Futebol, o pior negócio do mundo

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Ouvimos falar de futebol o tempo todo, em todos os lugares. Milhões de dólares giram em contratos de televisão, venda de jogadores e cotas de patrocínio, passando a impressão de que esse é um dos maiores negócios do mundo. Mas se os clubes de futebol fossem empresas, não seriam tão grandes. Seriam companhias pequenas, mal administradas, com péssimo aproveitamento de receitas e, ainda assim, incrivelmente estáveis.

O futebol é um negócio pequeno e muito mal administrado

Anualmente a consultoria Deloitte publica um relatório detalhado sobre os maiores clubes de futebol do mundo. Na última edição, o Corinthians foi o 31º maior time do mundo, por ordem de faturamento, com faturamento de cerca de 245 milhões de reais.

Apesar da visibilidade que têm, se os clubes de futebol fossem empresas, seriam empresas muito pequenas

Parece um número grande, mas é um valor muito pequeno para o mundo corporativo. Para se ter uma ideia, se o Corinthians fosse uma empresa de capital aberto, ele ocuparia aproximadamente a 300ª posição no ranking de faturamento, entre cerca de 400 empresas que hoje estão listadas na BM&Fbovespa.

Para ilustrar o tamanho da diferença, preparamos o gráfico abaixo. Ele mostra quantas vezes algumas empresas conhecidas do público são maiores que o Corinthians. Nessa escala, 1,0 significa ter o mesmo faturamento que o Corinthians e 2,0 significa o dobro. Os clubes estão representados por barras vermelhas, e as empresas por barras azuis.

Veja quantas vezes alguns clubes e empresas são maiores que o Corinthians:

Escala 10 – Times | Empresas

Escala 100 – Times | Empresas

Escala 1200 – Times | Empresas

As empresas com tamanho comparável ao Corinthians são completamente desconhecidas do público em geral, como DHB, Metisa, Pettenati e Grazziotin. E o cenário não é muito melhor para gigantes do futebol mundial. O Real Madrid, maior faturamento de 2012 e cinco vezes maior que o Corinthians, ficaria muito longe do topo no ranking de empresas. Seu lugar seria por volta da 180ª posição se estivesse na BM&FBovespa, ao lado de empresas como a rede de universidades Estácio, a cia Hering e os laboratórios Fleury.

Contudo, pensando sobre a popularidade que o futebol apresenta no nosso dia a dia e na quantidade de dinheiro que ele parece movimentar, esses números parecem um contrassenso. É difícil acreditar que os clubes sejam pequenos em comparação a empresas de que nunca ouvimos falar. De acordo com Simon Kuper e Stefan Szymanski, autores do livro Soccernomics, essa discrepância decorre de um fator que os economistas chamam de “apropriabilidade”.

A menor parte do público de futebol vai ao estádio. A maior parte da audiência assiste aos jogos pela televisão e, a não ser pelos lucros indiretos com a propaganda, a partida acaba gerando o faturamento de apenas algumas cervejas em um bar ou uma pizza em casa.

Além disso, assistir a uma partida (no estádio ou pela TV) não é a única forma de engajamento dos torcedores com os clubes. Existem nichos especializados, como jornais, programas de televisão, sites de internet, jogos de computador, sem contar as horas e horas de discussões em bares, restaurantes e escritórios. Os clubes de futebol, apesar de gerarem o conteúdo de todo esse mercado, acabam tendo uma participação muito pequena nas receitas. Não é preciso pagar ingresso para consumir o produto futebol.

Boa parte da receita gerada pelo futebol é distribuída entre fabricantes de cerveja, jornais, televisão. O jogador holandês Demy de Zeeuw uma vez disse que “existem reclamações de que os jogadores de futebol ganham muito, mas todo mundo fatura em cima do nosso sucesso como jogadores: jornais, televisão, empresas”. Ele está certo.

Futebol é o negócio mais estável do mundo

Ironicamente, apesar tudo o que você leu até aqui, os clubes são extremamente estáveis. Sim, clubes de futebol não conseguem aproveitar bem a receita do mercado que criam, não são bem administrados e vivem sempre envolvidos em notícias sobre alto endividamento e iminência de caos. Com tudo isso, é possível afirmar que são estáveis. 

Clubes de futebol possuem uma característica que nenhum outro produto possui: a lealdade quase incondicional dos consumidores.

Em outros mercados, quando surge um produto melhor ou mais barato, os consumidores mudam de marca com facilidade. O mercado competitivo faz com que as empresas precisem estar sempre atrás de inovação e eficiência, para oferecer produtos melhores e mais baratos. Só assim conseguem manter ou ganhar consumidores. As empresas que não cumprem essa meta caem no esquecimento.

Os clubes, por outro lado, são praticamente imunes à concorrência. Um clube pode até cair de divisão e perder visibilidade. Alguns torcedores perderão o interesse, mas a tradição e a ligação geográfica com o público mantêm a atividade do clube. Temporadas ruins podem significar a diminuição do clube, mas dificilmente ameaçam sua sua existência. Um competidor estrangeiro não pode entrar no mercado oferecendo um produto melhor ou um preço mais baixo.

É essa característica que traz a estabilidade ao mercado do futebol. A existência de um clube não ameaça os “concorrentes”, como ocorre com as empresas. A dinâmica da concorrência entre clubes de futebol é tão diferente da do mercado normal, que nenhum clube pode ser monopolista. O adversário é pressuposto do mercado.

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