“O mercado financeiro é masculinizado”: confira a entrevista com Itali Collini

Leia a entrevista sobre a masculinização dos investimentos pessoais

Pelas nossas estimativas, cerca de 75% dos leitores do blog da Vérios são homens. Então existe uma grande probabilidade de você ser um deles — e ficamos muito felizes com sua visita!

Mas… Cadê as leitoras? Por que existe tamanha discrepância de gênero na busca por informações sobre investimentos e educação financeira?

Para obter respostas a essas perguntas, entrevistamos Itali Collini, referência no assunto. Itali é economista pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora de questões de gênero e participação de mulheres no mercado financeiro. Confira.

Entrevista com Itali Collini

Vérios: Das pessoas que investem com a Vérios, apenas 18% são mulheres. Entre as pessoas físicas cadastradas na BM&FBovespa, a taxa é um pouco maior, cerca de 25%, mas ainda bem longe de refletir algum equilíbrio. Você acha que o mundo dos investimentos e o mercado financeiro em geral é masculinizado? Por quê?

Itali Collini: Sim, o mercado financeiro é masculinizado. Há diversos fatores que levaram a esse quadro e contribuem para mantê-lo, como o fator histórico de dominância econômica dos homens sobre as mulheres, que acabou por se refletir na sua maior participação como investidores desde o início da formação dos mercados.

Itali Collini
Itali Collini, economista especialista em questões de gênero

Há o fator do papel social pelo qual as mulheres, mesmo estando no mercado de trabalho atualmente, não são incentivadas, nem mesmo é esperado delas tanto envolvimento com o assunto como é esperado dos homens.

Contribuem para a manutenção desse quadro as diversas empresas e a própria industria usarem uma linguagem pouco acessível e voltada para homens. E quando digo para homens não estou querendo dizer que é de maneira consciente, mas sim que reproduzimos ainda muito do que essa estrutura de mercado feita majoritariamente por homens criou em termos de linguagem, símbolos e comportamentos. É preciso desconstruir estereótipos e aproximar o público feminino.

Vérios: O que é investir para a mulher?

Itali Collini: Eu não poderia responder essa pergunta por todas as mulheres, por outro lado acredito que respondendo por mim talvez contemple muitas delas. Investir é utilizar de uma ferramenta que tem o poder de aumentar ou consolidar minha autonomia e independência.  

É preciso desconstruir estereótipos e aproximar o público feminino

Vérios: Faz sentido falar de forma diferente sobre investimentos para homens e mulheres?

Itali Collini: Sob o ponto de vista de que mulheres e homens são hoje ainda socializados de maneira diferente, falar de forma diferente para mulheres do que se falaria para homens pode ser uma maneira de aproximá-las do assunto.

Isso não significa que as capacidades são diferentes, mas sim que o espectro de investimento e decisões pode ser diferente por um reflexo dessa diferença dos papéis sociais.

Vérios: Quando você começou a pensar em poupar e investir? Quais eram suas preocupações?

Itali Collini: Minha preocupação sempre foi obter independência financeira. Comecei a investir aos 18 anos, quando estava num estágio técnico. Acessei o mercado fracionário por poder comprar ações em menores quantidades e não comprometer muito da minha renda. A parte boa foi aprender sobre a influência do mercado na economia real. A parte ruim foi ter feito isso em 2008! (Risos)

Vérios: A mulher culturalmente tem o papel de ser protetora e se preocupar com os membros da família. Isso tem a ver com investimentos, porque é uma forma de garantir um futuro financeiramente seguro. Que caminhos podem ser explorados para fazer com que mais mulheres se interessem em investir?

Itali Collini: Acredito que faz sentido olhar para os interesses das mulheres ao se comunicar com elas, mesmo que seus interesses também sejam reflexo dos papéis de gênero.

Por exemplo, pesquisas mostram que as mulheres costumam reinvestir o que ganham nos filhos numa proporção maior que os homens, nesse sentido seria possível se aproximar delas via um interesse que elas ja tem.

Mas acho que não deveríamos parar por aí. Se uma empresa pode se aproximar pelos interesses mais recorrentes, ela pode também usar sua relação com a cliente para desconstruir alguns estereótipos, educar sobre as outras possibilidades.

pesquisas mostram que as mulheres costumam reinvestir o que ganham nos filhos numa proporção maior que os homens

Vérios: Nas perguntas que fizemos antes, acabamos sempre falando “a mulher isso, a mulher aquilo”. Faz sentido isso? Não queremos criar esterótipos! Como falar sobre investimentos com mulheres sem criar um estereótipo, respeitando as diferenças entre elas?

Itali Collini: Perguntas nessa direção fazem sentido se quisermos entender alguns aspectos sociais que refletem no comportamento da mulher, eu citei um que é o papel de gênero. Mas sempre haverá o divergente, porque mesmo as pesquisas e teorias mais abrangentes não cobrirão todos os agentes envolvidos, elas podem apenas dar o contorno de uma tendência ou explicação sobre diversos fenômenos e pode nos guiar em algumas ações.

Eu recomendaria a Vérios convidar e dialogar com mulheres que investem e com mulheres que desistiram de investir, isso porque seria possível ver o que as aproxima e o que as distancia, não será surpresa se algo relacionado à linguagem ou ambiente estiver presente entre as que desistiram de investir.

Concorda com o ponto de vista da Itali?

Se você faz parte da minoria feminina que lê nosso blog, agradecemos sua contribuição com essa discussão ali embaixo nos comentários. Como é a sua relação com os investimentos e finanças pessoais em geral?

Cromossomos XY aí do outro lado? Seus comentários também são sempre bem-vindos. Ainda mais se você compartilhar o artigo com as familiares e amigas e nos ajudar a trazer mais mulheres para o blog 😉

“O mercado financeiro é masculinizado”: confira a entrevista com Itali Collini
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Categorias: Economia comportamental, Iniciante, Intermediário, Avançado, Economia, Cansou de ler sobre investimentos?
  • Margareth Conceicao

    Ótima matéria! Tive a oportunidade conhecer sobre investimentos devido a oportunidade de trabalhar na área, porém infelizmente a maioria das mulheres fora do ramo ainda não tem o conhecimento básico necessário para investir mesmo com tanta informação disponível atualmente.

    • Ana Vitória Baraldi

      Oi Margareth,

      Concordo plenamente com você e queremos mudar isso produzindo sempre conteúdos relevantes! 😉

      Se você tiver alguma dica ou sugestão de pauta estamos super abertos!

      Abraços,
      Aninha

  • Veridiana Freire

    Muito boa a entrevista! Ainda estou na faculdade de economia e sou apaixonada por mercado financeiro!
    Acho que as mulheres estão dando cada vez mais importância à sua independência financeira. A busca por informações sobre investimentos vem como consequência disso!

    • Ana Vitória Baraldi

      Oi Veridiana!

      Que legal! Somos colegas de profissão! Boa sorte nesse mundo e conte sempre conosco!

      Abraços,
      Aninha

  • Marcia Dias

    Muito legal esse assunto.
    Eu vejo que a questão do menor número de mulheres investindo são dois… primeiro que as mulheres que tem filhos, mas não são casadas com o pai do filho, acabam tendo um gasto muito maior com as crianças, o que acaba não sobrando pra investir, mal sobra pras despesas básicas. Enquanto os homens, mesmo sendo pais, pagam a pensão e olhe lá, sobrando dinheiro para outros investimentos.
    No geral, mulheres ganham menos do que os homens e gastam mais com a família do que eles.

    Segundo que muitas mulheres casadas investem no nome do marido. Eu mesma tenho investimentos, mas deixo tudo no nome do meu marido, embora eu entenda mais que ele e a própria iniciativa de poupar, investir e procurar uma corretora tenha sido minha. Motivo? É mais fácil cuidar de uma conta só do que duas, e estando no nome dele ele se sente incluído. Muitos homens tem muito essa questão de ego, de se sentir mal amado se a esposa toma atitudes independentes.

    Ainda assim, acho essencial falar sobre isso com as mulheres! Temos que perder o medo do número, do dinheiro… temos que aprender a poupar e planejar o futuro.

    • Isabella Paschuini

      Oi, Marcia! Obrigada por enriquecer a discussão!

      Concordo com você, existem vários motivos. Aqui na Vérios, apenas 18% dos clientes são mulheres, o que poderia ter a ver com o que você falou sobre ficar tudo no nome do marido. Porém, mesmo ao analisar os acessos ao blog (ou seja, a busca por informação) o percentual de mulheres continua baixo, na faixa de 25%.

      É isso aí, vamos falar mais sobre isso!

      Dá uma olhada neste outro artigo que postamos hoje: https://verios.com.br/blog/apenas-18-das-pessoas-que-investem-com-a-verios-sao-mulheres-ajude-nos-a-mudar-isso/

      Abraços,
      Isa

  • Renato S Lima

    Homem pitaquento: eu estou mais próximo da visão da Maiara (https://verios.com.br/blog/financas-para-mulheres-financas-sao-pra-todos/) que a da Itali. Gostaria mais de ver um profundo respeito às diferenças do que a equalização total dos papéis sociais. A mulher precisa ser independente e, para isso, no nosso mundo, precisa de dinheiro. Dinheiro leva a independência e poder e aí repousa quase toda a minha esperança: VIVA O WOMEN POWER!

    • Isabella Paschuini

      Oi, Renato! Obrigada pelo comentário!

      Não é homem pitaquento, não (risos)! Essa é uma briga que todos nós temos que comprar.

      Eu concordo com você sobre a independência em relação ao dinheiro, a Carol também defendeu esse ponto aqui: https://verios.com.br/blog/saber-investir-pode-empoderar-uma-mulher/

      A questão é: como pode a mulher ser independente se em muitos casos ainda ganha uma fração do salário de homens desempenhando a mesma função? E se ela tem que sustentar sozinha 40% dos lares do país? É justamente por essas diferenças que temos que brigar.

      Engravidar, amamentar… realmente isso não tem como equalizar. É uma distinção cromossômica. Mesmo assim, já reparou que, quando a mulher quer ter filhos, corre o risco de perder o emprego, certo? Mas quando não quer, é vista com maus olhos pela sociedade que acha que tem algo errado por uma mulher não querer se tornar mãe! Surreal.

      Acredito que existem caminhos possíveis, como por exemplo dividir a licença-maternidade entre o pai e a mãe. Mesmo sendo a mãe que amamenta, o pai talvez possa levar o bebê para o trabalho dela, dividir essa responsabilidade. Ou mesmo com a mulher trabalhando de casa para amamentar enquanto ele fica à frente de todos os outros cuidados com o bebê. Acho que diminuiria o preconceito dos empregadores que preferem contratar homens porque as mulheres terão filhos.

      Enfim, estiquei a discussão além do esperado, mas só queria mesmo agradecer o comentário!

      Abraços,
      Isa

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