E a França não quebrou: como a CSHG errou da maneira certa

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Uma das casas de investimento de maior referência no Brasil é a Credit Suisse Hedging-Griffo, que possui uma equipe de gestão notável. A gestora é liderada pelo lendário Luis Stuhlberger, que administra pessoalmente o Fundo Verde, maior caso de sucesso na história do mercado financeiro do Brasil, e fechado para novos aportes há anos.

O Luis e o Fundo Verde não são o assunto deste artigo, mas se quiser saber mais sobre eles, leia o Especial Gestoras: CSHG. Aqui, vamos falar sobre um fundo específico lançado pela CSHG no ano passado.

Um fundo com resultados negativos pode ser o resultado de um trabalho muito melhor que o de um fundo com resultados positivos

A hipótese

Com a deterioração da situação econômico-financeira na Europa, a equipe de gestão da CSHG acreditou que a ajuda do Banco Central Europeu não seria capaz de reverter a crise. A França apresentava indicadores econômicos parecidos com os da Grécia, Espanha, Portugal e Itália (veja alguns dados nesse mapa da The Economist).

A expectativa por novas intervenções dos principais bancos centrais do mundo, com destaque para o BCE, permitiu uma valorização expressiva dos ativos de risco, inclusive da bolsa da França. De acordo com um de seus relatórios publicados, a CSHG acreditava que os desafios econômicos na Zona do Euro, contudo, não haviam sido eliminados. Projetando potenciais decepções com a evolução da situação econômica na região, a equipe de gestão elaborou em agosto do ano passado uma estrutura para se beneficiar de uma possível queda das ações francesas nos meses seguintes.

A CSHG lançou então um fundo de investimento com duração de seis meses para tentar capturar o movimento, o CSHG SHORT FRANCE CAC 40 FIM. O novo fundo, de vida curta, contou com uma inteligência estratégica que merece ser destacada. Suas operações foram estruturadas para ter risco assimétrico.

Risco assimétrico

As previsões da CSHG estavam erradas, e a bolsa francesa não caiu nesse período. Mas, considerações macroeconômicas à parte, o que queremos destacar é que a bolsa da França subiu quase 8% e o fundo da CSHG perdeu pouco menos de 1%. Entretanto, mesmo perdendo, isso mostra que o CSHG SHORT FRANCE CAC 40 foi muito bem estruturado e, de certa forma, vencedor. Veja no gráfico:

Comparação entre o fundo CSHG Short France CAC 40 e a CAC 40 entre agosto de 2012 e fevereiro de 2013.

No pior momento do fundo, ele apresentava perdas de 3,75%, enquanto o índice da bolsa francesa ganhava 10,27%. Já no seu melhor momento, o fundo ganhava 2,12%, e o índice caía 2,67%.

Ou seja, as operações do fundo foram ajustadas de maneira a permitir que ele conseguisse capturar 79% dos ganhos quando acertava e amargurar apenas 36% das perdas quando errava. Difícil saber exatamente como teria sido a performance do fundo caso a bolsa francesa tivesse realmente caído, mas a primeira página deste documento produzido pela CSHG para o lançamento do fundo traz um gráfico com a sua expectativa de retorno em relação ao desempenho da bolsa francesa no período de 6 meses.

Através da engenharia financeira é possível criar situações como essa, em que existe um bom balanceamento entre risco e retorno. O potencial de ganho é proporcionalmente maior que o risco de perda.

Uma gestão inteligente nem sempre é sinônimo de bons ganhos. Muitas vezes os excelentes ganhos são obtidos mediante exposição a altos riscos, e resultam de acertos cercados de aleatoriedade. É estranho afirmar isso, mas um fundo com resultados negativos pode ser o resultado de um trabalho muito melhor que o de um fundo com resultados positivos, dependendo dos riscos que os gestores correram com o dinheiro dos cotistas para conseguir sua performance. Sobre isso, vale ler o artigo “Nassim Taleb e o melhor fundo que perdia dinheiro todos os dias”.

Os gestores responsáveis pelo CSHG SHORT FRANCE CAC 40 estavam errados em sua tese inicial, mas fizeram um bom trabalho na estruturação do fundo e no controle da exposição de seus clientes a riscos.

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Cofundador da Vérios e diretor de Estratégia de Investimento. Resende é gestor de recursos credenciado pela CVM e especialista em Data Science, mas pode chamá-lo de "Father of Algorithms" :)