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7 de Janeiro de 2013 Ultima atualização: 17 de agosto de 2018

Nassim Taleb e o melhor fundo que perdia dinheiro todos os dias

7 de Janeiro de 2013

Imagine que todos os dias você acorda, se arruma e vai trabalhar. Ao chegar no trabalho você liga o computador para medir quanto dinheiro você vai perder no dia. Enquanto perde o seu dinheiro e o dinheiro de seus clientes, todos na empresa discutem estatística e matemática avançada ao som de música clássica. Ao final de um dia de trabalho, computam-se as perdas e você volta para casa com a certeza de um trabalho bem feito, ainda que com fortes sintomas de depressão.

Essa era a vida de Nicholas Nassim Taleb, e obviamente ele não fazia isso simplesmente para perder dinheiro, há uma teoria muito sólida por trás dos investimentos do fundo que ele geria, o Empirica.

O Empirica inverteu a psicologia tradicional de investimento. Enquanto os demais investidores buscam chances razoáveis de ganhar um pouco todos os dias, Taleb aceitava perder um pouco todos os dias, procurando obter ganhos expressivos em oportunidades eventuais.

Peru de Natal

O mercado financeiro é fortemente baseado na hipótese que quanto mais um evento ou um padrão ocorre, maior a probabilidade de ele continuar ocorrendo. Taleb acredita que eventos aleatórios e fora do padrão acontecem com mais frequência do que se imagina.

Imagine-se no ponto de vista de um peru. Todos os dias, de forma inexplicável, aparece comida na sua frente. Você não sabe exatamente de onde essa comida está vindo, mas dia após dia ela continua aparecendo. Quanto mais dias a comida aparece, maior a sua convicção de que ela irá aparecer no dia seguinte. Você continua comendo e engordando. Até o dia em que chega o Natal e cortam seu pescoço.

O problema é que o peru não sabe o que é o Natal ou quando ele acontece, da mesma forma como nós não conseguimos saber quando um evento inesperado vai acontecer. Nunca se sabe quando um avião se chocará contra as Torres Gêmeas do WTC em NY, quando o maior fundo de investimento do mundo irá quebrar, quando a economia dos países soviéticos entrará em colapso ou quando a bolha imobiliária americana estourará despertando a maior crise dos últimos oitenta anos.

Taleb também não sabe quando esses tipos de eventos vão acontecer, mas sabe que eles vão ocorrer. Através de análises estatísticas e financeiras ele consegue se posicionar para que qualquer evento de grande magnitude, positivo ou negativo, traga ganhos de grandes proporções para seus clientes.

Nesses dias esporádicos de grande agitação dos mercados, os ganhos de Taleb mais que compensavam as perdas que o fundo teve nos outros dias.

Cisne Negro

Taleb escreveu três livros sobre essa temática, o último ainda sem edição no Brasil. O mais famoso deles é “Black Swan” ou “Cisne Negro”.

Antigamente, a existência do cisne negro era desconhecida. Quanto mais cisnes brancos eram observados, mais se acreditava que todos os cisnes eram brancos. Mas, de acordo com Taleb, não importa quantas observações de cisnes brancos sejam feitas, não é possível provar que todos os cisnes são brancos. Todos acreditavam que cisnes eram brancos, até que uma única observação de um cisne negro invalidou a teoria estabelecida.

Os Black Swans de Taleb são os eventos imprevisíveis e inevitáveis, dos quais ele se aproveitava para ganhar dinheiro. Segundo ele, tais eventos precisam ter três características:

  • Ser imprevisível
  • Ter um alto impacto no mercado
  • Depois de ocorrido, inúmeras explicações aparecem provando que o evento era previsível e evitável

Um exemplo clássico de Black Swan foi o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001. Após seu acontecimento, diversas teorias e pistas apareceram mostrando que o evento era previsível e evitável.

Metodologia

É muito difícil seguir à risca essa estratégia de investimento. Perder dinheiro todos os dias é extremamente desconfortável. A tentação de frear esse sangramento é muito alta.

Taleb tinha dois empregados que o ajudavam a se manter de acordo com a teoria. Todas as operações eram feitas de acordo com protocolos estritamente desenhados. A razão de criar protocolos era poder dizer à equipe “não ouçam a mim, ouçam ao protocolo”.

É claro que Taleb tinha o direito de mudar o protocolo e ajustar o funcionamento do fundo Empirica, porém, havia um protocolo para mudar o protocolo.

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Autores

Um dos cofundadores da Vérios, Resende é gestor de recursos credenciado pela CVM e especialista em Data Science

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