Como investir no exterior com ETFs de bolsa americana

Recentemente, mais um cliente nos procurou querendo investir no exterior – vamos chamá-lo de Marcelo. Nós já havíamos notado que o interesse por esse tipo de investimento havia crescido bastante, por diversos motivos.

O cenário político conturbado, a desaceleração econômica nacional e a perda de valor do real em relação ao dólar foram os principais catalisadores desse processo. Muitos investidores ficaram inseguros com as condições do país e resolveram buscar alternativas em “moeda forte”.

Porém, o caso de Marcelo teve desdobramentos marcantes. Vamos explicar um pouco da dificuldade que ele enfrentou tentando acessar o mercado norte-americano do modo tradicional – talvez seja um aprendizado para você não acabar na mesma situação que ele. Em seguida, você vai ver como os ETFs de bolsa americana no mercado brasileiro tornaram muito mais simples diversificar com investimentos no exterior sem ter que mandar dinheiro para fora.

O que aconteceu com Marcelo

Como na ocasião não trabalhávamos como esse tipo de operação, Marcelo foi ao banco onde tinha atendimento na área private. A gerente abriu sua conta numa filial do banco nos Estados Unidos, enviou dois milhões de dólares e… “sumiu”: não sabia como orientá-lo no próximo passo, e não sabia conectá-lo com ninguém no banco que pudesse fazê-lo.

Uma vez que o dinheiro estava nos Estados Unidos, Marcelo ainda precisava definir onde investir e ficou completamente sozinho. Voltou a nos procurar pedindo orientação, mas o novo investimento, dentro do banco, estava fora da nossa alçada. Um assessor americano lhe enviou dezenas de opções de fundos, sem maiores explicações sobre os riscos, custos, tributação.

Nós recomendamos que ele procurasse o serviço de investimento automatizado oferecido pelo Wealthfront.com. Ele entrou em contato, mas foi informado que, por não possuir uma identidade americana (social security number) e um endereço de residência permanente, não poderia fazer uso do serviço.

Enfim, depois de deixar o dinheiro parado por mais de dois meses, Marcelo acabou escolhendo um fundo que lhe pareceu OK, sem muita análise. Foi uma péssima experiência.

Casos como esse não são raros. Uma matéria publicada na Folha de S. Paulo em 2014 (Investimento fora do Brasil é caro e requer cuidados extras, 22/09/2014) resumiu as dificuldades para esse tipo de investimento, que muitas vezes inviabilizam a operação.

Em geral os custos, a burocracia operacional de cadastro, câmbio, declaração anual de investimento no exterior e tributação são impeditivos. Uma vez superada a red tape, vem a parte mais difícil: em que aplicar? Não são pequenos os desafios que o investidor enfrenta para investir fora do Brasil.  Mas há formas mais fáceis de fazer isso.

A bolsa americana dentro da bolsa brasileira

Hoje, é possível investir em uma cesta de ações das principais empresas negociadas nas bolsas de valores norte-americanas, com exposição à variação do dólar, utilizando um veículo muito mais simples e barato: um ETF de S&P 500, negociado no Brasil.

Já existem na Bovespa dois ETFs que cumprem esse papel: o iShares S&P 500 da BlackRock (IVVB11) e o It Now S&P 500 do Itaú (SPXI11). Ambos acompanham o índice Standard & Poor’s 500, que representa as 500 maiores empresas negociadas na NYSE ou na NASDAQ, por valor de mercado.

Como funciona o investimento no exterior via ETFs

Eles já foram tema de um artigo aqui na Vérios, falamos o que são ETFS, o funcionamento e mostramos que podem ter um importante papel num plano de investimento de longo prazo. Entre as vantagens estão a conveniência, eficiência de custos e transparência que tais ativos oferecem.

Com ETFs de S&P 500, é possível investir em ações de empresas americanas sem burocracia. Você não precisa abrir conta no exterior, fechar contrato de câmbio, enviar dinheiro para fora do país, informar Banco Central etc.

Basta abrir uma conta em qualquer corretora no Brasil e comprar o ETF pelo home broker, em reais, como se fosse uma ação de uma empresa brasileira negociada na BM&F Bovespa.

A cotação e a negociação são em reais, mas atenção: você passa a estar exposto à oscilação das 500 empresas listadas no S&P 500 mais a oscilação do câmbio entre real e dólar.

Existe, porém, uma barreira à compra desses ETFs: pela própria complexidade da posição (500 empresas, câmbio, mercado externo), eles são reservados apenas para investidores que se declarem qualificados. Com a nova Intrução CVM nº 554 de 2014, que passa a vigorar a partir de 1º de outubro de 2015, essa restrição deixa de existir caso você invista contando com o serviço de um gestor de recursos, como a Vérios. (Clique para simular um plano de investimento que inclui o investimento em bolsa americana.)

Mais um mercado para diversificação

A diversificação entre classes de ativos descorrelacionadas (sujeitas a riscos distintos entre si) é um dos principais motivos a justificar a inclusão das bolsas de valores americanas em uma carteira de investimentos.

São empresas líderes em setores de ponta da economia mundial, com fontes de receita não concentrada em setores, regiões ou países. O valor de mercado de todas as companhias que integram o índice soma aproximadamente US$ 19,5 trilhões. Essas 500 empresas valem mais de oito vezes o PIB anual do Brasil.

Para integrar o índice S&P 500, há uma série de critérios a serem alcançados. Dentre eles, as empresas precisam ter valor de mercado superior a US$ 4,6 bilhões e mais de 50% das ações em poder do público para negociação. Para fins de comparação, a Natura possui valor de mercado próximo a US$ 4 bilhões.

Entre as empresas com maior participação no índice S&P 500, estão: Apple (4,02%), Exxon Mobil (2%), Microsoft (1,93%), Johnson & Johnson (1,53%) e a empresa de Warren Buffet, a Berkshire Hathaway (1,47%)1. Há outras 495 grandes companhias, como Google, GE, Coca-Cola, Disney, JP Morgan, Pfizer e Nike compondo este índice. Comprar um ETF de S&P 500 é investir nessa cesta de ações.

Estrutura: ativo alvo

Os dois ETFs em questão, para acompanhar um índice de mercado estrangeiro, compram cotas de fundos negociados na bolsa americana. Ou seja, o ETF brasileiro compra cotas de um ETF americano. Esse ETF americano é chamado de ativo alvo, pois é o alvo final do seu investimento no ETF brasileiro.

O iShares S&P 500 da BlackRock possui como fundo de índice alvo o IVV, enquanto o It Now S&P 500 do Itaú investe no SPY, ambos negociados na NYSE.

Quando você compra ou vende cotas desses ETFs na bolsa brasileira, todas as operações de integralização ou resgate, conversão de câmbio e liquidação financeira internacional são efetuadas entre os agentes autorizados, administradores, gestores e as respectivas bolsas de valores envolvidas, no caso a BM&F Bovespa e a NYSE.

Custos

Assim como qualquer tipo de investimento, você precisa entender também os custos. Ao investir em ETFs, você vai incorrer em custos de administração, transacionais e de manutenção.

Os custos de administração máxima dos dois ETFs disponíveis no Brasil é de apenas 0,27% ao ano. Isso já inclui os custos de aquisição e manutenção dos ETFs alvo, no exterior.

Os transacionais são aqueles que ocorrem quando você compra ou vende os ETFs – são as taxas de corretagem. Lembre-se de que esses custos incidem todas as vezes que você comprar ou vender, por isso é importante não ficar girando a posição: compre e mantenha uma quantidade adequada ao seu perfil de risco, focado no longo prazo.

Já os custos de manutenção estão relacionados à custódia dos ativos em carteira. Tantos os custos transacionais como os de custódia variam de acordo com a corretora que você escolher.

Tributação

Os ETFs são tributados com a alíquota de 15% sobre o ganho de capital. Eles não contam, porém, com o limite de isenção de IR para negociações de pessoas físicas de até R$ 20 mil por mês, como acontece com os investimentos diretos em ações.

Liquidez

Os ETFs possuem a mesma liquidez de uma posição comum em bolsa: venda imediata e liquidação financeira em 3 dias úteis. Além disso, contam com a figura do formador de mercado, que é responsável por dar liquidez ao ativo. Então, mesmo quando um ETF é novo e possui poucos investidores, a liquidez não é um problema.

Dividendos

Os dividendos, bem como outros rendimentos relativos às ações da carteira, são reinvestidos automaticamente pelo administrador do fundo de índice alvo.

Compare e entenda as diferenças

Por fim, preparamos uma tabela comparativa entre os dois ETFs de S&P 500 disponíveis no Brasil, para ajudá-lo a entender as diferenças entre eles.

ETFs de bolsa americana disponíveis no Brasil

ETF iShares S&P 500 (IVVB11) It Now S&P 500 (SPXI11)
Gestor BlackRock Itaú Unibanco
Administrador Citibank Itaú Unibanco
Taxa de adm. máxima 0,27% a.a. 0,27% a.a.
Moeda de compra Real Real
Benchmark S&P 500 S&P 500
Formador de mercado Credit Suisse Credit Suisse
Fundo de índice alvo IVV SPY
CNPJ 19.909.560/0001-91 17.036.289/0001-00

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1Dados obtidos na lâmina do IVVB11, na página do ETF no site da BlackRock, com data de 28/02/2015.

Como investir no exterior com ETFs de bolsa americana
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Categorias: Avançado, Ações, Câmbio e investimentos no exterior, ETFs
  • Tiago Ávila Fernandes

    Caros, qual o impacto da valorização/ desvalorização do real frente ao dólar no valor das cotas desses ETFs? Obrigado

    • Ana Vitória Baraldi

      Oi Tiago,
      A valorização/desvalorização dos ETFs corresponde à variação em dólares do ativo, ou seja, quando o dólar subir, a cota do ETF também subirá, se o dólar cair, ela cairá. Ou seja, o ETF de bolsa americana rende a variação do índice S&P 500 mais variação do dólar menos os custos. Recentemente, o ETF teve um ganho duplo: a bolsa americana subiu e o dólar subiu. Também podem ocorrer perdas duplas, com a bolsa e o dolár caindo juntos.

      • Tiago Ávila Fernandes

        Muito Obrigado Ana Vitória

  • Pingback: Fundos de Investimento em Índices: O Futuro do Mercado Financeiro | Terraço Econômico 2.0()

  • R S

    O texto é muito bom e útil. Conhecia apenas o IVVB11. O SPXI11 surge para mim como mais uma opção.
    Um ponto não tratado no texto e que me parece importante mencionar é o de que se, por um lado, esta forma de investir nos mercados externos tem a vantagem de simplificar a operação (e reduzir alguns custos), em contrapartida, mantém o risco associado à manutenção dos recursos dentro do país, continuando sujeitos aos efeitos das regulações locais ou mesmo às eventuais violações de direitos cometidas por nossos governantes.

    • Com certeza. Os ETFs protegem dos riscos econômicos e de mercado; mas não do risco regulatório, pois o dinheiro continua “passando” por estruturas dentro do nosso país e, portanto, sujeito às nossas leis. Obrigado pela contribuição!

  • edw

    Muito interessante o post. Busquei informações e….R$1.000.000,00 no mínimo. Deprimiu

    • O mínimo de R$ 1 milhão é da nova definição de “investidor qualificado”, conceito que foi modificado recentemente pela CVM. Mas não é necessário investir R$ 1 milhão neste ETF, basta ter investimentos financeiros que somem, no total, esse valor (em quaisquer investimentos).

      Com a nova Instrução CVM nº 554 de 2014, que passa a vigorar a partir de 1º de outubro de 2015, essa restrição deixa de existir caso você invista contando com o serviço de um gestor de recursos.

      • Olá Felipe, poderia explicar melhor a questão do investidor qualificado? “essa restrição deixa de existir caso você invista contando com o serviço de um gestor de recursos.”Como assim, podemos investir em fundos que necessitem ser qualificado mesmo tendo menos de 1 milhão? obrigado pela ajuda

        • Oi, Rodrigo. Sim, é possível. Se a sua carteira estiver sendo administrada por um profissional (carteira administrada: https://goo.gl/xMFLwA), você pode investir em produtos destinados a investidores qualificados, mesmo que você não seja qualificado. A Instrução CVM 554, que atualmente define os requisitos para ser investidor qualificado ou investidor profissional, também estabeleceu que “A obrigatoriedade de verificar a adequação do produto, serviço ou operação não se
          aplica quando: […] o cliente tiver sua carteira de valores mobiliários administrada discricionariamente por
          administrador de carteira de valores mobiliários autorizado pela CVM.” Veja esse link para entender como funciona a administração de carteira: https://goo.gl/xMFLwA Abs!

  • Jonas

    O que exatamente é um serviço de um gestor de recursos?

    • Jonas, é quando existe um profissional movimentando os seus investimentos. Isso pode acontecer via clubes, fundos ou carteiras administradas. O começo desse artigo diferencia produtos e serviços financeiros, veja: https://verios.com.br/blog/carteira-administrada-o-que-e-e-como-funciona/

      • Bruno Dias

        Olá, eu consegui comprar cotas desse fundo sem problemas na minha corretora. Como qualquer ação. Comprei no mês de setembro quando essa regra de ter 1 milhão ainda valia. O que pode acontecer? Devo me preocupar?

        • Bruno, a regra existe para proteger o investidor. Você deve se preocupar em entender bem o risco do ativo, pois é um ETF sujeito à variação da bolsa americana MAIS a variação do dólar. A sua corretora é que tem que fazer a regra valer, limitando a compra do ativo por investidores que não são considerados investidores qualificados ou investidores profissionais.

          • Sim, entendi bem o ativo antes de meter a cara. To bem satisfeito de tê-lo na carteira

  • Emilio

    Olá,

    Utilizo o IVVB11 como instrumento de investimento em ações americanas, para me utilizar das facilidades apontadas no texto.

    Tenho interesse em investir em outros mercados também, como o britânico, francês, chinês, alemão.

    Vocês têm alguma informação de se existem planos de criação na bolsa brasileira de ETF indexados a esses mercados, nos moldes do que o IVVB11 é para a bolsa americana?

    Entrei em contato com a BOVESPA, mas aparentemente eles não entenderam a minha pergunta (ou se fizeram de desentendidos).

    Att,
    Emilio

    • Olá, Emilio. Por enquanto não temos informações sobre o surgimento de novos ETFs para representar os mercados que você indicou. O que sabemos é que a legislação de ETFs no Brasil cria uma série de dificuldades para a utilização de índices estrangeiros. O processo de criação do primeiro ETF de S&P 500 levou cerca de 5 anos (!!!) e foi aprovado em regime de exceção pela CVM. Por isso imagino que ainda demore para surgir outros desse tipo. Abs!

  • Não, Carlos. Geralmente não há grandes spreads. O primeiro ponto é que o formador de mercado atua de forma a fazer a cotação do ETF sempre acompanhar os preços dos ativos subjacentes. Ou seja, não é comum haver grandes aberturas, pra cima ou para baixo. Segundo que, se por qualquer motivo houver descolamento de preço, qualquer grande player no mercado pode criar ou destruir cotas do ETF, trocando-as pela cesta de ações correspondente, com pequenos ganhos. Essa arbitragem de preços faz com que o preço do ETF sempre fique bem perto do preço do índice.
    Se houver interesse, leia mais em: https://verios.com.br/blog/etfs-o-que-sao-e-como-funcionam/ Abs!

    • Carlos

      Bem esclarecedor. Obrigado!