Craques que não foram escalados para a Copa porque nasceram em dezembro

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Na teoria, a Copa do Mundo é o campeonato onde os melhores jogadores se encontram. Cuidadosamente selecionados desde as categorias de base, eles saíram dos lugares mais variados e cada seleção escolheu os 23 atletas mais bem-preparados para representá-las nos gramados. Mas será que os treinadores conseguem realmente selecionar os melhores?

Fizemos um levantamento sobre os jogadores da Copa, tomando por base um estudo esportivo clássico sobre as datas de nascimento dos jogadores de hockey (Birthdate and success in minor hockey: The key to the NHL, de 1987). De acordo com esse estudo, que é aplicável a qualquer categoria esportiva que siga processos semelhantes de identificação de talentos, é possível que tenhamos deixado de fora alguns gênios do futebol somente porque nasceram no final do ano.

Um fato que o nosso levantamento identificou sobre o mundial de 2014 é que há cerca de 50% mais atletas nascidos no primeiro trimestre do ano, em relação ao número de jogadores nascidos no último.

Quantidade de jogadores da Copa 2014
que fazem aniversário em cada mês

Quantidade de jogadores da Copa 2014
que fazem aniversário em cada trimestre 

Jan-Mar
216 (29,3%)
Abr-Jun
194 (26,3%)
Jul-Set
178 (24,2%)
Out-Dez
148 (20,1%)

Identificamos que na Copa de 2014 há cerca de 50% mais jogadores do primeiro trimestre do que do último

A teoria que busca explicar esse fato é que, ainda quando crianças, dividimos os atletas pelo ano de nascimento. Seja nas escolas, em clubes ou escolinhas esportivas, quem nasceu em 1985 geralmente compete com seus colegas que também são de 85; os de 1986 competem com os do mesmo ano, e assim por diante. A distorção surge porque, entre crianças, um ano de diferença é muito mais significativo que entre adultos.

Uma criança de 5 anos é muito mais nova do que uma com 5 anos e 11 meses. No fim das contas, a criança mais velha (nascida no começo do ano) acaba tendo maior porte físico, melhor coordenação motora e se destaca para o olheiro. Já a mais nova (nascida no fim do ano), ainda é muito franzina em comparação com os demais atletas e é descartada mais frequentemente.

A partir desse primeiro filtro na infância, acabamos por dar mais oportunidades de treino e desenvolvimento aos jogadores que nasceram no começo do ano. Isso significa que podemos ter deixado algum Neymar cair no anonimato somente porque ele nasceu em dezembro e ainda era fraquinho comparado às outras crianças nascidas naquele mesmo ano.

Pequenas mudanças nos processos seletivos podem eliminar o “viés de aniversário”, e talvez por isso haja países com maior e menor discrepância

Os autores do estudo citado acima mencionam ainda um outro trabalho, da mesma época, em que ficou demonstrado que essas diferenças baseadas em datas de nascimento não foram constatadas em outros esportes. A hipótese para explicar a ausência desse “viés de aniversário” é que os processos de seleção de talentos das outras modalidades avaliadas não começavam a selecionar jogadores numa idade tão nova quanta do processo que ocorria no hockey.

Isso mostra que pequenas mudanças nos processos podem eliminar a tendência e dar iguais oportunidades de desenvolvimento para os atletas nascidos em todos os meses. Além disso, eles apresentam algumas propostas de soluções para eliminar conscientemente as diferenças.

Independentemente dos motivos que geram maior ou menor discrepância, se tomarmos por base somente os dados desta Copa, podemos ver que as diferenças são mais acentuadas em alguns países do que em outros. Veja, no gráfico abaixo, como a divisão dos jogadores por semestre de nascimento varia entre as seleções.

Percentual de jogadores nascidos em cada semestre

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