Brasileiro vota com o bolso?

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Faltam apenas alguns dias para sabermos quem governará o Brasil pelos próximos quatro anos. O atual cenário econômico crítico do país é um dos temas mais discutidos pelos candidatos à presidência. A desaceleração da economia brasileira se reafirma a cada nova projeção do PIB e analistas de mercado anunciam uma grande crise por vir.

Diante disso, a Vérios foi buscar na história do país os contextos econômicos em que nossas principais mudanças políticas foram deflagradas. Identificamos quatro principais crises: todas elas acompanhadas por rupturas que derrubaram governos, sinalizando que os brasileiros não hesitam em buscar mudanças drásticas quando sentem no próprio bolso o peso de uma crise.

Medindo as maiores crises da República

O que a ascensão de Getúlio Vargas ao poder e o fim da ditadura militar têm em comum? Em ambos os casos, uma intensa crise econômica era o pano de fundo. O mesmo aconteceu na queda da ditadura da Primeira República e no impeachment de Fernando Collor de Mello.

Aplicamos o método underwater de análise de investimentos para medir como as maiores crises da economia brasileira afetaram o bolso da população

Para medir o impacto das crises econômicas brasileiras ao longo dos últimos 125 anos, aplicamos o método underwater de análise de investimentos à série histórica de PIB per capita do Fundo Monetário Internacional (FMI) e consideramos apenas as variações negativas (ou seja, as reduções do PIB per capita e sua recuperação).

No gráfico interativo abaixo, mostramos o quanto o PIB per capita estava abaixo do maior ponto alcançado até então. O eixo vertical retrata as reduções do PIB per capita, que indicam a magnitude das crises. Nos trechos em que não há nenhuma área vermelha, o underwater é 0%, significando que o indicador encontra-se no maior valor já registrado na história.

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Após a Proclamação da República, em 1889, o Brasil foi governado por dois militares, Marechal Deodoro da Fonseca e Marechal Floriano Peixoto. Esse período ocasionou a maior crise econômica da história do país. Apenas três anos após iniciado o mandato de Floriano Peixoto, a ditadura caiu e tivemos nosso primeiro presidente civil.

A chamada República Velha, também conhecida como “política do café-com-leite”, não aguentou a crise mundial de 1929, quando os preços do café despencaram no mercado internacional. A nova economia industrial crescente ainda não fazia parte do cotidiano político do país, que aproveitou esse momento de fraqueza para ingressar no cenário por meio de Getúlio Vargas.

O regime militar foi um período de altíssima inflação devido ao descontrole dos gastos públicos nos anos anteriores. A população teve seu poder de compra corroído e, consequentemente, houve um empobrecimento em massa. A crise econômica pode ter contribuído de forma significativa para a mudança que viria. Em 1984, os militares saíram do poder e em 1989 foram realizadas as primeiras eleições diretas em décadas.

A abertura da economia pelo presidente Fernando Collor de Mello trouxe uma enxurrada de produtos importados, fazendo com que nossa indústria pouco competitiva sofresse repentinamente. Fora isso, os gastos públicos contribuíram para o disparo da dívida e da inflação. O confisco das poupanças foi a fagulha que faltava para que ele fosse afastado do poder.

  • Queda da ditadura na Primeira República (1893-1894)
    Redução do PIB per capita: 26,2%

  • A ascensão de Getúlio Vargas (1929-1931)
    Redução do PIB per capita: 10,3%

  • Fim da ditadura militar (1981-1983)
    Redução do PIB per capita: 12,5%

  • Impeachment de Collor (1990-1992)
    Redução do PIB per capita: 10,5%

Como estamos em 2014

No que diz respeito às propostas para a economia brasileira, Aécio Neves e Dilma Rousseff estão em uma situação desconfortável em comparação com os últimos pleitos presidenciais. Entretanto, apesar dos alardes da mídia e indicações do mercado financeiro, a crise atual ainda passa bem longe daquelas destacadas acima.

Em 2009, quando a “marolinha” (nas palavras do então presidente Lula) da crise internacional atingiu o Brasil, o PIB per capita reduziu-se em 1,2%. Para este ano, as estimativas do PIB ainda são positivas, embora perto de zero.

Do ponto de vista político, a democracia brasileira mudou muito nos últimos anos. Hoje, não é preciso pegar em armas ou mobilizar milhares de pessoas para mudar o governo. Uma alternância de partidos no poder está muito longe de ser uma revolução.

De qualquer maneira, fica a pergunta: será que o prenúncio da crise econômica que estamos vivendo ensejará rupturas políticas relevantes? O próximo domingo dará um sinal, mas só o futuro dirá.

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Cofundador da Vérios e diretor de Estratégia de Investimento. Resende é gestor de recursos credenciado pela CVM e especialista em Data Science, mas pode chamá-lo de "Father of Algorithms" :)