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6 de Março de 2017 Ultima atualização: 17 de agosto de 2018

“O mercado financeiro é masculinizado”: confira a entrevista com Itali Collini

6 de Março de 2017

Pelas nossas estimativas, cerca de 75% dos leitores do blog da Vérios são homens. Então existe uma grande probabilidade de você ser um deles — e ficamos muito felizes com sua visita!

Mas… Cadê as leitoras? Por que existe tamanha discrepância de gênero na busca por informações sobre investimentos e educação financeira?

Para obter respostas a essas perguntas, entrevistamos Itali Collini, referência no assunto. Itali é economista pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora de questões de gênero e participação de mulheres no mercado financeiro. Confira.

Entrevista com Itali Collini

Vérios: Das pessoas que investem com a Vérios, apenas 18% são mulheres. Entre as pessoas físicas cadastradas na BM&FBovespa, a taxa é um pouco maior, cerca de 25%, mas ainda bem longe de refletir algum equilíbrio. Você acha que o mundo dos investimentos e o mercado financeiro em geral é masculinizado? Por quê?

Itali Collini: Sim, o mercado financeiro é masculinizado. Há diversos fatores que levaram a esse quadro e contribuem para mantê-lo, como o fator histórico de dominância econômica dos homens sobre as mulheres, que acabou por se refletir na sua maior participação como investidores desde o início da formação dos mercados.

Itali Collini
Itali Collini, economista especialista em questões de gênero

Há o fator do papel social pelo qual as mulheres, mesmo estando no mercado de trabalho atualmente, não são incentivadas, nem mesmo é esperado delas tanto envolvimento com o assunto como é esperado dos homens.

Contribuem para a manutenção desse quadro as diversas empresas e a própria industria usarem uma linguagem pouco acessível e voltada para homens. E quando digo para homens não estou querendo dizer que é de maneira consciente, mas sim que reproduzimos ainda muito do que essa estrutura de mercado feita majoritariamente por homens criou em termos de linguagem, símbolos e comportamentos. É preciso desconstruir estereótipos e aproximar o público feminino.

Vérios: O que é investir para a mulher?

Itali Collini: Eu não poderia responder essa pergunta por todas as mulheres, por outro lado acredito que respondendo por mim talvez contemple muitas delas. Investir é utilizar de uma ferramenta que tem o poder de aumentar ou consolidar minha autonomia e independência.  

É preciso desconstruir estereótipos e aproximar o público feminino

Vérios: Faz sentido falar de forma diferente sobre investimentos para homens e mulheres?

Itali Collini: Sob o ponto de vista de que mulheres e homens são hoje ainda socializados de maneira diferente, falar de forma diferente para mulheres do que se falaria para homens pode ser uma maneira de aproximá-las do assunto.

Isso não significa que as capacidades são diferentes, mas sim que o espectro de investimento e decisões pode ser diferente por um reflexo dessa diferença dos papéis sociais.

Vérios: Quando você começou a pensar em poupar e investir? Quais eram suas preocupações?

Itali Collini: Minha preocupação sempre foi obter independência financeira. Comecei a investir aos 18 anos, quando estava num estágio técnico. Acessei o mercado fracionário por poder comprar ações em menores quantidades e não comprometer muito da minha renda. A parte boa foi aprender sobre a influência do mercado na economia real. A parte ruim foi ter feito isso em 2008! (Risos)

Vérios: A mulher culturalmente tem o papel de ser protetora e se preocupar com os membros da família. Isso tem a ver com investimentos, porque é uma forma de garantir um futuro financeiramente seguro. Que caminhos podem ser explorados para fazer com que mais mulheres se interessem em investir?

Itali Collini: Acredito que faz sentido olhar para os interesses das mulheres ao se comunicar com elas, mesmo que seus interesses também sejam reflexo dos papéis de gênero.

Por exemplo, pesquisas mostram que as mulheres costumam reinvestir o que ganham nos filhos numa proporção maior que os homens, nesse sentido seria possível se aproximar delas via um interesse que elas ja tem.

Mas acho que não deveríamos parar por aí. Se uma empresa pode se aproximar pelos interesses mais recorrentes, ela pode também usar sua relação com a cliente para desconstruir alguns estereótipos, educar sobre as outras possibilidades.

pesquisas mostram que as mulheres costumam reinvestir o que ganham nos filhos numa proporção maior que os homens

Vérios: Nas perguntas que fizemos antes, acabamos sempre falando “a mulher isso, a mulher aquilo”. Faz sentido isso? Não queremos criar esterótipos! Como falar sobre investimentos com mulheres sem criar um estereótipo, respeitando as diferenças entre elas?

Itali Collini: Perguntas nessa direção fazem sentido se quisermos entender alguns aspectos sociais que refletem no comportamento da mulher, eu citei um que é o papel de gênero. Mas sempre haverá o divergente, porque mesmo as pesquisas e teorias mais abrangentes não cobrirão todos os agentes envolvidos, elas podem apenas dar o contorno de uma tendência ou explicação sobre diversos fenômenos e pode nos guiar em algumas ações.

Eu recomendaria a Vérios convidar e dialogar com mulheres que investem e com mulheres que desistiram de investir, isso porque seria possível ver o que as aproxima e o que as distancia, não será surpresa se algo relacionado à linguagem ou ambiente estiver presente entre as que desistiram de investir.

Concorda com o ponto de vista da Itali?

Se você faz parte da minoria feminina que lê nosso blog, agradecemos sua contribuição com essa discussão ali embaixo nos comentários. Como é a sua relação com os investimentos e finanças pessoais em geral?

Cromossomos XY aí do outro lado? Seus comentários também são sempre bem-vindos. Ainda mais se você compartilhar o artigo com as familiares e amigas e nos ajudar a trazer mais mulheres para o blog 😉

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6 de Março de 2017
Ultima atualização: 17 de agosto de 2018

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Autores

Fã da facilidade que as fintechs proporcionam, Isa trabalha com comunicação e marketing. É jornalista formada pela UERJ, com MBA em Marketing pela FGV

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