Crise na Argentina: inflação, FMI e bitcoins

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Os argentinos estão sofrendo novamente com crises financeiras desencadeadas por políticas econômicas desastrosas. O que poucos brasileiros sabem – ou se lembram – é que os acontecimentos no país vizinho por pouco não aconteceram também aqui no Brasil. Os dois países adotaram estratégias econômicas parecidas na década de 90, com resultados bastante diferentes.

Inspirado no Pengo Fiscal da Hungria, o Brasil criou o Plano Real em 1994. Os três pilares do plano foram o equilíbrio das contas públicas, a criação da URV como forma de preservar o poder de compra da população assalariada, e o lançamento do novo padrão monetário, o real. Apesar das diversas críticas recebidas, o Plano Real conseguiu acabar com a hiperinflação e criar um ambiente econômico mais estável no nosso país.

Mas o resultado poderia ter sido diferente. Mais ou menos na mesma época, e também com o apoio do FMI, a Argentina adotou um pacote de medidas baseado no Consenso de Washington, para buscar estabilidade econômica.

Na mesma época, Brasil e Argentina adotaram, com apoio do FMI, medidas semelhantes para buscar estabilidade econômica

A Argentina foi ainda mais rigorosa que o Brasil no cumprimento das recomendações do FMI. Enquanto nós adotamos as bandas cambiais, eles abraçaram a estrita paridade de sua moeda com o dólar.

Na prática, ambos os governos controlavam o câmbio de maneira artificial, atuando como fortes vendedores da moeda estrangeira no mercado interno, para conter a sua valorização. Para realizar essas vendas, os governos eram obrigados a destruir suas reservas e/ou contrair empréstimos internacionais.

Em 1999, após a reeleição de Fernando Henrique Cardoso, as reservas brasileiras estavam secando e a dívida externa crescendo. Assim, o Brasil abandonou o sistema de bandas cambiais e praticamente acabou com o Plano Real, restando apenas o nome da nossa moeda. A Argentina, por sua vez, manteve o regime de paridade até 2002.

O Brasil abandonou as bandas cambiais em 1999, mas a Argentina manteve a paridade até 2002

Quando a paridade do peso argentino com o dólar americano finalmente terminou, a dívida dos nossos vizinhos, contraída em moeda estrangeira, disparou junto com a cotação do dólar e a situação tornou-se insustentável. Em 2002, a Argentina decretou a moratória, no maior calote de dívida soberana já visto pelo mundo até então.

Uma observação curiosa é que, em 2004, a Diretoria de Avaliação Independente do próprio FMI divulgou um relatório criticando a postura do FMI perante a Argentina na década de 1990.

A situação econômica no país nunca foi muito bem resolvida, mas o cenário global de crescimento no começo dos anos 2000 ajudou a sustentar a economia argentina.

Com a crise de 2008, a Argentina voltou a se desestabilizar. O governo continuou adotando medidas populistas, com os gastos públicos fora de controle. Com a piora do cenário externo e a impressão de moeda, a inflação disparou.

A alta da inflação intensificou fuga de recursos para moedas e países mais estáveis, como tentativa de driblar a acelerada perda de valor do peso argentino. Para tentar conter a saída de divisas, o governo passou a manipular os índices oficiais de inflação e a restringir a aquisição de moedas estrangeiras no país.

A pressão econômica fez florecer um mercado paralelo e ilegal de câmbio, onde as taxas praticadas chegavam a ser o dobro das taxas oficiais

No último dia 23 de janeiro, o governo argentino flexibilizou os controles do câmbio, para aliviar a acelerada corrosão de suas reservas. Com a flexibilização, o peso argentino desvalorizou mais de 10% perante o dólar, em apenas 1 dia.

A inflação é um problema grave, pois corrói a riqueza acumulada no país. Os instrumentos que o investidor pode buscar para se proteger dela são custosos e não estão disponíveis para todos. E a ameaça pode ser ainda maior. Países com altas taxa de inflação, pobreza, desemprego, costumam entrar em convulsão. Diversos historiadores colocam a hiperinflação da República de Weimar como um dos fatores que permitiram a ascenção de Hitler ao poder na Alemanha.

Os governos são agentes econômicos importantes, mas não são capazes de controlar completamente a economia. Podem apenas influenciá-la. E a pressão econômica gera formas criativas de driblar as medidas governamentais. Com os limites à compra de dólares, muitos argentinos estão adquirindo Bitcoins como forma de mandar o dinheiro para o exterior. O problema da inflação é antigo, os instrumentos para fugir são novos.

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Cofundador da Vérios e diretor de Estratégia de Investimento. Resende é gestor de recursos credenciado pela CVM e especialista em Data Science, mas pode chamá-lo de "Father of Algorithms" :)