Fisiologia da Impaciência (Dynamo)

A Dynamo é uma das grandes e mais antigas gestoras de renda variável do Brasil. Fundada em 1993, hoje administra mais de R$ 2 bilhões. Além do notável desempenho e consistência de seus fundos, a Dynamo se destaca pela qualidade de suas cartas trimestrais. Ficamos sempre ansiosos aguardando essas cartas e, no fechamento de junho, mais uma vez a Dynamo nos trouxe uma reflexão interessante.

As cartas muitas vezes discorrem sobre assuntos que extrapolam considerações triviais de investimento, como crescimento de renda, aumento de margens, pressão de juros etc. Elas abordam questões mais complexas e até mesmo a metalinguagem do investimento, de forma praticamente acadêmica, com estudos e citações.

A carta desse trimestre fala sobre a impaciência do mercado e as implicações que isso traz para a vida dos gestores de recursos e dos executivos das empresas. Acreditamos que o conceito é interessante e até um pouco educativo, por isso compartilhamos com você. Se tiver um pouquinho mais de tempo, recomendamos a leitura da carta na íntegra, que pode ser encontrada aqui. As cartas anteriores, aqui.

Abaixo, segue um resumo da carta feito por nós.

O “curtoprazismo” está associado a estratégias cujo foco exclusivo no curto prazo produz algum tipo de consequência prejudicial no futuro. Muitas vezes, esses prejuízos futuros superam os benefícios obtidos do presente.

Os exemplos clássicos de curtoprazismo no âmbito empresarial é o corte de gastos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) ou de publicidade. Cortar gastos causa uma redução imediata no total de despesas da empresa, promovendo um aumento imediato no lucro. Essa estratégia, porém, é prejudicial no longo prazo.

Gastos com P&D ajudam a desenvolver novos produtos, melhores, mais modernos e mais baratos. Gastos com publicidade ajudam o público a conhecer seus produtos e estimulam as vendas. Os cortes de P&D e publicidade causam defasagem tecnológica e reduzem o conhecimento da marca pelos clientes. Com isso, os resultados futuros da empresa sofrem.

Outra estratégia curtoprazista é acelerar as vendas oferecendo descontos generosos, que podem dificultar as futuras vendas pelo preço cheio. Esses e outros exemplos acontecem corriqueiramente na vidas de muitas empresas, onde os executivos são pressionados por resultados positivos trimestrais.

Muitas evidências sugerem uma aceleração da atividade e da pressão curtoprazista entre os participantes do mercado1.

  • Entre 1940 e 1980, na Bolsa de Nova York, apenas 10% a 30% das ações das companhias abertas trocavam de mãos a cada ano. Em 2005, esse número passou para mais de 100% (as ações podem trocar de mãos mais de uma vez no mesmo ano, levando o índice para mais de 100%).
  • O período médio de permanência dos investidores nos fundos mútuos americanos saiu de dez anos na década de 1950 para menos de quatro anos no início deste século.
  • 3,6% dos presidentes das maiores companhias foram demitidos por má performance nos anos 2000, contra apenas 1,1% a 2% na década de 1990.

Buscando compreender os motivos desse comportamento curtoprazista no mercado de capitais, a Dynamo classifica as explicações em três categorias.

Incentivos

Cada vez mais, os investidores esperam e cobram dos gestores resultados de curto prazo. Três meses de resultados módicos já são suficientes para deflagrar ondas de resgates. Dessa forma, os gestores passam a rejeitar estratégias cujos resultados possam demorar para aparecer.

Biologia

Nosso processo de tomada de decisões é influenciado por ingredientes fisiológicos, neurológicos e psicológicos que ajudam a explicar o curtoprazismo em diversas áreas de nossas vidas. Muitas de nossas escolhas envolvem decidir entre recompensas imediatas e benefícios de longo prazo. O prazer de comer o que você quer agora ou o prazer de alcançar os objetivos da sua dieta?

Numa decisão de investimento, funcionamos da mesma forma. Nas escolhas de curto prazo, onde a expectativa de retorno é imediata, a resposta é processada pelo sistema límbico, que é mais impaciente, impulsivo, intuitivo. Por outro lado, quando tomamos decisões de longo prazo, o prêmio fica adiado. Este tipo de decisão, que envolve paciência e previsão de resultados futuros, fica a cargo do córtex prefrontal, mais racional e deliberativo.

O mercado financeiro nos oferece inúmeras oportunidades de escolhas de curto prazo, e nós somos dotados de mecanismos fisiológicos que nos estimulam buscar recompensas imediatas.

Sociologia

O mundo contemporâneo se caracteriza pela aceleração generalizada da taxa de mudanças. Os ciclos de vida dos produtos, mercados e serviços estão cada vez mais curtos. Inovações tecnológicas aliadas ao excesso de opções e informações disponíveis nos levam a contínua substituição de nossas escolhas, buscando melhorias e uma sensação de estarmos no controle.

Na vida cotidiana atarefada, a sensação é de que falta tempo. E tempo é o substrato para atuação do sistema deliberativo. Sem tempo, ficamos reféns dos processos automáticos de decisão, cujo foco é o curto prazo.

Sem entrar diretamente (por enquanto) na discussão sobre a superioridade de decisões financeiras de curto ou longo prazo, a carta da Dynamo já nos traz elementos para reflexão. Para a próxima edição, eles prometem listar os problemas e custos associados a este padrão de decisões, bem como algumas sugestões que têm sido propostas para inibi-los. Difícil vai ser esperar mais três meses…

Até lá, dá tempo de conferir uma outra referência interessante sobre o dilema de curto prazo versus longo prazo. Sugerimos o livro do Eduardo Giannetti da Fonseca, O Valor do Amanhã, que apresenta o assunto com menor ênfase econômica. Boa leitura!

1 A Dynamo utilizou pesquisas feitas no mercado americano, por falta de estudos conduzidos no Brasil. É razoável extrapolar esses padrões para o nosso país, uma vez que os mercados são cada vez mais globais e muito da teoria econômica vem do mercado americano para cá.

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