguém fazendo algo é equivalente a fazermos nós mesmos tal atividade. Essas células cerebrais receberam o nome de neurônios-espelho, porque refletem os movimentos observados.

Assistir a alguém fazendo algo é equivalente a fazermos nós mesmos tal atividade. A empatia instantânea é liderada pelos neurônios-espelho

Um experimento divertido conduzido nas ruas de Nova York pelo jornalista científico Robert Krulwich revela que, ao vermos alguém, nos projetamos instantaneamente em seu lugar, refletindo inclusive seus sentimentos. No teste, Krulwich saiu em uma calçada movimentada carregando sozinho uma pilha de cinco caixas grandes aparentemente muito instável. As pessoas ao seu redor não sabiam que as caixas estavam coladas e jamais cairiam. Por isso, tinham a clara impressão de que a qualquer instante a pilha toda iria se espalhar pela rua.

Esses observadores foram filmados um a um e suas expressões de aflição pelo pobre carregador de caixas são divertidas e reveladoras. Essas pessoas, conforme demonstrado por suas expressões faciais, se colocaram imediata e involuntariamente na posição de carregador. Há uma empatia instantânea liderada pelos neurônios-espelhos dessas pessoas.

É por isso que ficamos tão envolvidos quando assistimos a jogadores de esportes, como se nós mesmos estivéssemos no jogo. O mesmo vale para os atores de um bom filme. Nos emocionamos como se fizéssemos parte de cada cena.

Agora, o que tudo isso tem a ver com finanças e investimentos? Tudo! Afinal, não investimos isolados. Muito pelo contrário, gestores, analistas, traders e economistas estão o tempo todo em contato compartilhando suas experiências, acertos e erros (o compartilhamento de erros é reservado a um minoria intelectualmente honesta…). O exemplo clássico, e extremo, docontágio comportamental é o movimento de manada. Até agora, os pesquisadores pensavam ter mapeado a dinâmica de um movimento de manada, que é composta por quatro elementos:

1) a necessidade inata que temos de agir em conformidade com os demais membros do grupo em que estamos inseridos;

2) a inferência instantânea de que se um grupo suficientemente grande de pessoas faz algo, há um bom motivo para tanto;

3) errar na companhia de outros é menos embaraçoso (o grupo dá acolhimento em crises); e

4) o medo de ver outros ganhando enquanto ficamos para trás.

A pesquisa acima revela que o buraco é mais embaixo. Queiramos ou não, os neurônios-espelho nos conectam às ações e sentimentos das pessoas ao nosso redor.

Isso coloca em nova perspectiva os comentários ou reportagens vistos recentemente dizendo que “o mercado está tomado pelo pessimismo” ou “no momento atual predomina nos investidores a aversão a riscos”. Literalmente, sua mente (e a de outros) pode estar pregando uma peça na gestão de seu portfólio.

Literalmente, sua mente (e a de outros) pode estar pregando uma peça na gestão da sua carteira de investimentos

Em poucos momentos na história recente vimos uma alocação tão baixa em ativos de risco nas mais diferentes categorias de investidores brasileiros, da pessoa física a fundos de pensão. Obviamente, há uma motivação fundamentalista para isso. Afinal, estamos longe de um cenário otimista que sustente uma expectativa de alta dos mercados de risco.

O contraponto é que, quando a perspectiva melhorar, e mais cedo ou mais tarde isso ocorrerá, pouquíssimos terão posições relevantes e serão capazes de lucrar com a reversão. Em grande parte, isso será culpa de algumas células do seu cérebro responsáveis por sua empatia com os outros.

Artigo originalmente publicado no Valor Econômico (09/04/2015), republicado pela Vérios com expressa autorização do autor.

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