Como seria o Ibovespa se não houvesse tanta especulação

O Índice Bovespa ou Ibovespa é o indicador mais utilizado para medir as oscilações da Bolsa de Valores de São Paulo, porém sua metodologia de cálculo envolve ajustes que o tornam mais enviesado para a especulação do que para o desempenho real das companhias listadas. 

O Ibovespa, como é conhecido, vem sendo medido desde 1968 e retrata o comportamento dos principais papéis negociados na bolsa. Para isso, leva em consideração os preços de uma cesta teórica de ações, que é rebalanceada a cada quatro meses.

Ações altamente especulativas têm participação no Ibovespa superior à sua real importância na economia

São atribuídos diferentes pesos às ações que compõem o índice, de acordo com o volume de negociação de cada papel nos 12 meses anteriores (veja abaixo como é calculado o índice). Dessa forma, papéis com alto volume de negociação ganham um peso maior no índice, mesmo que representem empresas com menor expressão no mercado.

Isso faz com que ações altamente especulativas tenham uma participação no Ibovespa desproporcional à sua real importância na economia.

Vejamos alguns casos concretos. Hoje, a empresa de capital aberto com o maior valor de mercado no Brasil é a Ambev. Mesmo assim, ela tem apenas o 16º maior peso do Índice Bovespa.

Por outro lado, empresas como a OGX acabam tendo maior influência no Ibovespa. O grande destaque que essa empresa tem na mídia gera muita especulação e nervosismo, aumentando o número de operações de compra e venda de ações da OGX. Dessa forma, ela ganha mais peso no índice. Assim, o excesso de fofocas sobre Eike Batista acaba atribuindo mais peso às ações de sua companhia e afetando de maneira relevante o principal indicador do mercado acionário brasileiro.

O índice não leva em conta nenhuma consideração sobre a qualidade das empresas que o compõem

Já a Ambev, que é extremamente bem administrada e apresenta resultados crescentes, possui acionistas com perfil mais tranquilo, que compram e seguram suas ações. O menor volume de negócios causa uma redução do peso da Ambev no Ibovespa, apesar de ocupar o primeiro lugar em valor de mercado no país.

Um Ibovespa diferente

Inspirados por um artigo deste excelente blog, começamos a nos perguntar o que aconteceria se o índice fosse calculado levando em conta o valor de mercado das empresas, e não seu volume de negociação. Curiosos com essa questão, pusemos o exercício em prática.

Redistribuímos o peso das ações no Ibovespa, de acordo com o valor de mercado de cada companhia. Abaixo, destacamos as principais discrepâncias entre a representatividade no Ibovespa e o valor de mercado. Para ler o gráfico, é simples. Com o Ibovespa ajustado por valor de mercado, a Ambev passou a representar quase 12% a mais do índice.

Discrepância entre representatividade no Ibovespa e valor de mercado

Se fosse considerado seu valor de mercado, ao invés do volume de negociações, a Vale deveria responder por 3,2 pontos percentuais a menos no total do Ibovespa.

 Em seguida, recalculamos o Índice Bovespa para os últimos dois anos, e confrontamos com o índice original. O resultado é interessante.

Fundo Rentabilidade Volatilidade (Risco)
Ibovespa Real -12,1% 23,2%
Ibovespa Valor de Mercado -1,8% 20,3%

Comparação de rentabilidade

Gráfico de comparação da rentabilidade do Ibovespa por valor de mercado (índice fictício) e por volume negociado (índice real)

Conclusões

Esse assunto é muito mais extenso e sério, e já existem discussões acadêmicas sobre o tema, confrontando pontos positivos e negativos sobre diversas possíveis metodologias de cálculo para o índice de ações.

Porém, fica evidente que a proposta do Ibovespa é medir o humor do mercado e não necessariamente o desempenho das melhores empresas negociadas em bolsa. O problema é que esse índice passou a ser referência de desempenho da BM&FBovespa e é muito difícil romper esse padrão (nós mesmos utilizamos o Ibovespa).

Com a proliferação de fundos passivos, que trabalham simplesmente para copiar e acompanhar o desempenho do Ibovespa, diversos investidores acabam ficando mais expostos à especulação e menos expostos às empresas sérias e bem administradas.

Temos sempre isso em mente ao conversar com os gestores de fundos de ações, para assegurar que nossos clientes investem em fundos que buscam criar valor e não simplesmente acompanhar movimentos de mercado.

Como o índice é calculado

A cada quatro meses, a BM&FBovespa recalcula seus índices (o Ibovespa não é o único). Deixando de lado detalhes sobre ajuste de dividendos, fusões de empresas, split de ações e casos bizarros como a Mundial, o processo é o seguinte:

  1. Verifica-se o volume de negociação de todas as ações listadas no último período de 12 meses.
  2. Calcula-se o percentual de representatividade de cada ação no volume total.
  3. Ordena-se as ações, da mais negociada para a menos negociada.
  4. Soma-se o percentual de cada ação, começando pela mais negociada e descendo, até que a soma alcance 80% do volume negociado. Essas serão as ações do índice.
  5. Recalcula-se o peso de cada ação, para que a soma volte a ser 100% (por exemplo, se uma ação tem 8% dos negócios, ela terá 8% de 80% = 10% do Índice Bovespa).

Para conhecer todos os detalhes da metodologia de cálculo, consulte este documento da BM&FBovespa. Portanto, o Ibovespa foi feito para medir as oscilações de preços das ações que representam 80% do volume de negociações dos últimos 12 meses. O índice não leva em conta nenhuma consideração sobre a qualidade das empresas que o compõem.

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