Fundos de Investimento em Cotas (FICs) e a estrutura master-feeder

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O nome de um fundo de investimento deve sempre indicar o tipo de investimento que ele faz: existem fundos de investimento em ações, em renda fixa, em crédito privado, multimercados, etc. Mas alguns causam estranheza, pois seus nomes indicam que são “fundos de investimento em cotas de fundos de investimento” – também conhecidos como FICs. Parece redundante, mas vamos explicar como funciona.

Existem diversas razões que levam os gestores a criar FICs, os fundos que investem em fundos. Em geral a estrutura não afeta a estratégia de investimento e não deve influenciar sua decisão de investir ou não no FIC.

Estrutura master-feeder

A estrutura denominada de master-feeder consiste na utilização de um fundo de investimentos principal, geralmente isento de taxas de administração e performance, para agregar todos os ativos (master fund), enquanto FICs podem ser criados sob medida para atender a demandas ou nichos específicos (feeder funds).

Existe uma série de motivos para a criação de fundos master-feeder, como ganhos de escala e redução de custos operacionais

Nessa estrutura, a gestão, ou seja, a compra e venda de ativos, é feita no fundo master, enquanto todos os cotistas aplicam seus recursos nos feeders (FICs). Os feeders, por sua vez, aplicam todo o dinheiro dos investidores no fundo master, fazendo com que indiretamente todos os cotistas dos diferentes FICs estejam investindo no mesmo master.

Apesar de parecer um sistema desnecessariamente complexo, a estrutura master-feeder traz alguns benefícios e é considerada uma boa prática operacional no mercado de fundos. Ela foi criada para otimizar questões administrativas, comerciais e de gestão.

Motivos legítimos

Existe uma série de motivos para a criação de fundos master-feeder. Dentre eles, podemos destacar:

  • Ganhos de escala
  • Otimização operacional
  • Segregação entre questões comerciais e estratégia de investimento
  • Uniformização de operações

É natural que um banco, por questões comerciais, queira oferecer fundos diferentes para clientes diferentes, com a mesma estratégia de investimento. A diferença pode ser, por exemplo, por tamanho do investimento dos clientes. Aqueles que aplicam mais dinheiro no banco podem ter taxas de administração menores ou prazos de resgate mais curtos. Essa prática é muito comum nos bancos comerciais, que oferecem taxas diferenciadas para os clientes de segmentos Private, Personnalité, Van Gogh ou Prime, por exemplo.

Sem a estrutura master-feeder, seria necessário criar diferentes fundos e realizar operações semelhantes em todos. De início, isso já representaria um enorme aumento de trabalho operacional. Mais trabalho significa mais custos, que inevitavelmente acabam sendo pagos pelo cliente.

Além disso, os fundos atuando paralelamente abrem espaço para injustiças e vantagens indevidas. A compra de uma ação, por exemplo, pode se dar por vários preços diferentes, ao longo de um ou mais dias. O gestor poderia escolher qual fundo compraria pelos menores preços, beneficiando um grupo de clientes.

A estrutura master-feeder impede esse tipo de ajuste e reduz os custos operacionais. Cada compra ou venda é realizada apenas no fundo master. Os preços são igualmente distribuídos entre todos os fundos feeders e, portanto, igualmente distribuídos entre todos os clientes. Sem privilégios.

Veja por exemplo o caso do Fundo Verde. A estratégia macro econômica do Verde é completamente realizada no fundo Verde Master. Notem que o patrimônio deste fundo é de 12 bilhões de reais e ele possui apenas 22 cotistas. Todos esses cotistas são FICs.

A duplicação de estruturas leva alguns investidores a suspeitar que os FICs sejam ineficientes, mas isso geralmente não é verdade

Por sua vez, os investidores aportam seus recursos em diversos FICs. Alguns com prazo de resgate de 14 dias, outros de 90. Alguns destinados apenas para clientes de determinado banco de investimento, ou destinados somente aos funcionários da gestora. Mesmo com essas diferenças, os FICs são veículos para a mesma estratégia de gestão, com a mesma execução.

Por fim, a reunião do patrimônio de diversos fundos em único veículo permite alcançar ganhos de escala, viabilizando operações que exigem maior volume financeiro e evitando a necessidade de que cada fundo tenha sua própria conta de garantia para operações que exigem depósitos.

Um exemplo concreto de master-feeder em funcionamento fica evidente na comparação entre alguns dos fundos que investem no Verde Master. Experimente vê-la com o período máximo, é interessante.

O fundo master não possui taxa de administração, que somente é cobrada nos fundos feeders. Isso faz com que a diferença de taxas fique evidenciada na diferença de rentabilidade entre os fundos. Esse tipo de comparação acaba trazendo uma externalidade negativa para o gestor, pois é possível verificar o impacto que o custo da equipe tem sobre o desempenho do fundo.

Custos

A duplicação de estruturas leva alguns investidores a suspeitar que os FICs sejam ineficientes, mas isso nem sempre é verdade. Para não prejudicar a rentabilidade dos cotistas, os gestores costumam criar os fundos master sem taxa de administração, ou com uma taxa pequena, que é descontada da taxa do fundo feeder. Por exemplo, um fundo que originalmente cobrava 2% ao ano pode passar para a estrutura master-feeder, onde o master cobra 0,2% e o feeder cobra 1,8%, resultando na mesma taxa original.

Mau uso

Há alguns anos era fácil encontrar FICs ou master-feeders criados no contexto de uma artimanha para enganar investidores. O FIC era anunciado como um fundo de taxa baixa, porém aplicava seus recursos no fundo master com taxas altas, às vezes extorsivamente altas.

Essa prática está desaparecendo, pois agora os fundos são obrigados a publicar a sua taxa de administração máxima, ou seja, a taxa máxima que pode ser atingida depois de somadas todas as taxas de todos os fundos da estrutura.

Fundo de fundos não é master-feeder

Não se pode, porém, confundir a estrutura de master-feeder com a estratégia de fundo de fundos. As duas estratégias utilizam FICs, com objetivos diferentes.

Diferentemente dos feeders, que investem integralmente em um master, a estratégia de fundo de fundos consiste em utilizar um FIC para criar uma carteira balanceada, que investe em múltiplos fundos diferentes, em busca de diversificação. Também costumam ser chamados de fundos multigestores, pois permitem que o investidor, com um único fundo, divida seu patrimônio em gestoras com diferentes expertises e estratégias.

Curiosidade

Por fim, apenas por curiosidade, compartilhamos um caso estranho que encontramos durante o estudo para esse artigo. Um FIC que investe em um master que investe em um FIC que investe em um master.

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Cofundador da Vérios e diretor de Estratégia de Investimento. Resende é gestor de recursos credenciado pela CVM e especialista em Data Science, mas pode chamá-lo de "Father of Algorithms" :)

Felipe é cofundador e CEO da Vérios. Atuou por 7 anos como agente de investimento credenciado pela CVM e Ancord e cofundou o site Comparação de Fundos, primeiro a dar transparência a mais de 15 mil de fundos de investimento. Felipe é advogado pela USP e especialista pós-graduado em Finanças Corporativas e Investment Banking pela FIA.