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16 de julho de 2015 Ultima atualização: 17 de agosto de 2018

ETFs: o futuro do mercado financeiro

16 de julho de 2015

“A maioria dos investidores, tanto institucionais como individuais, verá que a melhor maneira de possuir ações é através de um fundo de índice que cobra taxas mínimas.” Warren Buffet

O famoso economista norte-americano H. Minsky escreveu, em muitas de suas publicações, que um dos motores (da estabilidade e instabilidade) da economia capitalista é a inovação financeira1. O mercado financeiro é especialista em inovar e implementar eficiência.

Nesse aspecto, os fundos de investimento em índices são uma das maiores e mais bem-sucedidas inovações financeiras atuais.

Conhecidos internacionalmente como ETFs (Exchange Traded Funds), foram criados no início da década de 1990 para acompanhar a variação do índice S&P 500, sob uma estrutura de custos muito reduzidos. Permitem que o investidor acesse mercados sem incorrer custos de comprar um ativo específico.

Enquanto os fundos de investimento tradicionais possuem taxa de administração, em média, de 2,00% a 3,00%, os ETFs cobram taxas decimais, em geral de 0,3% a 0,6%. No longo prazo, a diferença na rentabilidade acumulada é substancial.

O maior diferencial dos ETFs é que eles podem ser comprados e vendidos como uma ação, no pregão eletrônico, por meio de uma corretora. Basicamente, cada ETF irá replicar um índice de referência de um setor, podendo ainda participar de diferentes empresas e segmentos, de forma transparente e dinâmica.

ETFs no mundo

Os ETFs são exemplo de um rápido sucesso internacional. A partir do primeiro fundo autorizado no Canadá, em 1990, o crescimento foi substancial. Nos Estados Unidos, o primeiro fundo foi autorizado a operar em 1993. Por volta do ano 2000, a plataforma ganhou escala mundial e surgiram ETFs em Hong Kong e na Alemanha. Hoje, são uma realidade nos principais mercados do mundo, como Japão, Espanha, Cingapura e mercados emergentes, como o México.

A indústria global é enorme: o total de recursos em ETFs alcançou a cifra de USD 2,7 trilhões, no final de 2014. Segundo a Investment Company Institute (ICI), a alocação global é distribuída da seguinte forma:

  • 73% nos Estados Unidos
  • 16% na Europa
  • 8% na Ásia, África e Pacífico
  • 3% nos demais países das Américas

Evidentemente, o maior mercado é o dos EUA, onde o setor financeiro é mais desenvolvido, permitindo a criação de diversas estratégias e o desenvolvimento de novos produtos. Praticamente 80% do mercado são ETFs que acompanham índices de equity (ações) nacionais e estrangeiras, seguidos por 16% em bonds (títulos de dívida) e 4% em investimentos híbridos. Dentro dos 80% de ações, a variedade de índices é enorme.

São milhares de ETFs, seguindo desde índices das bolsas de valores locais, Nasdaq, Dow Jones, até índices por setores da indústria (ações da indústria automobilística, de óleo e gás, etc) ou por classe de ativos (renda fixa, renda variável). O crescimento desse mercado atingiu tamanho grau de especialização que atrai desde grandes investidores institucionais até o pequeno investidor.

Evolução do patrimônio total de ETFs  nos EUA, entre 2003 e 2014
Fonte: Terraço Econômico, com dados do Investment Company Institute (ICI)

Os números falam por si só. Em 2003, a indústria americana apresentava USD 151 bilhões sob gestão e 119 ETFs operantes. Passados 11 anos, a evolução foi robusta, alcançando a cifra de USD 1,9 trilhão (crescimento de mais de 1.000%) e mais de 1.400 ETFs, com claro viés de alta. Percebe-se também que, mesmo em 2008, ano da crise, o número de ETFs subiu, o que é surpreendente. É nesse aspecto que afirmo que são o “futuro do mercado financeiro”.

Recentemente, em um estudo, a Bloomberg, em conjunto com a Hedge Fund Research (HFR), previu que em breve o saldo em dólares de ETFs sob gestão irá superar o dos hedge funds2. Isso deverá acontecer daqui a algumas semanas, em agosto de 20153:

Comparação do crescimento de hedge funds e ETFs ebtre 2010 e 2015
Fonte: Bloomberg

Aconteceu antes mesmo do previsto. O patrimônio dos ETFs alcançou US$ 2,971 trilhões no final do primeiro semestre de 2015, superando o patrimônio de hedge funds, que ficou em US$ 2,969. Saiba mais: ETFs superam fundos multimercados em patrimônio

Este fato é indicativo das novas tendências do mercado, e do comportamento dos investidores.

Para nós, brasileiros, ainda parece algo muito irrelevante.

Porém, trata-se de um fato extremamente importante, sobretudo porque a indústria de hedge funds sempre dominou o mercado norte-americano para investimentos alternativos, principalmente na alocação de recursos dos grandes fundos de pensão, provenientes de grandes corporações e universidades.

ETFs no Brasil

Como era de se esperar, representamos uma parcela muito pequena da indústria global, menos de 3%, levando em consideração que é um produto muito incipiente e não popularizado entre os investidores.

No Brasil, o primeiro ETF foi lançado em 2004, e hoje temos 18 listados na BM&FBOVESPA, totalizando um patrimônio sob gestão de aproximadamente R$ 3,9 bilhões.

Existem apenas quatro provedores no país: Caixa, Itaú e Banco do Brasil (representando bancos locais) e a BlackRock, maior provedora global de ETFs, com o maior valor sob gestão e os ETFs mais negociados.

Gráfico da evolução do volume de negócios com ETFs no Brasil entre 2008 e 2015
Fonte: Terraço Econômico (com dados da BM&F Bovespa até junho de 2015)
Apesar da baixa liquidez, o volume operado apresenta tendência crescente. A participação no volume total transacionado na Bovespa não ultrapassa 5%, ao mesmo tempo que, nos Estados Unidos, já representa aproximados 25%.

Na tentativa de atrair o investidor pessoa física, a CVM emitiu em 2013 uma instrução que permite a criação de ETFs indexados a ativos de renda fixa. Em julho de 2014, o Ministério da Fazenda lançou um pacote de medidas que atribuía tributação especial para ETFs de renda fixa, e, em outubro de 2014, anunciou por meio de decreto que o IOF incidente sobre as vendas de cotas desse tipo seriam de alíquota de 0%4. Mesmo com as medidas, nenhum ETF desta categoria foi criado ainda.

Em tese, para expandir o mercado, o aumento da procura por ETFs aumentaria por consequência a liquidez desses ativos, o que atrairia ainda mais novos investidores para este segmento.

As tendências para o futuro dos ETFs no Brasil

Paulatinamente, os ETFs vão encontrando seu espaço do mercado brasileiro. A fase seguinte deve ser o desenvolvimento de ETFs de diversos índices específicos, assim como aconteceu nos Estados Unidos, como índices de renda fixa, commodities e índices estrangeiros.

O mercado brasileiro de fundos hoje é um dos mais desenvolvidos do mundo, com um patamar de segurança, tecnologia e legislação bastante avançado, porém ainda apresenta espaço para se desenvolver, sobretudo em investimentos alternativos e mais arrojados.

Como apresentado, a participação dos ETFs no mercado brasileiro ainda é tímida. Os fundos de índice negociados em bolsa são pouco conhecidos pelos investidores locais, com baixo volume de negociação e, por enquanto, com baixa variedade.

Porém, o mercado possui um claro potencial de crescimento. A estrutura dos ETFs é flexível ao ponto de poder oferecer indexações a vários índices, além de apresentarem baixo custo e serem simples de negociar. No caso dos principais ETFs disponíveis no Brasil, liquidez não é um entrave, pois as gestoras contratam formadores de mercado para garantir a oferta e a demanda.

Assim, há uma tendência de que um possível próximo boom no mercado de fundos brasileiro seja impulsionado pela difusão dos ETFs, o que atrairia ainda mais investidores para o mercado de capitais, estimulando também a educação financeira, bem como a internacionalização das plataformas de investimentos.

Esses são justamente alguns dos principais pontos necessários para levar o mercado de fundos brasileiro a um próximo patamar de desenvolvimento, que o aproximaria dos mercados mais evoluídos do mundo.

Nesse aspecto, talvez H. Minsky estivesse certo sobre as inovações financeiras. Existem fortes indícios de que os ETFs são o caminho para um novo patamar do mercado financeiro.

Artigo originalmente publicado no Terraço Econômico

Referências

Relação de ETFs disponíveis no Brasil

1 H. Minsky, The modelling of financial instability: an introduction (1974)

2 Hedge funds são fundos de gestão ativa que buscam alocar seus recursos em diversos mercados onde possam vislumbrar ganhos no médio e longo prazo. Equivalem aos fundos multimercados no Brasil.

3 ETF assets to overtake hedge funds this year (Bloomberg)

4 Brazil cuts IOF tax on fixed-income ETFs to zero (Reuters)

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16 de julho de 2015
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Autores

Pedro é editor do site Terraço Econômico, maior portal independe de economia do país, formado em Economia pela Unicamp e com passagem na Universidade do Porto, em Portugal. Atualmente trabalha diretamente com fundos de investimentos.

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