Desculpe-me, mas precisamos falar sobre a morte

ciclista e carro: precisamos falar sobre a morte

Fiquei muito feliz por ter inspirado diversas pessoas com meu último artigo, quando relatei minha decisão de vender o carro para diversificar nos investimentos e na minha mobilidade pela cidade de São Paulo.

A repercussão da minha história superou qualquer expectativa que eu pudesse ter. Mais de 115 mil pessoas leram meu texto no LinkedIn. Quase dois Maracanãs cheios de gente. Esse número me deixou uma grande responsabilidade…

vendi-carro

Ainda não leu meu texto anterior? Acesse aqui

Lá se vão alguns meses desde que comecei a pedalar todos os dias de Pinheiros até a Vila Olímpia, ida e volta, um trajeto de 12 km.

Nesse meio tempo, vivenciei diversas situações nas ruas, e elas me ensinaram uma lição: abrir mão do conforto e da segurança de uma caixa de metal para se aventurar em duas rodas pelas ruas da cidade pode ser bem menos romântico do que mostra minha foto aí em cima.

Foi então que me senti na obrigação de escrever um segundo texto. E aqui estou eu para falar com vocês sobre situações que colocam minha vida em risco todos os dias.

Ah, então isso que é ser corajoso…

Quando publiquei o primeiro texto, recebi centenas de mensagens de pessoas que, assim como eu, tinham vendido o carro ou estavam em vias de fazê-lo. Vi uma enxurrada de elogios à minha iniciativa. No meio de tantas mensagens, notei uma palavra que sempre se repetia: coragem. Todos comentavam sobre a minha coragem de abandonar o carro para pedalar pela cidade.

Eu achei que coragem tivesse a ver com minha atitude de vender o carro. Com o desapego. Embora eu não percebesse nenhum mérito especial na minha atitude, a palavra “coragem” continuava aparecendo… Até que a ficha caiu. Não era coragem de desapegar do carro. Era coragem de encarar as desventuras do dia a dia de um ciclista nas ruas. Só podia ser isso!

ciclovia da Faria Lima: cruzamento

Na boa, você realmente precisa de um pouco de coragem para encarar diversos cruzamentos como este. Uma vacilada e…

O Código Nacional de Trânsito é bem claro:

Os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres.

Art. 29, Inciso XII, Parágrafo 2º

Mas… não há dúvidas de que ainda estamos nos habituando a conviver em harmonia no trânsito. Infelizmente, não estamos acostumados a circular pelas vias públicas respeitando o outro como um ser humano de igual valor. Em vez disso, encaramos o outro como um inimigo, alguém que é um rival na disputa por aquele espaço.

Pedalando em São Paulo eu posso dizer que realmente eu tive (e ainda tenho) muita coragem.

“A pressa não vale uma vida”

Essa era a frase que um ciclista de Belo Horizonte levava nas costas. A foto dele ilustrava uma matéria sobre o desrespeito com ciclistas, que acaba gerando mais acidentes no trânsito:

ciclista: a pressa não vale uma vida

Quem me enviou essa reportagem foi um amigo. Aliás, sempre que sai na mídia alguma coisa envolvendo “morte de ciclista” ou algo parecido, recebo uma notificação. São meus amigos preocupados com a minha “coragem” na selva de pedra paulistana. Um leve aviso que entendo como “Não morra, Bruno”.

Nos primeiros dois meses pedalando, posso dizer com total propriedade: quase perdi a vida — ou fiquei gravemente machucado — umas 5 vezes.

As situações foram as mais diversas:

  • Um motorista avançou o sinal vermelho e tive que frear bruscamente;
  • Um colega ciclista ultrapassando na contramão de forma irresponsável quase bateu de frente comigo;
  • Um motociclista invadiu a ciclovia para escapar do trânsito;
  • Um pedestre tirou a manhã de sol para passear na ciclovia e parecia não enxergar as dezenas de bicicletas ao redor…

E a última (e mais assustadora) situação:

  • Um pai resolveu passear com GÊMEOS na ciclovia em seu carrinho de bebê duplo – aliás, já vi este cara duas vezes fazendo isso. Sim, pasmem!

Isso sem contar diversas situações com motoristas que digitavam em seus celulares e, desatentos, não me viram na bike. Tenho que ter atenção em dobro: por mim e por eles.

Depois desses sustos, resolvi pedalar mais devagar. Percebi que não era a pressa do outro que poderia me matar ou deixar muito machucado, e sim a minha. Ou a pressa de tudo, do todo, do sistema, da vida, do desejo cego de chegar ao destino final o mais rápido possível…

Minha relação precoce com a morte

Para explicar o porquê de eu falar da morte logo no título do meu texto, preciso contar de onde eu vim.

Nasci e fui criado em um bairro de classe baixa no município de São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Minha rua ficava ao lado de um cemitério e a janela do meu quarto dava para as “gavetas”, onde são armazenados os ossos após a exumação dos cadáveres.

Como toda criança do subúrbio, eu vivia na rua. Pude me divertir de todas as formas que uma criança dos anos 1980/1990 podia, porém com o “bônus” de ter o cemitério como a extensão do meu quintal.

cemitério de São Miguel

Cemitério de São Miguel em São Gonçalo (RJ), ou o quintal da minha casa quando criança

Minha lista de experiências com a morte começou cedo: além de assistir ao enterro das pessoas de perto enquanto corria atrás de pipa no cemitério, perdi avôs e tia-avó ainda na infância; meu pai, com quem eu era muito apegado, se foi quando eu tinha apenas 12 anos; e, por último, perdi minha avó materna aos 21.

Essa sequência esmagadora de porradas me fez entender que tudo tem um começo, meio e fim, estando você pronto ou não para as mudanças que cada perda causa na sua vida.

Mas não é pelo fato de eu saber lidar com a morte que eu aceite que ela é inevitável. Porque em alguns casos, como no trânsito, ela pode ser evitada. Mas para isso é preciso contar com o esforço coletivo de cada uma das pessoas que dirigem caminhões, ônibus, carros, motos e bicicletas. E também dos pedestres.

Não queremos guerra

Existe uma tensão que todo mundo sente, mas ninguém fala abertamente sobre ela. Não sei se você que está lendo é motorista ou ciclista. Talvez ambos, por que não?

De qualquer forma, você já deve ter se enxergado nessa situação: o motorista do carro bacanudo, parado no trânsito congestionado, olha para o lado e, com certa raiva e uma pontinha de inveja, olha pra você que avança livre pela ciclovia. Troco olhares assim todos os dias, enquanto atravesso o coração do mercado financeiro de São Paulo pela ciclovia da Faria Lima.

banner-blog-lancamento

Antes eu achava que era só uma impressão minha, mas essa sensação de guerra fria no calor do asfalto ficou clara depois que li o manifesto da Rede Nossa São Paulo. O texto traduz muito bem o estado de alerta permanente em que todo ciclista deve se colocar no momento em que pisa no pedal.

Essa tensão não pode se tornar um tabu.

Questões partidárias à parte (principalmente sobre a velocidade nas vias da cidade), a verdade é que, embora eu não tenha medo de morrer, não quero ir agora, e muito menos ficar hospitalizado, dando trabalho para família, amigos, ou pra minha namorada, que torce todos os dias para que eu chegue bem em casa.

No exato momento em que escrevia este texto, recebi de uma amiga mais uma matéria sobre uma ciclista que morreu no trânsito após ser atropelada por um ônibus. Mais um ser humano que perdeu o nome para virar estatística.

Tudo que quero como ciclista é a paz e o entendimento que o outro está em uma posição mais frágil do que quem está sobre quatro (ou mais) rodas no trânsito.

Da mesma forma que o ciclista deve prezar pela segurança pedestre, a moto, o carro, o ônibus e o caminhão devem prezar pela segurança do ciclista. Existe uma ordem de grandeza que deve ser respeitada, e isso não é uma coisa nova que estou propondo. Está na lei.

Vamos ter que nos acostumar com isso. Cedo ou tarde, a convivência nos fará aprender na marra.

Até chegarmos lá, vai ser assim: alguns vão perder a vida, outros vão se machucar… A maior parte das pessoas vai ler a notícia e se sentir distante, até o momento em que subam numa bicicleta, mesmo que seja para uma pedalada despretensiosa no final de semana, (quando há muito menos carros circulando) e sintam na pele a insegurança de ser ciclista.

E já que, até alcançarmos a convivência em paz, teremos que lidar com essa guerra silenciosa, deixo uma pergunta pra gente refletir. Será que estamos prontos para falarmos mais sobre a morte no trânsito?

banner-calculadora-objetivos

Categorias: Cansou de ler sobre investimentos?
  • SOR

    Já pedalo diariamente para o trabalho há mais de um ano, inclusive por trechos sem ciclovias e posso dizer que minha experiência tem sido bem diferente.
    Nas raras vezes em que me vi em situação de risco foi por alguma imprudência que cometi.
    Não digo que todos os carros respeitem as bicicletas, mas se tiver alguns cuidados básicos, pode aumentar bastante sua segurança:
    1) ter sempre muita atenção a tudo ao seu redor (carros, ônibus, outras bicicletas, buracos na via e, principalmente, pedestres, que não escutam as bicicletas se aproximando e muitas vezes entram na via sem perceber sua presença e nem olhar para trás)
    2) tentar antecipar as situações antes que elas aconteçam, evitando o risco (frear, reduzir velocidade ou acelerar, conforme a situação);
    3) jamais usar fones de ouvido ao pedalar (uma das maiores irresponsabilidades que vejo diariamente nas ruas);
    4) quando andar fora da ciclovia, pedalar o mais próximo possível da velocidade dos carros (se isso não for possível, você provavelmente está em uma via que não apresenta segurança suficiente para se andar de bicicleta);
    5) Nunca pedale próximo ao meio-fio. Quando você faz isso, os veículos que vem atrás acham que conseguem ultrapassá-lo sem mudar de faixa e quase o derrubam. Pedale entre o meio da faixa e sua extremidade da esquerda. Isso força os veículos que querem ultrapassá-lo a mudar de faixa e ainda lhe garante um espaço razoável para se afastar dele em caso de uma fina;
    6) Não fique na frente de um ônibus em velocidade. Eles são grandes e, em geral, não nos respeitam. Se perceber um se aproximando velozmente, saia da frente e ceda passagem;
    7) sempre que se sentir inseguro, vá para a calçada, lembrando-se sempre de que, neste local, mais do que qualquer outro, o pedestre é o rei, não importa como ele se comporte na sua frente.
    8) ao mudar de faixa, NÃO sinalize com as mãos (mas evidentemente tenha o cuidado de olhar se é possível fazer isso com bastante segurança). As ruas de São Paulo tem muitos buracos e irregularidades. Ao tirar uma das mãos do guidão para fazer o sinal você fica muito mais suscetível a quedas caso neste exato instante passe por um buraco.

    Torço para que mude esta percepção de insegurança e, quem sabe, no futuro publique um novo texto com uma experiência mais positiva e que sirva de estímulo a novas pessoas a seguir o mesmo caminho.

    • Primeiramente, MUITO obrigado pelas valiosas dicas! Vou tentar colocar em prática no meu dia a dia! Fiquei surpreso quanto à questão da sinalização, mas tem total sentido a explicação! 🙂

    • Muito boas as dicas!
      Eu costumava pedalar com fones de ouvido, até cair a ficha de quão perigoso é isso. E essa de sinalizar com a mão… me pegou de surpresa. Sempre achei que sinalizar é uma medida de segurança. Agora me fez pensar e ainda tô em dúvida. Acho que os buracos fazem parte e a gente pode ficar atento à presença deles e sinalizar nas conversões.
      A questão de ficar no meio da pista está muito certa, eu faço isso quando não tem ciclovia, mas já fui hostilizado por motoristas que aparentemente acreditam que eu (ciclista) não tenho direito de ocupar aquele espaço. Já tomei buzinadas, xingamentos e fechadas. Às vezes as três coisas de um mesmo motorista.

      • Às vezes as buzinadas e xingamentos partem de um motorista que está falando ao celular…

      • SOR

        A dica da “não sinalização” é controversa, já que contraria os manuais. Muita gente irá discordar.
        Mas já passei mais de uma vez pela experiência de sinalizar no exato instante em que passava por uma irregularidade da via mais e posso dizer que foram os momentos em que estive mais perto de uma queda. Acabei mudando de postura e passei a não sinalizar.

        Uma colega do trabalho relatou que sua filha se acidentou exatamente deste jeito.
        Enfim, é para se avaliar, ainda que não se concorde.

        Uma dica ainda mais controversa, que não mencionei na primeira postagem por contrariar a legislação de trânsito e saber que o blog terá que necessariamente fazer suas ressalvas, é atravessar o sinal vermelho quando isso for muito seguro (antes de eu ser apedrejado: antes da travessia, reduza bastante a velocidade ou mesmo, se necessário, pare por completo, olhe para TODAS as direções e somente atravesse se não houver NENHUM carro se aproximando, exatamente como faria se fosse um pedestre naquela situação e local).
        O por que disso? Quando você atravessa no vermelho você tem uma chance de se afastar dos carros e pedalar longe deles. Também minimiza o problema de a bicicleta ter uma aceleração mais lenta quando o sinal abre.
        Por incrível que pareça, atravessar o sinal vermelho pode lhe proporcionar um pouco mais de segurança (mas novamente repito: somente faça a travessia nas situações que considere admissível fazer também como pedestre)

    • Isabella Paschuini

      Muito boas as dicas, SOR!

      Uma outra coisa que acho importante é pedalar sempre pela direita. Quando o trânsito tá meio parado, vejo vários ciclistas “serpenteando” entre os carros, tirando fino… Se não quero que os carros tirem fino de mim, também não vou tirar fino deles. Por conta disso eu sempre me ferro nos horários em que algumas ruas mais estreitas ficam engarrafadas. Aí vou pra calçada. Mas como você falou: o pedestre é rei. Se não me engano, é proibido pela lei andar de bike na calçada. Se não tem ninguém eu vou, mas se aparece um pedestre eu desço e vou empurrando um pouquinho. Tudo bem, minha bike é “flex”, rs.

      E o que você falou sobre sinal vermelho… Eu faço isso às vezes também, é o que você disse: é o que um pedestre faria, mas fico sentindo olhares tortos dos motoristas e me sinto meio mal… Ser ciclista é ser meio motorista, meio pedestre, acho que isso também é ruim.

      O que eu evito ao máximo é pedalar na contramão, mas tbm vejo muitos colegas ciclistas fazendo isso. Às vezes o trecho da rua na contramão é tão curtinho que eu vou, mas se tiver muitos carros eu logo desço da bike e me passo por pedestre, rs.

      Enfim, acho que assim como queremos que os motoristas respeitem as leis de trânsito, nós temos que fazer o mesmo.

    • Rodrigo Silva

      Sou ciclista, pedalo para o trabalho no trajeto Santo André -> São Caetano -> SP (próximo ao ipiranga) e concordo contigo. são 19km de ida e 19km de volta sem ciclovia. eu só não concordo com o VÁ PARA A CALÇADA.

  • João P.

    Apesar do risco, andar de bike é possível, principalmente se tiver ciclovia no percurso. Para trajetos relativamente curtos (como Pinheiros-Vila Olímpia, ou qualquer coisa de até uns 6-8 km de distância) a bike é a escolha de transporte mais racional e eficiente. É preciso pensar rápido e prestar atenção, o que é o oposto do que a maioria dos motoristas de carro faz, por causa do vício em redes sociais (e na dopamina de conferir os likes).

    Não quero incentivar a tensão do asfalto, mas motorista de carro tem que ser menos chorão. Eles adoram reclamar dos ônibus, dos ciclistas, do trânsito (enquanto contribuem para o próprio trânsito), isso quando não estão ocupados demais respondendo mensagem no whatsapp. Bicicleta NÃO PREJUDICA O FLUXO, o que causa trânsito, acidente e engarrafamento é o excesso de carros. Basta ver a marginal: sem ônibus, sem pedestre, sem bike, em muitos horários já não pode caminhão e, VEJA VOCÊ, todo dia fica engarrafada.

    Eu também dirijo carro e sei que ciclistas erram e às vezes podem ter atitudes irresponsáveis. Uma vez que está vivendo em sociedade com pessoas de todo tipo, tem que parar de levar essas situações pro lado pessoal e seguir seu caminho sem mimimi. Conseguir desviar de uma bicicleta é o básico para uma pessoa que teve que fazer um curso de direção por MESES e tirar uma habilitação.

    Quanto às dicas do SOR, tudo perfeito, mas acho que na maioria das situações o ciclista pode sim com segurança andar mais encostado e deixar os motoristas fazerem a ultrapassagem. Não precisa ser colado no meio fio, mas também não deve atrasar o trânsito na via inteira só pra provar um ponto de vista.

    • João, muito obrigado pelos comentários – adorei a “dopamina de conferir os likes”! vou usar.

      Moral da história, acho que o caminho é: atenção em dobro sempre. Tem que pedalar por todo mundo. Ter atenção em dobro vai de comum acordo com o ato de pedalar mais devagar.

      Vejo muita gente achando que a ciclovia é um velódromo. Ciclistas que transferiram suas frustrações de não conseguirem correr com seus carros descontam em quem apenas quer chegar no seu destino com segurança e tranquilidade.

      Nas minhas primeiras 3 semanas eu pedalei rápido; depois parei e pensei. Tive que desacelerar para sobreviver. Abs!