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6 de outubro de 2017 Ultima atualização: 17 de agosto de 2018

Nadando em trilhões de dólares

6 de outubro de 2017

Quem se lembra daquela cena clássica do tio Patinhas, o famoso desenho da Disney, “mergulhando” em sua caixa-forte? Ele curte toda sua riqueza como se fosse uma piscina recheada de moedas de ouro. Bem, podemos traçar um leve paralelo com os dias atuais. Claro, evidentemente que não somos nós que estamos nessa situação de nadar em moedas de ouro, mas é verdade que a política econômica dos últimos anos, promovida pelos principais bancos centrais do mundo, é de literalmente derramar dinheiro na economia…E essa conta dá mais de trilhão!

Tio Patinhas nadando em dinheiro
Tio Patinhas em sua caixa-forte: “piscina” de dinheiro

A princípio pode parecer abstrato eu sei. Afinal, esse dinheiro é todo injetado “eletronicamente” no mercado. As impressoras estatais nem sequer conseguiriam imprimir todo esse montante nessa velocidade. Vamos explicar então o que são esses trilhões boiando na economia.

quantitative easing ou relaxamento monetário

Não se assuste com o nome. A ideia é relativamente simples e já vem sendo implementada nos EUA e na Europa há quase 10 anos, após o estouro da crise imobiliária em 2008 que se alastrou por todo o mundo. O quantitative easing ou simplesmente relaxamento monetário consiste, em termos gerais, na criação de dinheiro para estimular a economia, mas sem imprimir dinheiro físicoComo?

O Banco Central do país emite um caminhão de títulos da dívida pública, captando dinheiro emprestado diretamente no mercado financeiro local ou internacional. Assim, existe mais dinheiro em caixa, que pode ser gasto com obras e despesas públicas, alimentando a economia, colocando mais dinheiro em circulação e aumentando um pouco a inflação (sim, nas economias desenvolvidas a falta de inflação pode chegar a ser um problema!).

Para mostrar o porte desse movimento, preparamos o gráfico abaixo, onde você pode notar a evolução do tamanho do balanço dos principais banco centrais do mundo. São eles: FED (ou Federal Reserve, o Banco Central Americano), BCE (Banco Central Europeu) e BOJ (Banco Central do Japão). Somados, os três totalizam a emissão de algo próximo a US$ 15 trilhões, sendo US$ 10,5 trilhões emitidos desde a crise de 2008.

Gráfico: Tamanho do balanço dos bancos centrais

Isso ocorre pelo fato de que todo esse dinheiro emitido precisa encontrar uma “contabilidade” e então é computado nos balanços dos bancos, que vão ficando cada vez maiores e mais inchados… Para que um dia, quem sabe, essa conta seja paga.

Você pode chegar na conclusão de que estão criando uma bomba-relógio com todo esse mastodonte de dinheiro criado? Talvez sim, e os bancos centrais sabem disso.

Recentemente tivemos mais um novo capítulo dessa longa história: finalmente, o FED anunciou como será o programa de recompra desses títulos, ou, dito em outras palavras, como retirará todo esse dinheiro de circulação.

É evidente que toda a comunidade internacional está bastante apreensiva com esse anúncio e com as possíveis consequências dessa política. Contudo, o FED pretende fazê-la da forma mais gradual possível e provavelmente a sua solução será copiada pelos demais bancos centrais1.

Inicialmente, o programa de recompra pretende recolher do mercado, por mês, até US$ 10 bilhões em títulos. Esse montante será gradativamente aumentado até que o volume total recomprado seja de aproximadamente US$ 1 trilhão nos próximos anos. É realmente um montante colossal de dinheiro e, para dizer a verdade, ninguém sabe ao certo quais serão as consequências. Ainda levaremos alguns anos para medir não só a eficiência dessas medidas, mas também os impactos nas economias de diversos países afetados, pois essas práticas são inéditas, fogem totalmente do padrão dos manuais e livros-texto.

Mas como isso tudo pode impactar as nossas vidas aqui em terras abaixo sob a Linha do Equador?

Bem, sabemos que o Brasil é considerado um mercado emergente, um país em desenvolvimento, que recebe muitos investimentos estrangeiros e deles somos muito dependentes. Qualquer tipo de stress gerado com estas políticas de enxugamento global de liquidez pode causar alguma turbulência por aqui (como alta flutuação da taxa de câmbio e da bolsa de valores em função da fuga de capitais). Mas, ao que tudo indica, esse cenário é cada vez menos provável. Na realidade, os número mais recentes mostram, sim, um grande otimismo global, principalmente com dados de crescimento do mundo como um todo2 e principalmente da queda das taxas de juros, assim como está acontecendo aqui no Brasil.

Aparentemente, continuaremos surfando mais alguns anos nesses trilhões de dólares ao redor do mundo sem muita preocupação, aguardando as cenas dos próximos capítulos.

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6 de outubro de 2017
Ultima atualização: 17 de agosto de 2018

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