Esqueça a diversificação. Aplique apenas no melhor investimento

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Você cometeu um erro enorme com o seu dinheiro no ano passado. Você sabe disso, não sabe? As únicas partes da sua carteira de investimentos que renderam bem provavelmente foram as posições em inflação e dólar. Os fundos multimercados empataram com a poupança. Bolsa de valores foi horrível.

Onde você estava com a cabeça? Você claramente perdeu a grande oportunidade do ano. Você deveria ter abandonado a diversificação e investido todo seu dinheiro em títulos de inflação.

 Sensação de diversificar neste ano e no ano que vem

Esse é o problema com essa estratégia de diversificação que você insiste em seguir. Todo ano você vai ficar aborrecido com o resultado de uma parte do seu portfólio. Na maioria dos anos, se você tiver 5 classes distintas de ativos na carteira, uma ou duas vão ter bom resultado, uma vai ficar ali no meio, e duas vão apresentar um resultado ruim. E você não pode tolerar esse tipo de performance, de jeito nenhum. Afinal, por que alguma pessoa em sã consciência aceitaria qualquer rentabilidade abaixo do topo, abaixo da melhor de todas?

Ainda bem que a solução para o seu problema é simples. Todo ano, no dia 1º de janeiro, descubra qual classe de ativos vai ter o melhor desempenho no ano e transfira todos os seus investimentos pra lá. Esqueça a diversificação. Simplesmente invista no melhor.

Caso você ache que todo o sarcasmo deste artigo até aqui não reflete a opinião verdadeira de muitos investidores, o autor do texto original, Carl Richards, cita o caso concreto de um cliente, vamos chamá-lo de Dave. Dave tinha muito dinheiro. Carl se lembra de uma conversa em que Dave estava muito irritado. O cliente disse a Carl: A questão é simples. A única coisa que espero de você é que me diga o que devo comprar antes de valorizar, e o que devo vender antes de perder valor. Só isso. E Carl respondeu: Só isso? Por que não pensei nisso antes?

Agora, falando sério. Considerando que não existe nenhum método comprovado para descobrir o próximo melhor investimento, será que você deveria mesmo ficar escolhendo? Se você fosse obrigado a escolher um (apenas um!) investimento para segurar de hoje até o final do ano, você conseguiria? Não aceito ‘não’ como resposta! Você ainda não sabe qual vai ser o investimento campeão de 2015? Como não sabe?

Se não sabe mesmo, então talvez a melhor decisão seja ficar com uma carteira diversificada. Sim, um portfólio diversificado praticamente garante que você vai ficar infeliz com pelo menos uma classe de ativos, ano após ano. Mas o investimento que te traz essa infelicidade vai ser diferente a cada ano. Uma classe de ativos sobe enquanto outra desce. Aceite essa insatisfação como um sinal de que você está diversificando da forma certa, pois é assim mesmo que o mercado funciona.

Você deveria avaliar o impacto da diversificação apenas no longo prazo – e eu estou falando de décadas

Além disso, numa escala de 1 a 10, com 1 sendo satisfeito e 10 sendo estado depressivo, eu aposto que a sua tristeza vai ficar ali em torno de 5, talvez 6. Mas como ficará sua infelicidade caso você escolha apenas um investimento e escolha errado? Passa de 11.

Além de diversificar, sugerimos também rebalancear. Rebalancear é outro hábito que vai te deixar infeliz. Ao rebalancear, você vai vender pelo menos um ativo que performou bem e comprar mais daqueles ativos que foram mal. Isso deixa as pessoas extremamente incomodadas. Ao invés de sentir que estão comprando algo com desconto, elas se sentem como se estivessem trocando um ativo campeão por um perdedor.

Em anos como 2014, em que duas classes de ativos foram obviamente muito melhores que as demais, todo mundo adora falar mal da diversificação. Quando um tipo de investimento vai muito melhor que os outros, diversificar parece loucura. Rebalancear, então, pior ainda.

Mas o erro é esse: uma ferramenta como a diversificação não deve ser avaliada de um ano para o outro. Você deveria avaliar o impacto da diversificação apenas no longo prazo – e eu estou falando de décadas. Você não está diversificando por conta de como o Ibovespa foi no ano passado. Você deve continuar diversificando porque você não sabe como ele vai performar nos próximos 10 anos.

Claro que seu cunhado ou seu amigão ou um espertinho no jornal podem ter investido pesado nas ações de uma empresa e por acaso acertado o vencedor de 2014. Naquele ano. Mas se você tentar segui-los e errar, certifique-se de ter por perto uma boa planilha. Você vai precisar dela para calcular quantos anos a mais vai continuar trabalhando, antes de se aposentar, para recuperar o dinheiro perdido com uma única jogada errada.

Para saber mais sobre diversificação, recomendamos também a leitura do artigo Diversificação de investimentos: o que é e como funciona

Artigo publicado originalmente no The New York Times em 16/03/2014, traduzido e adaptado pela Vérios com expressa autorização do autor. O texto original está disponível no site do autor, Behavior Gap.

 

Categorias: Planejamento pessoal, Plano de investimento
  • Fernando

    Ótimo este texto. Pena que 99% dos brasileiros ainda estão muito longe disto e também não procuram educação financeira.

    • Obrigado pelo comentário, Fernando.
      Vou discordar de um ponto, posso? Tem muita gente buscando educação financeira. Acho que um dos problemas é que não estão encontrando informação de qualidade. É mais fácil cobrar valores abusivos se o cliente não entende bem o que está acontecendo.
      Você também trabalha na área. O que acha que podemos fazer para mudar isso?

    • Favaros

      elas até procuram, mas acabam falando com o gerente por ele é quem entende de investimentos… e assim segue o pais, bancos com lucros recordes, familias endividadas.

  • gta

    Felipe,

    Gostei bastante da série de posts.
    Ele relembra um dos conceitos básicos que da diversificação que é justamente, segundo penso, a alocação de ativos de forma pouco correlacionada e que tendem a não gerar retornos tão altos como a alocação em apenas um ativo que se mostrar ganhador, mas que no médio e longo prazo, a estabilidade da carteira diversificada se mostra vencedora pela cosistencia e a redução de riscos.
    A questão do rebalanceamento é fundamental também.
    Apenas a título de sugestão, penso ter faltado um exemplo prático para que o investidor possa compreender o conceito da diversificação e que mesmo com um dos ativos tendo um ano fraco, ele é compensando pelos demais e no ano seguinte o contrário, por um período razoável de tempo e a demonstração gráfica por exemplo de se investir tudo em um único investimento no longo prazo pode não ser tão vantajoso que uma carteira com diversos tipos de alocação.
    Textos como os que vocês estão produzindo são uma grande contribuição para a educação financeira.
    Um questionamento que poderia ser feito remete ao fato de escolher ou não determinada classe de ativos. Malgrado a diversificação tenha o condão de promover a diversificação do risco, existem momentos de promover a readequação da carteira mais ou menos exposta a determinados riscos de acordo com o cenário ou a diversificação aponta para a manutenção da proporção das alocações no longo prazo, sem promover a análise da carteira de tempos em tempos?

    Abraços

    • Olá, gta!
      Obrigado pelos elogios. Que bom que você continua acompanhando nossos artigos. No segundo semestre, quando abrirmos o serviço de investimento automatizado, pretendo tê-lo como cliente. Topa?
      Com relação à sua pergunta a resposta é… depende. (Claro, não é mesmo? Tudo nessa área está sujeito a debate.)
      Mas a metodologia de alocação (diversificação) mais aceita tem espaço para incluir, sim, valores sobre a expectativa de desempenho dos mercados. Esses números podem enviesar a alocação final, mas muitas vezes não são sequer utilizados. Quando utilizados, causam PEQUENOS desvios – nunca uma exposição muito maior a nenhuma classe. O objetivo não é acertar o *market timing*, mas somente otimizar a alocação com alguma informação que seja bastante confiável e de longo prazo (não é para acertar o movimento que o mercado fará semana que vem).
      Não sei se consegui explicar em poucas palavras. Ficou claro?
      E é importante diferenciar: quando falo em rebalanceamento, estou falando de ajustar a carteira para manter o MESMO rumo. Apenas corrigir desbalanceamentos causados pelo balanço natural do mercado. Isso é importante fazer sempre e não requer novas decisões. É quase mecânico. Já a troca da alocação-alvo (inclusão de viés, etc) seria uma REVISÃO da carteira – decisão muito diferente.
      Abs,
      Felipe

      • gta

        Felipe,

        Sobre me ter como cliente quando da abertura do investimento automatizado, prefiro aguardar para lhe responder.
        Ainda estou avaliando serviços já existentes no exterior e tentanto ver como eles se adaptariam no mercado brasileiro, que possui características bem distintas dos mercados onde eles nasceram, com muitos ETFs lá e muito poucos aqui para ajudar a diversificar protfólios e riscos.
        Ficou clara a sua explicação sobre a fórmula de diversificação, a mesma utilizada pelo JPM em um estudo que ele mostra a importância de diversificação entre as estratégias e a existencia de de certa flexibilidade para que permita exacerbar os ganhos de parte da carteira até determinado limite, mostrando-se uma fórnmula vencedora, nos EUA..
        Sobre o balanceamento e revisão de carteira realmente são distintos os conceitos, mas a idéia era provocar um pouco a discussão sobre o rebalanceamento e a própria revisão de carteira.
        A metodologia da estruturação de uma cateira diversificada além do rebalancemanento não engloba a revisão da cateira?
        Qual seria um período razoável para a revisão da carteira, se é que existe? (redução de riscos ou aumento de riscos na carteira por exemplo).

        Abraços

        • Sim, há diferenças que exigem adaptação. Estamos sentindo bem essa questão por aqui.
          Sobre o estudo do JPM a que você se refere, gostaria de dar uma olhada. Você possui um link que possa enviar aqui ou uma cópia que possa compartilhar por e-mail?
          A metodologia de construção da alocação é independente dos critérios de revisão, mas os dois elementos deveriam estar presentes num bom planejamento.
          Penso que o rebalanceamento deveria ser semestral ou quando ocorre algum desbalanceamento relevante (ex: algum ativo desviar mais de 5% do target). Já a revisão, deveria ser considerada anualmente, mas geralmente o resultado será apenas manter a alocação que já foi decidida. Uma mudança só se justifica se houver mudanças significativas nos tamanhos dos mercados.

          • Gta

            felipe,

            Demorei a responder porque foi dificil localizar o estudo, mas ele se chama UM OLHAR SOBRE O REBALANCEAMENTO DAS CARTEIRAS DE INVESTIMENTO, em setembro de 2012, Onde eles trazem conceitos interessantes de rebalanceamento com limites diferenciados e market timing como um bom acelerador de ganhos e que na visao do artigo traz relevantes ganhos para uma carteira a ser rebalanceamentos, com a verificacao do timing e dos limites em que o gestor de carteira pode aguadar antes de ser conferido o rebalanceamento…..
            Ele traz as duas ideias como parte do rebalanceamento o que achei bastante interessante.
            Ja sobre o rebalanceamento ele traz uma ideia diferente de se manter posicoes ate que elas esbarrem em um determinado limite pre fixado maximo…….
            Achei bem interessante
            Abracos

            Gta

          • Hermelindo

            Olá gta,

            Poderia disponibilizar o acesso ao artigo citado?

          • Olá, Hermelindo. O gta ainda não lhe respondeu?

            Nós encontramos o documento, mas confesso que ainda vou ler antes de opinar. O link é esse: http://www.jpmorganassetmanagement.com.br/dms/mini_wp_rebalancing%20of%20investment%20portfolios.pdf

            Se lembrar, volte aqui depois de ler e compartilhe suas impressões sobre esse estudo.

            Abs,
            Felipe

          • gta

            Hermelindo,

            Desculpe a demora,as coisas andam bem corridas, mas o estudo eh este a que o felipe fez referencia.

            Abracos

            Gta

          • @hermelindo:disqus, gta, voltei para dar um feedback sobre o estudo.
            O material do JPM tem algumas mensagens importantes sobre a função do rebalanceamento, mas é bastante simplório nas análises. Listando alguns pontos:
            1. Ele ignora totalmente os custos de rebalancear. Negociar os ativos da carteira gera custos fixos e variáveis que afetam a rentabilidade final. O paper trabalhou somente com uma carteira teórica sem custos (não existe).
            2. Ignora também as decisões sobre quanto rebalancear (para onde?). Principalmente quando incluímos os custos nos cálculos, surgem decisões importantes sobre para onde rebalancear. O paper trabalhou apenas com o rebalanceamento de volta para a alocação original, mas há diversas possibilidades diferentes (com faixas de tolerância), criadas para otimizar os custos de rebalanceamento.
            3. Outro aspecto prático que ficou de lado: é possível rebalancear quando ocorrem novos aportes e resgates, ou nos eventos de pagamento de dividendos e cupom. Esses novos recursos investidos (ou os resgates) podem ser alocados entre as classes de ativo de forma a compensar as variações ocorridas, trazendo a carteira de volta à alocação pretendida. Isso reduz muito os custos de rebalanceamento e otimiza todo o sistema.
            4. Por fim, o paper do JPM tem um problema de conflito de interesses: eles não podem invalidar os produtos de gestão ativa do banco. Então, no final (pág. 8), o autor constrói uma hipótese de market-timing, baseado na seguinte hipótese: “Suponhamos que conseguimos identificar, antecipadamente, o melhor e pior mês para a bolsa todos os anos”. Ora! Assim fica muito fácil, não é mesmo?
            Enfim, são apenas alguns pontos. Nossa equipe está bem afiada nesse tema, pois estão construindo nossos algoritmos de rebalanceamento. Eu agora estou me inteirando do assunto também, pois está entrando nas discussões semanais do novo serviço.
            Abraço!

  • Apesar da retórica do título, caso aprofundássemos a questão, também poderíamos falar na velha questão sobre o investimento passivo e o ativo, sendo este último para quem acredita ser possível ficar acima da média do benchmarking do mercado, o que envolve justamente – em tese – saber onde estar melhor posicionado, ainda que isso implique em sair um pouco da alocação inicial.