Como a eleição de Trump refletiu na carteira inteligente

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Há pouco mais de uma semana o mundo está tentando digerir o fato de que Donald Trump será o próximo presidente dos Estados Unidos.

Os mercados financeiros globais — inclusive a bolsa brasileira e até o Tesouro Direto — responderam à sensação de incerteza com mau humor.

No começo da semana, um cliente nos perguntou como cada um dos ativos da carteira inteligente da Vérios reagiu à notícia. É o que pretendemos responder neste artigo.

Perguntas ainda sem resposta

Demoramos um pouco mais que o normal para responder ao nosso cliente e pedimos desculpas por isso, mas o motivo da demora é justo. Precisamos entender também.

Como vai ser o governo do Partido Republicano sob o comando de Trump? Qual será o impacto nas economias globais? Qual será o impacto na economia do Brasil?

A resposta sincera de todos, inclusive dos profissionais no mercado financeiro, deveria ser “não sei”, dado que, realmente, é impossível saber. Quais promessas serão cumpridas? Quanto o presidente norte-americano efetivamente governa, e quanto é o corpo do partido que o faz? O que realmente vai acontecer?

O fato de essas perguntas ainda não terem respostas não impediu o planeta de continuar girando. O mercado financeiro esteve aberto para negociações nos dias seguintes à eleição de Trump. Pessoas tomaram decisões.

Como agravante, as principais pesquisas pré-eleitorais indicavam a vitória da candidata Hillary Clinton, do Partido Democrata, o mesmo do atual presidente Barack Obama. O mercado financeiro de certa forma contava com isso.

Se por um lado não podemos prever o futuro e adivinhar como será a gestão Trump, por outro podemos (e devemos) analisar o impacto que sua eleição teve nos mercados financeiros. Queremos ajudar você a entender o que acontece com seus investimentos.

Reflexo nos ativos da carteira inteligente

O gráfico abaixo dá uma visão geral de como foi o comportamento de cada um dos ativos da carteira inteligente nos primeiros dias após a eleição de Trump.

Lembrando que a carteira inteligente é diversificada em 5 classes de ativos:

  • Juros pós-fixados (Tesouro Selic)

  • Juros prefixados (Tesouro Prefixado)

  • Inflação (Tesouro IPCA+)

  • Bolsa brasileira (ETF PIBB que replica o índice IBrX 50)

  • Bolsa norte-americana (ETF IVVB que replica o índice S&P 500)

A linha pontilhada marca a data do resultado das eleições norte-americanas:

 

Gráfico do comportamento das classes de ativos após eleição de Trump

 

Vamos agora entender cada ativo individualmente.

Juros pós-fixados

Você já se perguntou por que essa classe de ativos é a base das carteiras da Vérios? Esse evento da eleição do Trump nos dá uma oportunidade de entender exatamente o motivo pelo qual a maior parte da carteira inteligente é composta por títulos pós-fixados.

Um furacão passou e nada demais aconteceu com o Tesouro Selic, o título do Tesouro Direto cujo rendimento está ligado à taxa Selic. O título continuou subindo devagar e sempre, no seu ritmo habitual, como se nada tivesse ocorrido.

Usamos essa classe de ativo para diminuir o risco das carteiras dos nossos clientes. Quanto menor o nível de risco da sua carteira inteligente, maior é a participação do Tesouro Selic.

Tesouro Selic

Tesouro Selic

Existem outros ativos que apresentam esse mesmo comportamento, como CDB, Compromissadas, LCI, LCA. Mas o Tesouro Selic tem o menor risco de crédito.

Juros pré-fixados e indexados à inflação

Essas duas classes de ativos foram afetadas de forma semelhante. Com o mercado financeiro mundial acreditando que Trump é pior para o Brasil do que a Hillary, divisas internacionais saem do país.

Nesse caso, tanto o Tesouro Prefixado quanto o Tesouro IPCA+ tiveram queda de preços, pois muitos investidores venderam os ativos para ir embora do Brasil.

Better safe than sorry foi a estratégia usada por muitos investidores estrangeiros que acharam melhor sair de economias mais arriscadas e instáveis, como o Brasil, a e ter a chance de se arrepender depois.

Nesses gráficos, existem diversas linhas: elas representam os vários títulos do Tesouro Direto disponíveis nessas classes com seus diferentes vencimentos.

Tesouro Prefixado

Tesouro Prefixado

Observe que os títulos com vencimentos mais longos (na verdade, duration mais longa, mas esse é um assunto para outro artigo) tiveram queda mais acentuada que os títulos mais curtos.

Tesouro IPCA+

Tesouro IPCA+

Os títulos com duration intermediária estão com cores mais fortes nos gráficos. Isso foi proposital, pois são os títulos que usamos na carteira inteligente. Nossos clientes não têm posições expressivas nem nos títulos mais curtos, nem nos mais longos.

Bolsa brasileira

Das 5 classes de ativos da carteira inteligente, a bolsa brasileira foi a mais impactada. Ela é naturalmente a classe mais arriscada da carteira e também a que tem menor percentual na alocação. O efeito Trump derrubou o Ibovespa em mais de 5% nos dias seguintes ao resultado das eleições.

No gráfico abaixo você pode ver um movimento típico de momentos em que ninguém sabe muito bem o que está acontecendo:

ETF PIBB

ETF PIBB

No primeiro dia, a queda foi mais sutil. Muita gente não sabia o que fazer. Os investidores tomam a seguinte posição: “Eu não sei muito bem o que está acontecendo, vou observar o mercado e ver o que as outras pessoas estão achando”. Só que as outras pessoas fazem o mesmo!

Pois é, sinceramente, ninguém sabe como vai ser. Erraram ao prever quem seria o presidente dos EUA. As previsões não são confiáveis. As deduções são discutíveis.

Algumas pessoas vão tentar tomar a decisão de forma mais rápida, pois acham que essa é a forma certa de agir no mercado financeiro. Só que, ao primeiro sinal de queda ou de subida, as pessoas que estão esperando o movimento das outras percebem a direção. Então elas repetem o mesmo comportamento e acentuam o movimento.

Nos dias subsequentes à eleição de Trump, as quedas na bolsa brasileira foram se amplificando. Isso são investidores copiando os outros. É o famoso efeito manada dos mercados.

Bolsa norte-americana

A carteira inteligente está diversificada em investimento no exterior com um ETF que replica o comportamento do índice S&P 500, das 500 maiores empresas nas bolsas dos EUA. Nele, está embutido o efeito da variação cambial real x dólar.

Quando os investidores deixaram o país, compraram dólares, o que fez a cotação do dólar subir bem. Se você está com viagem programada e precisa comprar moeda, deve ter sentido no bolso.

Essa classe de ativos tem um risco diversificado. Ela até pode sofrer com a vitória de Trump, mas não sofre com a piora das condições no Brasil. Aliás, nesse caso ela foi inclusive beneficiada. Por isso, subiu de forma expressiva, como você pode ver no gráfico abaixo.

ETF IVVB

ETF IVVB

Para saber mais sobre como o investimento em bolsa norte-americana funciona como um colchão de proteção para sua carteira de investimentos, leia o artigo Como a Vérios protege seu patrimônio durante crises financeiras.

E agora, o que fazer?

Você se lembra do Brexit, quando o Reino Unido decidiu deixar a União Europeia?

Foi uma situação parecida, porque maioria das pesquisas apontavam para um lado e o resultado acabou surpreendendo o mercado. Nos primeiros dias, muita gente achou que seria o fim do mundo, os mercados caíram bastante, investidores entraram em pânico, carteiras foram realocadas às pressas…

No fim das contas, o Brexit parece que já passou e ninguém nem se lembra disso direito. Os impactos de longo prazo certamente virão, mas o “derretimento dos mercados” não durou nada.

Em situações como o Brexit, o impeachment de Dilma e a eleição de Trump, quase sempre o que você precisa fazer é… nada. Como já dizia o consultor financeiro Carl Richards, não fazer nada é quase sempre a coisa certa a se fazer.

Isso vale se você já tem uma carteira de investimentos diversificada e balanceada, protegida contra cenários extremos. É o caso da carteira inteligente da Vérios.

Na manhã do dia em que saiu a notícia da eleição de Trump, enviamos a mensagem abaixo aos nossos clientes:

mensagem sobre Trump enviada aos clientes da Vérios

A sua paz de espírito é uma das nossas maiores preocupações. Manter uma estratégia de diversificação sólida, pé no chão, é o caminho que escolhemos para deixar você mais tranquilo.

Em alguns momentos, como agora, a carteira inteligente certamente refletirá as baixas dos mercados. Mas quando esse movimento se inverter, ela estará pronta para capturar as altas. No longo prazo, essa solução é a mais eficaz. Em vez de tentar adivinhar o futuro, o que é impossível, nos preocupamos em controlar o que realmente está sob seu controle: alocação diversificada e gestão eficiente de custos e impostos.

Esperamos que a explicação tenha ficado clara. Para ampliar a conversa e trocar outras ideias, é só comentar.

Categorias: Avançado, Carteira inteligente, Intermediário, Por dentro da Vérios
  • Igor Rafael

    E quanto à alta de rentabilidade de títulos de inflação? Apareceu como excelente oportunidade para o longo prazo.

    • Olá, Igor. Os títulos de inflação e os prefixados possuem uma dinâmica interessante entre preço e rentabilidade. Como o valor final é predeterminado, sempre que o preço cai a rentabilidade futura aumenta automaticamente, é uma conta matemática. A gente mostra isso nesse artigo: https://verios.com.br/blog/perder-dinheiro-tesouro-direto-tesouro-prefixado-ltn

      E você tem razão, quando ocorre queda de preços em geral é um bom momento para comprar. Se o ativo em questão não teve uma perda de valor intrínseca, a queda tende a ser uma oscilação temporária. É como se os títulos estivessem em promoção.

      Mas fique atento, se você já estava comprado em outro Tesouro Direto com retorno prefixado ou IPCA, não vale a pena trocar! A sua rentabilidade futura já foi ajustada (pelo valor atual dos seus papéis) para ficar igual à oferta atual do Tesouro. Na troca, você vai pagar impostos e gerar mais custos, e não vai ter ganho nenhum.
      Abs!

      • Igor Rafael

        Legal. E nesses casos? Caso faça um aporte durante essas oportunidades do tesouro. Ele será alocado preferencialmente nesses titulos? Ou seguirá a distribuição normal da carteira?

        Vocês já chegaram a pensar em realizar avisos aos usuários de momentos de oportunidade de aporte? Ou não seria viável?

        Abraço.

        • Os novos aportes são alocados preferencialmente nas classes que estão sub representadas, ou seja, com participação na carteira menor do que o alvo. Essas classes serão aquelas que andaram caindo, ou que andaram subindo menos que as demais. A gente não dispara avisos. Não consigo te dizer com certeza se agora é o momento mais oportuno para aportes. Imagina se eu disparo esse aviso e o mercado cai mais um pouco? Alguns clientes iam entender que o mercado é imprevisível e que nunca é possível saber se já estamos no ponto mais baixo, mas muitos outros pensariam que meu aviso “estava errado”. A verdade é que essa coisa de “melhor momento para aporte” só existe olhando no retrovisor. Planejando pra frente, o mais importante é seguir fazendo depósitos todo mês, independentemente do cenário.

          • Vale notar: outros pontos que pesam na divisão dos novos aportes, além da alocação, são o custo de compra (corretagem) e os lotes mínimos, especialmente nos ETFs. A gente pesa esses fatores também na hora de dividir o aporte.

  • SOR

    Apesar de não devermos dar grande importância a oscilações de curto prazo, mesmo quando acentuadas, achei que para o artigo ficar completo faltou indicar qual foi o retorno médio das carteiras da vérios no mesmo período e compará-lo ao benchmark.

    Imagino que não tenham feito isso por algumas carteiras apresentarem retorno negativo nestes dias, o que é perfeitamente normal diante do que aconteceu com alguns dos ativos que as compõem, mas seria uma boa oportunidade para mostrarem a seus clientes como cada tipo de carteira se comporta nestes períodos de pânico agudo.
    Tenho certeza de que pelo simples balanceamento, poderiam mostrar a todos que o desempenho relativo foi bom, apesar da queda.

    Sei também que fazer textos sobre perdas, ainda que momentâneas, seria uma propaganda negativa para a empresa, mas não deixa de ser uma forma de explicar o funcionamento da carteira balanceada aos clientes na prática.
    Abraços

    • Daniel Resende

      Realmente teria deixado o artigo mais completo. As carteiras mais agressivas tiveram alguma queda e já recuperaram quase tudo. As mais conservadoras seguraram bem e só caíram mesmo no dia mais tenso, mas recuperaram no dia seguinte.

      Vou tentar melhorar nos próximos artigos.

      Abs.

  • Lucas Cimino

    Acho que seria bacana compartilhar o resultado das carteiras não apenas dos ativos individuais

    • Davi

      Concordo. Seria interessante também podermos comparar as carteiras da Vérios, inclusive, no “Comparação de Fundos”.

      • Lucas Cimino

        De acordo!

      • Daniel Resende

        Sim, está no nosso pipeline mexer no Comparação de Fundos. Mas ainda temos uma lista de melhorias na visualização da Carteira Inteligente.