Como a queda dos juros afeta seus investimentos

Pela terceira vez consecutiva, o Banco Central reduziu os juros da economia brasileira. A meta para a taxa básica de juros, a Selic, chegou ao patamar de 14,25% ao ano em 2015, e permaneceu nesse nível por 15 meses. Em outubro de 2016, a taxa começou a baixar gradualmente e hoje encontra-se em 13% ao ano, com previsão de encerrar o ano na casa dos 10%.

Muitas pessoas nos perguntam por que investir grande parte do patrimônio em juros pós-fixados, atrelados à taxa Selic, se as perspectivas são que ela caia mais e mais.

Vamos responder em duas partes. Primeiro discutiremos as razões e os impactos da queda sobre o mercado em geral. Depois explicaremos como a carteira inteligente da Vérios reage a essa mudança no ambiente econômico.

Então vamos lá. Começamos falando um pouquinho de economia.

Por que os juros são tão altos no Brasil

O Brasil tem uma triste tradição de juros excepcionalmente altos, devido a uma série de fatores. Em um passado não tão remoto, tivemos uma série de calotes (moratórias) da dívida externa que até hoje assustam bastante os investidores estrangeiros. E investidores assustados exigem taxas de juros mais altas para compensar o risco de se investir no Brasil. 

Há também a famosa insegurança jurídica: leis confusas ou ambíguas que permitem que juízes bem-intencionados mas ignorantes sobre o funcionamento da economia (ou às vezes mal-intencionados mesmo) “perdoem” ou adiem indefinidamente o pagamento de diversos tipos de dívida. Perversamente, a imprevisibilidade desse tipo de bondade faz com que as taxas de juros aumentem para o restante dos endividados.

Além disso, o nosso longo histórico nacional de inflação alta, causada pelos elevados gastos do governo brasileiro, faz com que o Banco Central (BC) muitas vezes suba a taxa básica de juros da economia — a própria Selic — para patamares altos. Isso porque a Selic é o principal instrumento do Banco Central no combate à inflação. Juros mais altos esfriam a economia, o que na média reduz os aumentos de preços. Então quanto mais a inflação tende a subir, mais o BC aumenta os juros.

Vale lembrar que existem diversas taxas de juros no mercado: os juros do cheque especial, do cartão de crédito, etc, mas a mais fundamental delas para investidores é a Selic, cuja meta é determinado a cada 45 dias na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. A taxa Selic também é a base para outro indicador importante no mundo dos investimentos, o Certificado de Depósito Interbancário (CDI).

Os reflexos das mudanças na Selic

Mudanças na Selic afetam diferentes classes de aplicações financeiras de maneiras distintas, e às vezes contraintuitivas.

Quando os juros sobem…

A grosso modo, quanto mais altos os juros, mais atraentes se tornam ativos atrelados à taxa Selic, como o título público pós-fixado do Tesouro Direto, o Tesouro Selic.

Por outro, juros altos tornam o investimento em ações relativamente menos atraente, pois com juros altos o investidor pode migrar da bolsa de valores (que é sempre muito arriscada) para títulos públicos com juros generosos e risco menor.

Quando os juros baixam…

Inversamente, em teoria, quedas na Selic deveriam beneficiar a bolsa e prejudicar investimentos em renda fixa. Na ausência de outros fatores, deveria ocorrer um movimento de gangorra entre os juros e a bolsa.

Mas a vida é mais complicada do que isso. Para começar, há outros tipos de investimentos além dos juros atrelados à Selic e das ações de empresas.

Existem classes de títulos públicos que não são prejudicadas pela queda dos juros. No Tesouro Direto, o valor dos títulos do tipo Tesouro Prefixado de fato sobe (pelo menos no curto prazo) quando as taxas de juros caem.

Boa parte do impacto sobre os preços de ativos financeiros acontece antes que os juros caiam

Além disso, boa parte do impacto sobre os preços de ativos financeiros acontece antes que os juros caiam: basta a maioria do mercado acreditar que os juros vão cair para que os preços de alguns ativos mudem. Foi exatamente isso o que aconteceu com muitos dos títulos prefixados no ano passado: o simples fato de o mercado passar a acreditar em futuros cortes de juros fez alguns títulos subirem entre 20% e 30% (o que aliás beneficiou as carteiras administradas pela Vérios, que contém uma parcela de Tesouro Prefixado).

Outra questão é que muitos fatores além dos juros afetam os preços dos ativos.

O ano de 2017 promete ser o ano da volatilidade. No Brasil, temos a Lava-Jato, a agenda ambiciosa de reformas econômicas do governo Temer e o estado frágil da economia. No exterior, alguns riscos geopolíticos juntam-se ao imprevisível governo Trump, uma imensa incógnita para a economia global. Tudo isso contribui para enormes incertezas nos mercados financeiros. Se tudo der certo, a bolsa pode disparar e o dólar despencar. Se der errado, acontece o contrário.

Nesse momento há uma única (quase) certeza: os juros vão continuar caindo.

Por que os juros devem continuar caindo

Recentemente o Brasil passou por um longo período de inflação bastante alta, atingindo cerca de 10% ao ano, e com isso o BC manteve a taxa de juros num patamar também muito alto durante alguns anos para evitar uma escalada descontrolada de preços.

Mas nos últimos dois anos a situação virou. Talvez o único efeito benéfico da profunda crise econômica pela qual o país está passando seja o arrefecimento da inflação. Ao longo do último ano ela passou de uma taxa acumulada de mais de 9% ao ano para menos de 7%, e se espera que ao longo de 2017 ela caia para abaixo de 5%.

Com isso o BC deve ter espaço para continuar cortando os juros, e talvez mais rapidamente do que tem feito nas suas últimas reuniões. O presidente do BC, Ilan Goldfajn, tem falado abertamente sobre futuras quedas da Selic, o que surpreende um pouco, dada a habitual discrição de quem ocupa esse cargo.

As expectativas dos analistas do mercado, consolidadas no boletim Focus do Banco Central, apontam justamente nessa direção: o mercado espera que no fim de 2017 a Selic esteja em torno de 10,25% ao ano. Veja na figura abaixo a trajetória realizada pela Selic desde 2012, juntamente com o que o mercado está projetando para o fim de 2017.

Gráfico da evolução e projeção da taxa Selic: 2012 a 2018

E como a queda dos juros afeta a gestão das carteiras da Vérios?

Quem investe com a Vérios não precisa ficar preocupado com as notícias das quedas dos juros. Nossa estratégia de investimento foi construída para funcionar bem em todos os cenários. Além disso, nossa equipe está aqui, atenta e pronta para lapidar a estratégia sempre que necessário.

Entenda como o Ueslei assimila a baixa dos juros

Nosso robô Ueslei, que na verdade é um conjunto de algoritmos interligados, monitora constantemente as condições de mercado. Na medida em que mudanças nas taxas de juros afetam o comportamento dos ativos, e também os retornos esperados deles, ele ajusta aos poucos a composição de nossas carteiras para maximizar a sua relação risco-retorno.

De fato isso já vem acontecendo há alguns meses. A composição da carteira inteligente é revisada pela equipe de Estratégia de Investimento da Vérios sempre que há reunião do Copom ou algum outro evento significativo (como uma mudança muito grande na taxa de câmbio, por exemplo). Programamos os algoritmos com os novos dados e recalculamos a alocação ideal de maneira a otimizar os retornos esperados para cada nível de risco.

Aliás, é bom saber que as rentabilidades projetadas para as carteiras da Vérios não se baseiam na taxa Selic dos últimos 12 meses: os cálculos já contemplam a expectativa atual de queda da taxa de juros, conforme precificada pelo mercado. Se a Selic cair no ritmo esperado, a projeção já está alinhada. Porém, se a queda da taxa de juros acelerar mais que o previsto, a projeção de rentabilidade das carteiras acaba sendo revista de forma mais rápida.

Importante notar também que a carteira inteligente é diversificada com classes de ativos que vão render menos com a queda de juros e outras classes que vão render mais com esse mesmo movimento. De maneira geral, se o mercado precificar quedas maiores, no momento dessa precificação a carteira inteligente tende a render mais para quem já investe com a Vérios e passar a render um pouco menos para pessoas que começam a investir dali pra frente. Isso é normal! O rendimento é adequado ao novo cenário de juros.

Mas talvez você ainda esteja se perguntando isto: se a Selic está caindo, por que continuar investindo em juros pós-fixados?

A resposta está no controle do nível de risco da sua carteira de investimentos. A posição em juros pós-fixados (no nosso caso, por meio do ativo Tesouro Selic) não existe apenas para trazer rentabilidade. Uma das funções mais importantes dela é manter a carteira dentro dos limites esperados de volatilidade. Ou seja, o investimento em Selic ajuda você a não correr mais riscos do que deveria.

O investimento em Selic ajuda você a não correr mais riscos do que deveria

A carteira de nível de risco 4, por exemplo, possui uma volatilidade esperada de 4% ao ano, e é o percentual de juros pós-fixados em relação à carteira como um todo que manterá o controle do risco nesse patamar. Afinal, o título Tesouro Selic, por não sofrer com a oscilação de preços do mercado e movimentos especulatórios, é o “ativo livre de risco” dentro da nossa estratégia.

Resumindo: na Vérios deixamos a ansiedade de lado e fazemos as contas para saber qual é a forma mais inteligente de seguir nossa estratégia em um cenário de queda de juros.

Não haverá mudanças drásticas na composição da carteira inteligente de um dia para outro. Não especulamos com seu dinheiro. Olhamos custos e tributação com muita atenção. Os ajustes para um novo cenário de juros menores certamente acontecerão, mas a transição será feita de maneira suave, sem euforia, na medida certa que os números apontarem, e, principalmente, respeitando sempre os níveis de risco de cada carteira.

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Como a queda dos juros afeta seus investimentos
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Categorias: Intermediário, Avançado, Carteira inteligente, Indicadores econômicos, Economia
  • Olá Flavio,
    Sou iniciante na área de investimentos e tenho lido bastante para decifrar o “financês”.
    Tenho uma dúvida que não encontrei resposta e ficarei muito grato de puder me responder.

    Com a queda da SELIC, a rentabilidade de papéis como o Tesouro SELIC diminui, fazendo com que o preço para a compra de tais títulos aumente.
    Como a SELIC é sempre positiva, se eu mantiver o título até o final não corro risco de perda.
    Sei que o rendimento real vai depender da SELIC na data do resgate, descontados a inflação e o IR.
    No entanto, minha questão é: com a SELIC em queda e o valor para compra de tal título aumentando, se eu vendê-lo antecipadamente ele não seria vendido pelo valor de mercado? Com isto, eu estaria vendendo o título por um preço superior ao que comprei (obviamente é preciso calcular os ganhos reais).

    Obrigado.

    • Olá, Manoel! Posso te adiantar uma parte da resposta e, se o Flavio sentir falta de algum ponto, ele complementa.
      Primeiro: parabéns por procurar se informar! O financês não é fácil e muita gente inteligente, culta e educada não entende como funciona o mercado. O primeiro passo é se informar, mesmo!

      Sobre a sua pergunta, houve uma pequena confusão. A queda da Selic **não** causa aumento do preço do Tesouro Selic. O Tesouro Selic é o mais estável de todos os papéis, ele rende um pouquinho todos os dias, sem oscilação perceptível de preço. É o título do Tesouro Direto mais parecido com a renda fixa tradicional, como poupança, CDB e afins. Ele não dá sustos no investidor.

      Esse comportamento que você descreveu, de aumento do preço atual e valorização pra quem já tinha o título, acontece no Tesouro Prefixado e no Tesouro IPCA (inflação). Nós temos 3 artigos que explicam essas três dinâmicas de funcionamento:

      Prefixado: https://verios.com.br/blog/perder-dinheiro-tesouro-direto-tesouro-prefixado-ltn
      Inflação (IPCA): https://verios.com.br/blog/e-possivel-perder-dinheiro-no-tesouro-direto-caso-2-tesouro-ipca-com-juros-semestrais-ntnb/
      Selic: https://verios.com.br/blog/e-possivel-perder-dinheiro-no-tesouro-direto-caso-3-tesouro-selic-lft/

      Outro ponto: você não precisa segurar o título até o fim. Com o Tesouro Selic, você não tem o risco de perda. Mesmo no Prefixado e Inflação, se você controlar o duration da forma correta (combinando diferentes prazos), você não precisa segurar até o fim. Essa dica de segurar até o fim é uma simplificação, para tornar mais fácil o controle. Aqui na Vérios a gente acompanha o duration bem de perto e o mais importante é segurar o papel até atingir a menor alíquota de imposto. Depois disso, pode valer a pena trocar o prazo de vencimento para um mais compatível com o estado atual da sua carteira. Uma pequena quantidade de título longo tem o mesmo impacto que uma grande quantidade de um título curto. Mas aqui a história começa a ficar mais complicada. Se quiser entender mais de duration, temos tb um bom artigo do Flavio no blog sobre isso. 😉

      Abraço!

      • Olá Felipe,
        Muito obrigado pela resposta. Já tinha lido bastante sobre os outros títulos, mas os 3 artigos que você citou foram bem mais esclarecedores.

        Quanto ao Tesouro Selic, entendo que é o título mais seguro, estável e sem sustos.
        No entanto, não sei se deixei passar algo, pois tenho percebido aumento de preço deste título com a queda da Selic.
        Por exemplo, no dia 06/12/16 o título estava sendo vendido a R$ 8355,51, com deságio de 0,04%. Hoje (27/01/2017), o título está sendo vendido a R$ 8.512,68, com deságio de 0,05%. O preço de fato veio subindo ao longo deste intervalo de tempo. Se “a queda da Selic não causa aumento de preço do Tesouro Selic”, fiquei confuso com esta situação que descrevi.

        Fiz o cadastro na Vérios mas não estou utilizando o Ueslei ainda. Por isso, tenho investido manualmente pela Rico devido a um projeto de curto prazo.

        Obrigado mais uma vez.

        • Flavio Abdenur

          Olá Manoel, a rentabilidade dos títulos da classe Tesouro Selic é sempre positiva; o que mudanças no patamar da Selic afetam é a *velocidade* do crescimento do título

          Para ilustrar com um exemplo simples, imagine que no começo do ano X você tenha investido R$1.000 no Tesouro Selic e que naquele momento a Selic estava a 20% ao ano

          Nesse caso, no fim do ano X o seu investimento vai valer R$1.200. Já se a Selic cair subitamente para 10% no começo do ano X +1, então o valor do título *não* vai cair ou subir bruscamente; ele vai apenas passar a rentabilizar mais lentamente a partir daquele dia

          Então se a Selic for mantida em 10% ao longo do ano X + 1, no fim do ano X + 1 aquele seu investimento inicial de R$1.000 vai valer R$1.320 (ou seja, R$1200 x 1,1, ou equivalentemente R$1.000 x 1,2 x 1,1)

          Foi exatamente isso que aconteceu com o título que você comprou. Antes da queda mais recente da Selic o valor dele vinha aumentando à velocidade de aproximadamente 13,75% ao ano; depois da queda ele passou a crescer um pouco mais lentamente, à velocidade de 13,00% ao ano

          abraço!

          ps – a conta abaixo verifica que a rentabilidade (anualizada) do seu título entre os dias 06/12/2016 e 27/01/2017 foi de aproximadamente 13,66:%

          R$8355 x 1.1366^(53/365) = R$8512

          • Olá Flavio,

            Ficou bem claro agora.
            Abrigado a todos e parabéns pelo excelente trabalho que vocês vêm fazendo em desmistificar e tornar mais acessível o conhecimento em investimentos.

          • Flavio Abdenur

            Obrigado a você, Manoel! abraço!