Os discursos dos presidentes e a evolução da democracia

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A complexidade dos discursos de posse dos presidentes brasileiros está diminuindo significativamente. Enquanto compreender Prudente de Morais demandava 30 anos de educação do seu público, bastam 14 anos de ensino para entender o que Dilma Rousseff tem a nos dizer. O que isso indica sobre a evolução da democracia no Brasil?

Ao ser eleito, o Presidente da República entoa seu discurso de posse para toda a nação. Agradecimentos, relatos da situação atual, promessas de um país melhor e palavras de esperança geralmente estão na essência dessas falas – isso pouco muda. O mesmo já não podemos dizer sobre o nível de complexidade dos discursos, cada vez mais simples de entender. Estamos ficando mais inteligentes? Ou os discursos estão menos rebuscados?

Coletamos os discursos de posse dos presidentes brasileiros – desde a Proclamação da República, em 1889, até 2011 – e aplicamos o teste de complexidade Flesch Kincaid, que mede quantos anos de estudo são necessários para compreender plenamente um texto. O resultado indica que precisamos de 14 anos de estudo para entender o discurso de posse de Dilma Rousseff, mas 30 anos de escolaridade para assimilar as palavras de Prudente de Morais, o mais prolixo presidente brasileiro. Veja o gráfico:

Complexidade dos discursos dos presidentes brasileiros

Gráfico do tempo necessário para compreensão dos discursos dos presidentes brasileiros desde a Proclamação da República

Atualização em 5/1/2015: Aplicamos o teste de complexidade ao discurso proferido pela presidente Dilma Rousseff na cerimônia de posse do seu segundo mandato, em 1º/1/2015. O resultado: 17,9 anos de estudo seriam necessários para compreender as palavras da presidente, quase quatro anos a mais que os 14 anos indicados pela análise do seu primeiro discurso de posse, em 2011.

Mas… para quem são esses discursos?

Historicamente, os discursos dos presidentes brasileiros eram mais complexos e rebuscados. Com o passar dos anos, conforme mostra o gráfico, estão ficando mais simples e diretos. Colocando à parte a evolução natural da língua, fomos buscar explicações para esse fenômeno.

Para começar, vamos descartar a instrução profissional do presidente como fator de complexidade do seu discurso. Jânio Quadros, advogado e professor de português, e José Sarney, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), fizeram discursos de média complexidade em comparação aos demais. Fernando Henrique Cardoso, tido como um dos presidentes mais cultos e também membro da ABL, fez um dos discursos mais simples. Por outro lado, Luís Inácio Lula da Silva, o único presidente sem ensino formal, fez o discurso mais complexo desde a década de 1950.

A explicação mais provável para essa curva descendente na complexidade dos discursos é a massificação do eleitorado com o democratização do voto. As urnas deixaram de ser reduto da aristocracia e as eleições tomaram os meios de comunicação, sobretudo a televisão. Os presidentes tiveram que adequar seus discursos a um público mais amplo.

A explicação mais provável para essa curva descendente na complexidade dos discursos é a massificação do eleitorado com o democratização do voto

Esse processo de adequação, naturalmente, abrange toda a campanha eleitoral e comunicação dos presidentes, não apenas o discurso de posse presidencial. Tomamos para este estudo o discurso por ser um texto com certo nível de padronização e retratar apenas o vencedor das eleições – que, em tese, tomou decisões certas do ponto de vista de comunicação.

É importante analisar esse movimento, considerando que estamos vivendo transformações profundas na base eleitoral. O número de pessoas na classe média está superando o da classe baixa, e, em uma lógica de “um voto por cabeça”, a orientação da política pode ficar mais sensível a mudanças, buscando sempre acompanhar a percepção do que a maioria deseja.

Embora a linguagem dos presidentes se torne mais simples, nas eleições deste ano teremos, pela primeira vez, mais eleitores com nível superior que eleitores analfabetos. Apesar desse avanço, cabe ressaltar que a escolaridade média do brasileiro ainda é de apenas 8,8 anos de estudo, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Ainda assim, o grau de complexidade dos discursos por aqui ainda supera – e muito – o dos presidentes norte-americanos. Compreender a oratória de Barack Obama, George W. Bush e Bill Clinton demanda entre 8 e 10 anos de estudo. Claro, as características próprias da língua inglesa também podem influenciar neste resultado.

Um sinal de que caminhamos para a “centralização” da democracia

Os candidatos almejam o apoio da maioria para serem eleitos. Para isso, eles precisam adotar uma linguagem que seja compreensível por esta maioria. Ao mesmo tempo, convém transmitir mensagens com as quais a maioria concorde, escolhendo alguns pontos de diferenciação em relação aos demais candidatos. Posições radicais tendem a ser colocadas de lado no debate presidencial, pois podem afugentar mais que conquistar votos.

Os candidatos almejam o apoio da maioria para serem eleitos. Para isso, eles precisam adotar uma linguagem que seja compreensível

Nessa dinâmica, muitas concessões são feitas de todos os lados, e partidos com ideologias a princípio opostas acabam se “centralizando”. É mais fácil se ajustar à maioria do que mudá-la. E aí, cabe a crítica: os discursos e planos dos presidenciáveis – muitas vezes incongruentes entre si – formam uma colcha de retalhos.

No final das contas, parecem ser raras as bandeiras que os candidatos ousam levantar para manter a ênfase de sua ideologia primeira. Para os otimistas, este é o ponto a que devemos nos ater ao escolher nossos candidatos. Já para os pessimistas, nem mesmo isso faz diferença, e eles seriam todos iguais. A impressão que temos é a de que eles se tornam iguais para se adaptarem à vastidão dos eleitores, e não o contrário.

Um pouco mais sobre o Flesch Kincaid

Em nossos estudos de economia e política, buscamos implementar abordagens mais modernas para entender o comportamento do mundo e dos mercados. Entender processos históricos nos ajudam a projetar o futuro. A eleição presidencial é um tema importante no Brasil, em especial neste ano, e, por isso, fomos estudar o que a análise dos discursos dos presidentes anteriores poderia indicar.

O Flesch Kincaid foi desenvolvido pelas Forças Armadas norte-americanas para ajustar manuais internos ao nível de educação de seus militares. Ele é utilizado em redes de ensino e veículos de mídia em todo o mundo. Resumidamente, o algoritmo mede a relação de tamanho das palavras e das frases.

Palavras mais simples, formadas por seu radical (elemento que servem de base para o significado) – como “pedra”, “água” e “comida” – tendem a ser mais curtas. Já palavras abstratas e compostas com prefixos e sufixos – como “pensamento”, “democracia” e “neoliberalismo” – tendem a ter maior número de letras. Da mesma maneira, ideias mais simples formam frases curtas: “Estou com fome”. Ideias mais elaboradas e complexas, por sua vez, naturalmente são mais extensas: “Faz horas que não consumo nenhum gênero alimentício, estou faminto”.

E este artigo que você acabou de ler? Qual o seu grau de complexidade? Bem, de acordo com o Flesch Kincaid, se você tem pelo menos 15,5 anos de educação formal, pode ter certeza de que compreendeu tudo.

Cabe ressaltar que o Flesch Kincaid foi desenvolvido para a língua inglesa e sua aplicação para a língua portuguesa pode não refletir um resultado exato, tendo em vista as particularidades de cada idioma. Apesar da possível diferença em termos absolutos, a escolaridade necessária para compreender os discursos tende a manter as proporções identificadas, corroborando a argumentação deste artigo.

Aos interessados, a íntegra dos discursos presidenciais foi compilada por João Bosco Bezerra Bonfim no livro “Palavra de presidente – Discursos de posse de Deodoro a Lula”. Boa parte dos discursos presidenciais podem ser encontrados no site da biblioteca da presidência.

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