Fundos de pensão: mudar é preciso

– Este artigo reflete a opinião da autora convidada. –

O Brasil ocupa lugar de destaque em mais um levantamento ligado à gestão de ativos. Segundo ranking dos 300 maiores fundos de pensão, elaborado pela publicação americana especializada Pensions & Investments 1, a Previ é o 24° maior fundo de pensão do mundo. Além da gigante Previ, o Brasil tem mais três representantes no ranking. A Petros, que aparece em 98° lugar (Petrobras), a Funcef em 116° (Caixa Econômica Federal), e o fundo de pensão dos funcionários da Vale, que não estava presente em 2010, em 297°.

Juntas, Previ, Petros, Funcef e Vale aparecem com US$ 160 bilhões em ativos e colocam o Brasil à frente de países desenvolvidos como França, Espanha, Finlândia e Bélgica, além de outros em desenvolvimento como China, Rússia e Índia.

Uma definição de loucura é esperar resultados diferentes fazendo sempre a mesma coisa. A era dos retornos elevados sem risco ficou para trás, e a nova realidade demanda uma reavaliação

Entretanto, devido às historicamente altas taxas de retorno da renda fixa, a alocação média dos investidores institucionais de longo prazo locais é bem diferente de investidores em outras partes do mundo, em particular de países desenvolvidos. Os fundos de pensão brasileiros apresentam, em média, apenas 30,6% de seus recursos alocados em renda variável2. Se excluirmos as participações diretas em empresas e considerarmos apenas os investimentos em fundos de ações, este percentual cai para 16%, o que é mais representativo da participação da renda variável nos investimentos no mercado brasileiro. Este número é muito diferente daqueles verificados em mercados desenvolvidos, onde a representatividade dos investimentos em ações é muito maior. Em países como Inglaterra e Estados Unidos, a alocação de fundos de pensão em renda variável atinge 55% e 49% respectivamente, sendo que a média mundial se encontra em torno de 47%3.

Este cenário é facilmente explicado pelo posicionamento histórico do Brasil entre os países com as taxas reais de juros mais elevadas do mundo. No entanto, apesar de continuar ocupando um dos primeiros lugares no ranking, a taxa de juros real brasileira acaba de atingir o menor patamar da história pós-Plano Real. Praticamente já não encontramos aplicações de renda fixa de longo prazo com rendimentos expressivos acima de inflação e baixo risco. Além disso, a expectativa do mercado é de mais reduções na taxa de juros real brasileira, aproximando-a das taxas de outros países com perfil econômico semelhante.

Esta queda continuada no juro real impõe um desafio aos investidores institucionais com metas atuariais e obrigações de longo prazo. Ativos de maior risco e potencial de retorno como ações, tornam-se mais “atraentes” neste cenário. A migração para a bolsa de valores e ativos alternativos é uma discussão que não pode mais ser adiada pelos gestores de fundos patrimoniais de fundações, fundos de pensão e investidores que possuem alocações com foco no longo prazo.

Os mercados de crédito e investimentos imobiliários já apresentam uma clara expansão. Private equity e aplicações em outros países são tipos de investimentos incipientes no país e que requerem conhecimentos específicos pouco difundidos. A despeito da constatação da nova realidade, deve-se reconhecer que a maior quebra de paradigma é de natureza organizacional, afinal uma geração inteira de gestores de recursos institucionais ficou “viciada” nas elevadas taxas de juros reais, e a “desintoxicação” não é simples. Será necessária uma reciclagem acadêmica e intelectual para oxigenar essas organizações. Ao mesmo tempo, os conselhos dessas instituições precisarão ser educados sobre os chamados ativos alternativos, de modo a exercer seu dever fiduciário com responsabilidade.

Uma definição de loucura é esperar resultados diferentes fazendo sempre a mesma coisa. A era dos retornos elevados sem risco ficou para trás, e a nova realidade demanda uma reavaliação do perfil risco-retorno dos portfolios, com expansão na direção da economia real, seja através de renda variável ou outros ativos alternativos (private equity ou imóveis).

Parodiando Fernando Pessoa, mudar é preciso!

2Consolidado Estatístico de março de 2012 da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (ABRAPP)
3Global Pension Asset Study de fevereiro de 2011 – Towers Watson

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Categorias: Economia
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Paula é economista formada pela FEA-USP, com MBA pela New York University, especialização em Endowment Asset Management na London Business School e Yale, e Gestão de Organizações do Terceiro Setor na FGV. É Diretora-executiva do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS)