Como reconhecer o conflito de interesses

Você paga por um serviço e espera que ele seja prestado de maneira a atender os seus interesses. Do outro lado do balcão, porém, também existe alguém com interesses próprios. Quando ambos os lados são motivados em direções opostas, a forma como o serviço é prestado pode ser distorcida, enviesada. É assim que nasce o conflito de interesses.

No mercado financeiro, isso acontece todos os dias, o tempo todo. Você sabe como reconhecer quando está vulnerável a essas situações? Sabe como lidar com isso? Vamos abordar o assunto e dar algumas dicas neste artigo.

Conflito de interesses nos seus investimentos

Na consultoria

A relação pessoal, onde deveria haver maior confiança, é uma seara de potenciais conflitos de interesses. Veja só: imagine que você está buscando suporte para cuidar da sua carteira de investimentos e, para isso, decide contratar um consultor.

Se o serviço prestado não for isento e profissional, há o risco de o consultor recomendar produtos de investimento que atendam aos interesses dele ou da empresa – ou seja, aqueles que paguem maior comissão (rebate) a empresas do grupo. Enquanto isso, o seu interesse de obter os investimentos mais adequados ao seu perfil fica em segundo plano.

Digo isso com conhecimento de causa: também sou consultor. O risco a que você está exposto é real. A necessidade de eliminar ou reduzir esse conflito de interesses foi um dos fatores que impulsionou nos Estados Unidos a ascensão dos serviços de investimento automatizado, ou robo-advisors.

O consultor de investimentos é o profissional que deveria trabalhar com maior isenção no mercado, pois ele é contratado com a expectativa de trabalhar em prol do interesse do cliente, assim como um médico ou um advogado. Para minimizar o risco de conflito, o ideal é remunerá-lo por meio de honorários, desvinculado do tipo de investimento adquirido.

No banco

Para quem investe com os grandes bancos de varejo, o conflito está nas regras do jogo. O próprio fato de o banco limitar as opções de investimentos a produtos da casa já é um indicativo, principalmente àqueles que já têm um grande patrimônio investido e pagam altas taxas de serviços ao banco.

É realmente difícil esperar isenção dos bancos. Já imaginou chegar no Banco do Brasil e o gerente lhe falar que o Bradesco está com uma oferta melhor?

Já imaginou chegar ao Banco do Brasil e o gerente lhe avisar que o Bradesco está com uma oferta melhor?

Os bancos operam com estruturas comerciais robustas e com metas de vendas. Há campanhas para vender produtos de investimento, e os gerentes competem entre si. Um exemplo emblemático que trouxemos à tona no ano passado são os fundos de investimento que ganham mais que seus clientes.

Da próxima vez que seu gerente oferecer um investimento, faça um exercício. Pense nele como um vendedor numa loja de roupas, que vai dizer que o produto ficou ótimo em você, mesmo que não tenha ficado. Tente avaliar se realmente é um bom negócio, ou se você só o está ajudando a bater uma meta de venda.

Nas assessorias

O serviço de assessoria é prestado por agentes autônomos, que são pessoas ou empresas contratadas por corretoras ou administradoras para distribuir produtos financeiros. Como não podem cobrar diretamente do cliente, as assessorias são remuneradas por comissões (spreads, rebates ou taxa de colocação) dos produtos que comercializam.

Assessores de investimento estão sujeitos ao mesmo risco do consultor e do gerente do banco: incentivar a distribuição de produtos financeiros mais vantajosos para quem está atrás do balcão do que para o cliente.

Na Vérios, transparência e alinhamento de interesses são valores sólidos.  Foi com essa motivação que criamos o Comparação de Fundos, em 2011. E já faz algum tempo que falamos sobre conflito de interesses, um tema que normalmente é tabu no mercado financeiro.

Em nossa atuação como assessores, também tivemos que lidar com o conflito de interesses. Em diversos momentos, distribuímos aos nossos clientes fundos que não nos rendiam nenhuma remuneração, mas que eram bons investimentos para eles.

Sempre procure entender de onde vem a remuneração de cada produto ou serviço que você contrata

Aliás, fique sabendo: muitos bons produtos não pagam o tal rebate do assessor. É, ficamos no prejuízo diversas vezes… É o preço de atuar da forma que julgamos certa em um mercado com estruturas enferrujadas.

Independentemente de onde você mantém seus investimentos, sempre procure entender de onde vem a remuneração de cada produto ou serviço que você contrata. A seguir, vamos ajudar você a identificar isso em alguns produtos de investimento.

Conflitos mais comuns por tipos de investimento

CDBs, LCIs e LCAs

Se você estiver comprando um desses produtos, compare as taxas que estão lhe oferecendo. Vamos supor que o banco esteja disposto a pagar 100% do CDI para captar seu investimento e financiar alguma operação de crédito.

É bem provável que seja passada uma ordem para a área comercial da seguinte forma: a diferença obtida entre 80% e 100% do CDI pode ser revertida em bônus para a equipe.

Com certeza, seu gerente fará de tudo para que você invista com a menor rentabilidade possível, pois isso significa maior remuneração para ele. É a remuneração por spread.

Fundos de investimento

Nos fundos, a remuneração vem na forma das taxas de administração e de performance. Gestores dividem essas taxas com distribuidores. Como falamos, no mercado essa comissão é conhecida como rebate. Não há um padrão no mercado. Alguns gestores pagam mais, outros pagam menos.

O curioso é que os gestores mais consistentes e testados no mercado dificilmente pagam rebate. Procure saber qual a política de rebate dos gestores do fundo Verde ou Dynamo Cougar, por exemplo.

Fundos imobiliários

Esse talvez seja o caso mais representativo dos últimos anos de conflito de interesses no mercado financeiro. Vivemos essa febre dos fundos imobiliários aqui na Vérios: fomos incentivados a distribuir os produtos, mas decidimos não participar dessa moda.

Eram oferecidas comissões de 2% a 3% de taxa de colocação sobre o quanto o cliente investisse no lançamento do fundo. E essas comissões eram pagas imediatamente, ou seja, para cada 100 reais que o cliente investia, só sobravam 97, no primeiro dia. E os pagamentos paravam aí. Não havia estímulo de verificar a fundo se o cliente ficaria bem investido, se o produto era adequado, já que não haveria remuneração pela permanência do cliente satisfeito. O incentivo para os assessores era focado apenas na decisão do cliente participar do lançamento – e o distribuidor era muito bem remunerado com isso.

Olhando em retrospectiva, vemos que tomamos a decisão correta, pois não são poucos aqueles que perderam muito dinheiro com fundos imobiliários. Para quem quiser saber mais, contamos essa história em detalhes na época:

O perigo dos fundos imobiliários (parte 1)
O perigo dos fundos imobiliários (parte 2)
Investimento da moda: a boa oportunidade que já passou

Como lidar com o conflito de interesses?

Agora que você já conhece as fontes de receita de alguns dos principais produtos e serviços financeiros, pergunte sobre os custos envolvidos e política de remuneração, metas e bonificação quando for tomar uma decisão sobre investimentos,. Essa é a melhor maneira de reconhecer possíveis conflitos de interesse e ponderar até que ponto os seus próprios interesses estão ficando para trás.

Há também condutas que podem ser seguidas pelos profissionais de investimentos para trabalharem de forma alinhada com os clientes. Consultores habilitados com a certificação CFP®, por exemplo, devem seguir um Código de Ética com o objetivo de mitigar potenciais conflitos de interesse.

Investir a partir de uma metodologia testada e reconhecida também é uma forma eficaz de se evitar o conflito de interesses, pois as escolhas dos produtos para a carteira passam a seguir uma estratégia pré-definida, e não critérios arbitrários do assessor ou consultor.

O caso dos ETFs

Você já deve ter recebido ofertas para investir em muitos produtos diferentes. Mas alguém já lhe disse que os ETFs são um bom veículo de investimento? Provavelmente, não. Por quê?

Uma das características dos ETFs é ter custos muito baixos (em geral, abaixo de 0,5% a.a.). Isso praticamente elimina a margem para remunerar os assessores pela distribuição, o que representa uma dificuldade para a disseminação desse tipo de investimento.

De certa forma, podemos dizer que os ETFs são ativos financeiros “imunizados” do vírus conflito de interesses.

Na política, nos negócios, nos tribunais, na medicina…

O conflito de interesses não está restrito ao mercado financeiro, claro. Esse é um conceito bem mais amplo, presente em diversas áreas de nossas vidas. Já parou para pensar nestes exemplos?

  • A maneira como é definida a remuneração dos nossos parlamentares. São eles mesmos que determinam o quanto irão receber. Na linguagem jurídica, é o que chamam de “legislar em causa própria”.
  • O caso da Petrobras é um outro exemplo notável, que teve consequências criminais. A origem do problema está no conflito de interesses: diretores que deveriam trabalhar pelo crescimento da companhia, no exercício pleno do desvio moral, cobravam propinas para oferecer facilidades a empresas prestadoras de serviços.
  • Juízes devem se afastar do julgamento de processos em que possa haver conflito de interesses. São os casos de impedimento e suspeição. Agora, imagine o caso do Ministro do Supremo Tribunal Federal José Antônio Dias Toffoli, que foi advogado do PT e participou do julgamento envolvendo dirigentes do mesmo partido, no processo do mensalão. É possível acreditar que a atuação dele no processo tenha sido imparcial?  
  • Pense também nas relações entre médico e paciente. Os médicos são assediados constantemente por laboratórios farmacêuticos, com treinamentos e incentivos para receitar determinados medicamentos. Temos muitos leitores médicos. Se você for um deles, talvez possa nos contar mais sobre isso nos comentários e ajudar a elucidar como pode ocorrer conflito de interesses na medicina.

Em resumo

Busque reconhecer e debater o conflito de interesses. Ignorá-lo pode ser o caminho mais fácil, mas é um risco muito maior para a construção do seu patrimônio no longo prazo.

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Categorias: Planejamento pessoal