Homens, mulheres e investimentos

homens-mulheres-investimentos-fb

Homens e mulheres são diferentes em vários aspectos, e isso se reflete na maneira como lidam com seus investimentos. Essa é a conclusão coletiva de diversos estudos que andamos lendo sobre o tema.

Uma das principais referências para essa discussão é o estudo Boys will be boys: Gender, overconfidence, and common stock investment, de Brad Barber e Terrance Odean, publicado em 2001. Nele, os especialistas da Universidade de Berkeley analisaram uma ampla base de dados sobre o comportamento de investidores norte-americanos no mercado de ações durante um período de seis anos, para tentar confirmar uma teoria.

Uma pesquisa anterior, realizada pelos mesmos autores (Trading is hazardous to your wealth) já havia indicado que os investidores que giram suas carteiras de ações costumam apresentar resultados finais inferiores àqueles que mantêm suas posições por mais tempo.

Ou seja, de acordo com o estudo mais antigo, quando o assunto é investimento em ações, faz mais sentido comprar e manter, ao invés de tentar aumentar o ganho com diversas operações de compra e venda.

Sabendo disso, e sabendo que trabalhos em Psicologia já haviam demonstrado que os homens costumam ser mais autoconfiantes que as mulheres, os autores partiram para tentar descobrir se o excesso de autoconfiança levaria o gênero masculino a girar mais frequentemente suas carteiras, e se isso prejudicaria o desempenho de seus investimentos.

A pesquisa, realizada com dados reais de mais de 35 mil investidores, mostrou que eles realizam 45% mais operações de compra e venda de ações do que elas. E isso afetou a rentabilidade dos dois grupos dentro do que havia sido previsto.

Homens são mais confiantes em suas próprias habilidades como investidores, mas isso não é necessariamente uma boa notícia para eles

Barber e Odean descobriram que, ao longo dos seis anos do estudo, o giro das carteiras dos homens prejudicou os retornos anuais em 2,65% em média. No lado feminino da balança, a prática de negociação com as ações prejudicou o resultado em 1,72% ao ano.

Mesmo na realidade brasileira, com taxas de juros e inflação elevadas, o efeito cumulativo (juros compostos) de 1% a mais por ano, ao longo de alguns anos, já causa diferenças expressivas. Numa economia com taxa de juros e inflação reduzidas, e portanto menores rentabilidades anuais, essa é uma diferença enorme.

Elas são mais avessas ao risco

Além do giro provocado pela autoconfiança, a questão do risco também foi brevemente analisada no estudo, com base em um dos trabalhos mais conhecidos a esse respeito: Are women more risk averse?, publicado em 1998 pelas economistas Nancy Ammon Jianakoplos e Alexandra Bernasek.

As duas autoras analisaram uma base de dados de investidores nos Estados Unidos, para verificar se havia diferenças entre os gêneros na propensão à tomada de riscos. Para isso, avaliaram o percentual do patrimônio alocado por cada grupo em ativos de risco.

Os dados da pesquisa revelaram que, independentemente de outras características como idade, patrimônio, educação, etnia e número de filhos, as mulheres detinham carteiras menos arriscadas que as dos homens, indicando que elas preferem correr menos riscos.

Mulheres são mais avessas ao risco, portanto ações possuem menor participação em suas carteiras de investimento

E outros estudos mais recentes endossam essa tese. Uma pesquisa publicada em 2014 na Holanda com sócios e sócias de escritórios de contabilidade e advocacia, analisou fatores que determinam a propensão desses profissionais ao risco na hora de investir. Apenas dois fatores foram identificados como relevantes na decisão sobre assunção de risco: idade e gênero. O estudo concluiu que maiores riscos são assumidos pelos mais jovens e pelos homens, confirmando que mulheres são mais avessas ao risco.

Investidoras brasileiras

Uma curiosidade: no Brasil, as mullheres correspondem a apenas 25% do total de investidores individuais na bolsa de valores, segundo dados divulgados pela própria BM&F Bovespa. Com apenas esse dado em mãos, não podemos saber se isso se dá por uma maior aversão ao risco, mas é curiosa essa proporção, que parece confirmar os estudos estrangeiros citados acima.

Enfim, avaliando estas pesquisas disponíveis sobre o tema, é possível dizer que as mulheres em geral investem menos em ações por serem mais avessas ao risco, e que o desempenho delas na Bolsa de Valores pode ser considerado ligeiramente melhor, uma vez que elas – menos autoconfiantes que os homens – giram menos suas carteiras. Resta saber se tais características diferenciadoras são de certa forma inatas a homens e mulheres ou se são socialmente construídas. Mas essa seria uma discussão para um outro artigo.

Categorias: Planejamento pessoal, Plano de investimento