Ganância e medo: como o mercado financeiro explora suas emoções

Responda rápido: você compraria um carro novo se ele custasse 50% a mais que o preço da tabela? Ficaria desesperado e venderia seu apartamento se descobrisse que ele está valendo metade do que você pagou?

Provavelmente, você respondeu não às duas perguntas – afinal, decisões como essas não parecem razoáveis. O que explica, então, comportamentos desse tipo em nossas decisões de investimento?

Veja como o mercado financeiro explora duas emoções intensas e opostas do ser humano – a ganância e o medo -, levando-nos a tomar atitudes que, em outras áreas da nossa vida, julgaríamos irracionais.

Investimentos e emoções

Existe um grande aparato teórico de estudos de finanças comportamentais que procuram entender as reações humanas ao lidar com dinheiro. Com frequência, os resultados desses estudos derrubam a idéia de que os investidores agem com expectativas realistas e tomam decisões informadas e racionais.

O conceito do homo economicus, de que as decisões econômicas são tomadas de modo racional, já foi descartado há tempos. Hoje, sabe-se que nossas emoções e os vieses que delas decorrem são um dos ingredientes que compõem o processo de tomada de decisão econômica.

Bem intencionados ou não, muitos agentes do mercado financeiro tiram proveito disso para vender produtos de investimento. Eles entendem não apenas do produto, mas sabem também como manipular notícias e ruídos de forma a influenciar o comportamento humano.

Ganância

No dicionário, ganância significa “ambição desmedida”. É o sentimento de querer ganhar sempre mais. Em investimentos, a ganância está na esperança do ganho fácil em curtos intervalos de tempo.

Como o mercado explora a ganância

No mercado financeiro, a todo momento somos assediados para investir nos ativos ou produtos que mais subiram. O próximo investimento da moda sempre vai bater à nossa porta e pedir para entrar, prometendo ganhos extraodinários.

Outro modelo comum pelo qual o mercado explora a ganância são os cursos que ensinam como “ficar rico” no mercado financeiro. Não é curioso esse tipo de oferta? Se alguém realmente soubesse como ficar rico no mercado financeiro, estaria perdendo tempo dando aulas sobre isso?

Se alguém realmente soubesse como ficar rico no mercado financeiro, será que estaria dando aulas sobre isso?

Há também ferramentas como os rankings de rentabilidade, que nos levam a fazer uma leitura enviesada sobre o que é o melhor investimento, ignorando critérios importantes como o risco, a adequação ao seu objetivo e a diversificação da sua carteira. Uma certeza eu tenho: da rentabilidade passada, aquela que aparece no ranking, não vamos receber nem um centavo.

Ao longo da minha experiência no mercado, foi possível perceber que as pessoas mais bem resolvidas financeiramente não acreditam nessas promessas vazias. São completamente céticas.

Aqueles que não estão devidamente preparados, com uma estratégia de investimentos bem montada, são os mais suscetíveis às ondas de euforia da ganância. Isso leva a uma situação de vulnerabilidade, que rapidamente pode se converter em insegurança e medo, outro sentimento bastante explorado pelo mercado.

Medo

Entrar no mercado financeiro pelos motivos errados (como a própria ganância ou esperança de ganhos fáceis) é a garantia de que você sairá apavorado e com prejuízos. Irá comprar caro e vender barato: a fórmula ideal para a ruína de qualquer patrimônio.

Como o mercado explora o medo

Quando movidos pelo medo, abrimos nossos olhos e ouvidos a qualquer tipo de oferta que, de alguma maneira, acolha o pânico do “monstro desconhecido e perigoso” em que o mercado se transforma à nossa vista. Uma visão distorcida, que em nada ajuda no processo de educação financeira. Não raro, o sensacionalismo é um recurso para estimular o medo, fazendo a comunicação do mercado muitas vezes se assemelhar a programas de notícias escrachados, num processo que um de nossos clientes chamou de “datenização” do noticiário financeiro.

Não raro, o sensacionalismo é um recurso para estimular o medo, levando a uma “datenização” do mercado financeiro

No ano passado, uma consultoria do mercado financeiro explorou o medo com muita habilidade em uma campanha chamada “O fim do Brasil”. A estratégia era gerar insegurança para vender relatórios econômicos, como se os autores realmente fossem capazes de prever o futuro dos mercados e da economia. Ninguém consegue – não com consistência. E é preciso lidar com essa realidade.

Os mercados são instáveis, imprevisíveis, e isso realmente pode causar ansiedade e insegurança. Por isso, antes de investir você deve estar embasado por um plano racional. Você deve conhecer os motivos de sua decisão e avaliar previamente as possíveis consequências.

Se ficamos desesperados quando a bolsa de valores cai, o problema não está na bolsa de valores. Está em nós. A bolsa funciona assim mesmo. Esse comportamento deveria estar previsto e calculado como possível dentro do nosso plano, para evitar tomadas de decisão justamente nos momentos de maior insegurança e ansiedade.

Como evitar que a ganância e o medo tomem decisões por você?

Quase sempre, o investidor que se deixa influenciar pela ganância e pelo medo entra em um círculo vicioso: quando o mercado está bom, compra mais; quando está ruim, vende tudo. Incomodado com a perda, tem receios de investir… até que o mercado volte a ficar bom e ele se sinta encorajado. Então ele comprar ativos na alta – aquele momento que antecede a próxima baixa… Percebe o erro?

Ganancia: comprar. Medo: vender. Repita ate quebrar

O famoso consultor financeiro e colunista do NY Times Carl Richards criou essa ilustração para mostrar como as emoções atrapalham o planejamento financeiro. Tradução livre pela Vérios.

O melhor caminho para evitar entrar nesse loop de emoções é ter uma estratégia de investimento sólida e focar nos princípios que a sustentam.

Tenha uma estratégia de investimento sólida, focada nos princípios que a sustentam

Mas o que é uma estratégia de investimento sólida? É aquela que é adequada ao seu perfil e objetivos e está alinhada a uma proposta segura de diversificação entre classes de ativos, custos baixos e rebalanceamento periódico e racional da carteira – o que vai fazer você seguir uma rotina de vender na alta e comprar na baixa, e não o contrário.

Blindado com uma estratégia desenvolvida de você para o mercado – e não empurrada do mercado para você – será muito mais fácil lidar com suas emoções.

Ganância e medo: como o mercado financeiro explora suas emoções
5 (100%) 1 voto

Categorias: Economia comportamental, Planejamento pessoal, Plano de investimento