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14 de julho de 2017 Ultima atualização: 17 de agosto de 2018

Deflação: entenda o que é e saiba se ela afeta seus investimentos

14 de julho de 2017

O Brasil tem um histórico de inflação bem peculiar. Basta voltar algumas décadas no tempo para relembrar da chamada “hiperinflação”, ocorrida entre os anos 1980 e 1990. Nesse período, a inflação chegou a ultrapassar (pasmem!) os 80% ao mês, o que significa dizer que um produto poderia quase dobrar de preço de um mês para o outro. Era aquela época em que as etiquetas dos produtos nos supermercados sofriam trocas a todo instante tamanha a instabilidade.

Na prática, a hiperinflação representa uma alta generalizada e contínua dos preços, corroendo o poder de compra dos consumidores. Para se ter uma ideia, entre 1980 e 1989, a inflação média no Brasil bateu 233,5% ao ano. Já na década seguinte, o índice saltou para 499,2% anuais.

Depois desses episódios, que ficaram na memória dos brasileiros, qualquer movimento inflacionário brusco ou diferente desperta um misto de curiosidade e medo sobre as consequências. O fantasma da hiperinflação, felizmente, não assombrou mais o país, mas a inflação em níveis elevados voltou a assustar em 2015, quando o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) – índice oficial de preços ao consumidor – bateu 10,67%. No ano passado, a inflação deu uma trégua, para 6,29%, segundo o IBGE.

Neste ano, o IPCA tem mostrado oscilações mais modestas mês a mês. Mas em junho, o índice chamou a atenção ao registrar variação negativa. No mês, houve deflação de 0,23%, a primeira em 11 anos. Em outras palavras, a cesta de produtos e serviços que o IBGE utiliza para medir o consumo médio dos brasileiros ficou mais barata em relação a maio. Então, isso é bom? Depende.

Em poucos momentos da história, o país apurou deflação por muitos meses consecutivos

No Brasil, esse fenômeno não é frequente. Conforme dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em poucos momentos da história, o país apurou deflação por muitos meses consecutivos. Mas será que o movimento ocorrido em junho representa um perigo para a economia brasileira e para os cidadãos? Há chances de um cenário deflacionário mais longo? Isso pode afetar seus investimentos, principalmente de renda fixa?

Para sanar essas e outras dúvidas que possam pairar sobre sua cabeça, preparamos uma série de perguntas e respostas, após entrevista com o economista, professor e palestrante Richard Rytenband, especialista em investimentos. Confira:

O que é deflação?

A deflação significa queda no nível geral de preços, ou seja, os preços médios dos produtos e serviços caem em determinado período. Trata-se, portanto, de um movimento contrário ao da inflação, que representa a elevação dos preços.  

Qual a diferença entre deflação e desinflação?

Desinflação é uma redução na taxa de inflação, ou seja, os preços continuam subindo, mas numa velocidade menor. É justamente isso que tem ocorrido neste ano, por exemplo. Já a deflação representa um recuo no nível geral de preços, causado por recessão, principalmente. Numa economia em crise, o consumo tende a diminuir, levando as empresas a reduzir os preços dos produtos e serviços.

O Brasil corre risco de passar por um período de deflação prolongado? Quais as reais chances de isso acontecer?

Rytenband explica que a deflação verificada em junho foi conjuntural (pontual), e não estrutural. “Não há forças deflacionárias estruturais no Brasil. No acumulado do ano, a inflação oficial deve estar pouco acima de 3%”, diz. Ele lembra que, mesmo na última vez (2006) em que houve inflação negativa, o fenômeno foi conjuntural. Em junho daquele ano, a queda no nível geral de preços fora de 0,21%. Uma queda mais acentuada havia acontecido em agosto de 1998, quando o IPCA cedeu 0,51%.

Há dois tipos de deflação, é isso? Quais os efeitos de cada uma?

Existe a deflação boa e a ruim. A deflação boa é originada de aumento da produtividade, isto é, o país consegue produzir mais e com custos menores. Um exemplo, segundo o economista, é o setor de tecnologia em diversos países. Numa situação como essa, os consumidores têm acesso a produtos e serviços a preços menores.

Existe a deflação boa e a ruim. A diferença entre cada “tipo de deflação” mexe, de maneira distinta, com os investimentos

Já a deflação ruim ocorre a partir de uma combinação de fatores: queda brusca na atividade econômica, aumento do desemprego, diminuição na renda. Isso acaba forçando a redução do nível geral de preços por uma queda na demanda. A diferença entre cada “tipo de deflação” mexe, de maneira distinta, com os investimentos.

Se a deflação for ruim, os investimentos das empresas, por exemplo, vão sendo postergados. Num cenário de deflação boa, há incentivos, pois a queda nos preços é fruto de avanços e inovações tecnológicas, que estão colocando a competição em outro patamar.

O que fazer com os investimentos? É preciso se preocupar neste momento?

Segundo o economista, não há motivos para entrar em pânico ou ficar desesperado, pois o fenômeno ocorrido em junho foi pontual. Nesse sentido, os investimentos não sofrem impacto negativo. Rytenband lembra da importância de observar o retorno real das aplicações financeiras, ou seja, a rentabilidade descontada a inflação. “No caso de deflação, um baixo rendimento nominal poderá produzir um bom retorno real. Da mesma forma, períodos de elevada inflação corroem os bons retornos nominais”, explica.

Por exemplo, não adianta obter um rendimento de 10% em uma aplicação se a inflação for de 20%, pois o poder aquisitivo estará menor ao fim do período, isto é, você conseguirá comprar menos coisas com a mesma quantia. Se a inflação for negativa, o rendimento real fica mais elevado.

Qual o comportamento do Tesouro IPCA+, por exemplo, num cenário de deflação?

Os títulos públicos atrelados à inflação oficial, conhecidos como Tesouro IPCA+, garantem a taxa de juro real (acima da inflação, portanto), desde que os papéis sejam mantidos pelo investidor até a data de vencimento. Aí vai um exemplo: se você comprar o título com juro real de 6% ao ano (veja os preços dos títulos no site do Tesouro Direto), mas depois o mercado passa a precificar esse título a 3% ao ano, o valor do título terá subido no mercado, caso queira vender antecipadamente naquele momento, explica Rytenband.

“Da mesma forma, se o papel for comprado com rendimento de IPCA + 3% ao ano, e essa taxa real sobe para 6% ao ano, se quiser vender antecipadamente, será a um preço bem menor, com perdas, já que o valor do título caiu bastante.”

Saiba mais sobre como são definidos os preços do Tesouro IPCA+ neste artigo.

Quem tem aplicação no Tesouro IPCA+ pode sofrer perdas, com a deflação?

Não. Segundo o economista, o investidor pode ter perdas se houver uma elevação na taxa de juro real negociada no mercado secundário, e se desfizer do papel antes da data vencimento. Caso contrário, terá a taxa real mais a variação do IPCA no período. Ele lembra que, num cenário deflacionário estrutural (deflação ruim), o Banco Central procura incentivar a atividade econômica reduzindo, assim, as taxas nominais.

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Jornalista especializado em economia e finanças pessoais, Danylo escreve para o jornal Valor Econômico, portal UOL e revista VOCÊ S/A, além do seu blog Economia Sem Enrosco e de colaborar com o blog da Vérios

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