Por que não incluímos LCI/LCA na carteira inteligente da Vérios?

As Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e do Agronegócio (LCA) são um tipo de aplicação financeira que se popularizou bastante nos últimos anos. Atrativos como isenção de Imposto de Renda, garantia do FGC e rentabilidade acima da média para renda fixa contribuíram para aumentar a demanda por esses ativos.

Por isso, de vez em quando recebemos esta pergunta: “Por que não tem LCI e/ou LCA na carteira inteligente?”. Se a Vérios criou o serviço de investimento mais inteligente do país, por que deixaria de fora ativos que parecem tão bons?

Estudamos exaustivamente esses ativos antes de decidir não incluí-los em nossa estratégia de diversificação. Resumindo em um frase, o principal motivo pelo qual deixamos as letras incentivadas de fora da carteira inteligente é que não é possível avaliar o risco real desses ativos.

Chegamos a oferecer LCI e LCA quando trabalhamos com uma plataforma de distribuição de fundos de investimento, quando os juros estavam abaixo de 10% ao ano, mas paramos de investir nosso dinheiro pessoal nisso e de recomendar essas aplicações aos nossos clientes há bastante tempo. Por quê?

Não é possível avaliar o real risco desses ativos e todo mundo está comprando com base apenas na garantia. Isso por si só já é um mau sinal

Não dá para dizer que seja um investimento ruim, mas também não dá para saber se é um bom investimento. A questão é que os sinais não são bons e, na dúvida, preferimos não arriscar com dinheiro dos clientes (nem com o nosso).

Listamos aqui os 8 motivos pelos quais optamos por não incluir LCI e LCA na carteira inteligente da Vérios:

1. A embalagem é bonita, mas o que está dentro dela?

Se você tem aplicações nesses ativos, responda pra gente: por que você investiu?

Essa é fácil, vai. Investir em LCI/LCA parece muito vantajoso:

  • É renda fixa, ou seja, supostamente não você não vai perder dinheiro;
  • Algumas oferecem rentabilidades um pouco mais altas que outras formas de renda fixa;
  • Tem isenção de Imposto de Renda, o que torna a rentabilidade melhor ainda;
  • Conta com a garantia do FGC até R$ 250 mil, por CPF e por instituição financeira.

Agora uma pergunta mais difícil: você sabe em que está investindo?

Quais são os perfis dos imóveis e dos agronegócios para os quais o banco está emprestando seu dinheiro?

Quais são os perfis dos devedores (tomadores de empréstimo)? Como é a saúde financeira deles?

Já buscamos informações junto aos bancos emissores, mas nunca nos responderam de forma objetiva.

Na Vérios, só aceitamos ativos cujos riscos podem ser estimados de forma confiável, para que possamos otimizar de forma matematicamente correta a relação risco-retorno das carteiras. Isso fica mais difícil quando falamos de ativos como LCIs e LCAs, ou mesmo um fundo multimercado. Não é possível saber exatamente o que esses ativos contêm.

E quem são esses bancos que emitem as letras de crédito? Como é saúde financeira deles?

Há alguns meses, saíram notícias informando que o Banco Central mantém 9 bancos sob “acompanhamento especial”. Veja mais detalhes nesta matéria da Reuters. O BC, de acordo com a matéria, estaria olhando com lupa essas instituições em função de questões como liquidez e estabilidade.

Infelizmente, informações sobre a saúde financeira dos bancos emissores de LCI/LCA ficam em segundo plano quando você decide onde investir. Aqui deixamos uma dica: antes de aplicar nesses ativos, busque se informar. O site Banco Data compila dados de balanços, rating etc. dessas instituições. Vamos falar mais sobre isso no próximo item.

2. O risco de inadimplência é relevante, embora ninguém te diga isso

Se você já pensou no FGC, espere que já falaremos dele em seguida.

Muitas pessoas não entendem que as LCIs e LCAs são um tipo de aplicação de renda fixa que tem um risco bastante significativo: a inadimplência, também conhecida como calote.

Por que algumas LCI e LCA pagam mais do que outras? Já pensou nisso?

A taxa de juros é o quanto o banco te paga pra você emprestar seu dinheiro para eles. Se todos os bancos pagassem o mesmo juros, para qual deles você emprestaria?

Provavelmente você pensou no Banco do Brasil, Caixa, Itaú, Bradesco ou Santander. Você não deve ter pensado em bancos subprime (de segunda linha) como Pine, Máxima, Intermedium, ABC Brasil etc. Por que não?

Porque instintivamente você sabe que o risco de o banco quebrar e não te pagar é bem maior do que nos chamados “bancões” ou bancos de primeira linha. Para atrair investidores, esses bancos de segunda linha precisam prometer rentabilidade maior. O que a maioria das pessoas não entende é que quanto maior a rentabilidade, maior o risco.

Para atrair investidores, esses bancos menores precisam prometer rentabilidade maior. Só que quanto maior a rentabilidade, maior o risco de calote

Desde 2013, esse risco está aumentando. Muitas das empresas imobiliárias e do agronegócio pegaram empréstimos dos bancos com juros na casa dos 7% ao ano e agora estão pagando dívidas com juros a 15% ao ano. O crédito está saindo mais caro que o previsto, e isso pode inviabilizar os negócios de algumas delas. Ainda por cima, temos um cenário de desaquecimento econômico, o que aumenta as dificuldades de pagamento.

Resumindo: você está emprestando dinheiro para empresas que estão vendo seus custos financeiros aumentarem e suas vendas caírem. O risco de inadimplência é considerável.

3. Todo mundo se garante no FGC, mas em quem o FGC se garante?

O risco de inadimplência é frequentemente desconsiderado porque as aplicações em LCI e LCA contam com a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Você conhece a estrutura dessa garantia?

Como mostramos nas 7 coisas que você não sabia sobre o FGC, o volume de que o Fundo dispõe para cumprir com as garantias equivale a pouco mais de 1% do valor total garantido. Quem contribui com o fundo são os próprios bancos garantidos. Já ouviu falar na expressão la garantía soy yo?

Se um ou outro banco quebrar, tudo bem. O FGC dá conta do recado e cumpre sua missão, como já aconteceu várias vezes nos últimos anos. Mas e se o cenário complicar e ocorrer uma crise de crédito um pouco mais ampla, afetando alguns bancos, ou até uma generalizada como foi a crise norte-americana em 2008? Naturalmente, vai ficar difícil de o FGC dar conta de tudo. Na Vérios, nós consideramos esse risco.

Você sabia que a garantia do Tesouro Nacional é muito maior que a do FGC? Apesar disso, as pessoas não se sentem garantidas porque o Tesouro Direto não faz marketing da sua garantia

Muita gente se ilude com a presença da palavra “garantia”: é como se o risco deixasse de existir ou fosse o menor risco possível. Você sabia, por exemplo, que a garantia do Tesouro Nacional, disponível para quem investe no Tesouro Direto, é muito maior que a do FGC? Apesar disso, as pessoas não se sentem tão garantidas.

Isso porque a garantia do Tesouro Nacional não é utilizada um atributo de marketing na venda para incentivar você a investir no Tesouro Direto.

Não queremos que as pessoas que investem com a Vérios corram o risco de depender do FGC. Quando um banco quebra, o prazo de pagamento pode ser de alguns meses (veja aqui quanto tempo os investidores levaram para receber os valores garantidos no caso de cada banco).

Se isso acontecer, você fica sem a rentabilidade desse período entre a decretação da liquidação e o pagamento, mas o pior de tudo é o aspecto humano e emocional: tomar um calote deixa o investidor em pânico, ansioso, preocupado.

A diferença de rentabilidade entre um título como o Tesouro Selic — que paga a taxa Selic — e uma LCI dessas que paga um pouco mais que a Selic não vale esse estresse.

Observe o seguinte: 105% do CDI não são 5% somados à taxa do CDI, e sim 5% da taxa do CDI. Fazendo as contas com uma taxa de 14,25%, 105% do CDI equivale a 14,96%, um incremento que não compensa o acréscimo de risco que carrega.

4. A precificação das LCIs e LCAs pode estar incorreta

Você sabia que apenas pessoas físicas têm incentivo fiscal para aplicar em LCI e LCA? Esse é um mercado onde não há CNPJs investindo, os chamados investidores institucionais.

O fato de que não há investidores institucionais investindo nesses ativos é um indicativo de que a precificação deles pode estar incorreta. A própria impossibilidade de saber o que tem dentro de uma LCI ou LCA inviabiliza a precificação do ativo.

Devido à assimetria de informação, os vendedores (emissores das letras) podem colocar qualquer preço, porque os compradores (pessoas físicas) não fazem a mínima ideia do que estão comprando.

Quanto vale o lastro de certa LCI? Se o banco diz que um imóvel de R$ 300 mil vale R$ 600 mil, como discutir?

Nós costumamos dizer que estaríamos, sim, dispostos a investir em uma LCI ou LCA, por exemplo, do banco Máxima, que está sob observação do Banco Central. Mas com uma condição: só se ela pagasse uma rentabilidade muito maior. Por 105% do CDI, não vale o risco.

5. O incentivo comercial é suspeito, apesar de dizerem que LCI e LCA não tem taxas

Muitas consultorias e assessores de investimento dizem que o investimento em LCI e LCA não tem custos, é “taxa zero”.

Você sabia que a corretora e o assessor que oferecem para você uma LCI ou LCA recebem uma comissão à vista quando você faz a aplicação? Ou você acreditou que o banco faria algo de graça?

Esse incentivo é um tanto estranho: em vez de receber a comissão durante o tempo em que seu dinheiro estará aplicado, o assessor recebe a comissão “na cabeça”, como se diz no jargão do mercado.

Você percebe que essa situação gera um conflito de interesses? Há um incentivo comercial muito forte para a venda de LCIs e LCAs, mas não faz diferença se depois você ficar satisfeito com o investimento ou não. Se você sacar seu dinheiro, o assessor já garantiu o dele. Será que vão te recomendar esse produto porque é bom para você ou porque é lucrativo para quem está te oferecendo? Não dá pra generalizar, mas vale a pena ficar atento: você está falando com um vendedor comissionado.

6. A liquidez fica comprometida

LCIs e LCAs são aplicações financeiras com baixa liquidez. Você investe e só pode resgatar no vencimento do título. O prazo mínimo é 90 dias, mas o mais comum no mercado são as aplicações de 1 e 2 anos.

Esse prazo em que seu dinheiro fica “bloqueado” de fato contribui para que os bancos possam oferecer melhores rentabilidades. O problema é que imprevistos acontecem.

Se você precisar resgatar sua aplicação antes do vencimento, perde o direito à rentabilidade e recebe apenas o valor que aplicou (na prática, um valor menor, se descontar a inflação do período).

Na Vérios, acreditamos que você sempre deve ter acesso fácil e rápido ao seu patrimônio, mesmo que seus objetivos sejam de longo prazo. Sabe por quê? Porque o dinheiro não é nosso, é seu.

Ao colocar títulos com baixa liquidez na carteira inteligente, como uma LCI ou LCA, não poderíamos garantir aos nossos clientes o prazo máximo para resgate de apenas 5 dias úteis. Esse é um prazo de segurança porque a liquidação de ETFs pode demorar alguns dias, mas a posição em Tesouro Direto tem liquidez diária.

Nós não bloqueamos o dinheiro dos nossos clientes.

Já vimos imprevistos acontecendo. Dois clientes já precisaram resgatar seus investimentos de forma imprevista porque encontraram um apartamento com bom preço, do jeitinho que queriam, e tinham que pagar a entrada. Imagine perder oportunidades como essas porque seu dinheiro está “preso” numa LCI de 360 dias…

Além de priorizar que nossos clientes tenham acesso aos seus recursos quando quiserem, existe outro motivo pelo qual a LCI/LCA não está na carteira inteligente: com títulos de baixa liquidez, não é possível fazer o rebalanceamento automático bem-feito e permitir aportes adicionais de pequenos valores. Aqui na Vérios, você pode fazer novos depósitos a partir de apenas R$ 100.

7. Falta de lastro e padronização

A oferta de LCI e LCA não tem qualquer tipo de padronização. Não é como o Tesouro Direto, onde há uma continuidade dos títulos oferecidos, os quais estão diariamente disponíveis para aplicação e cuja recompra diária é garantida pelo Tesouro Nacional.

Os bancos criam novas ofertas das letras de crédito de acordo com seu lastro, ou com o quanto estão dispostos a emprestar para os tomadores de recursos dos setores imobiliário e do agronegócio. Não temos acesso a essa informação.

Imagine que você poupou R$ 1.000 no mês passado e quer aplicar em LCI/LCA, mas não encontra nenhum ativo que pareça bom disponível. E agora? Aliás, muitas vezes o valor mínimo de aplicação inicial nesses produtos fica em torno de R$ 10.000. Vai deixar seu dinheiro parado até juntar os R$ 10.000?

Do ponto de vista operacional, essa falta de padronização também seria um complicador para a Vérios fazer a gestão cuidadosa da carteira dos nossos clientes, já que cada um teria uma LCI/LCA emitida por uma instituição diferente, com rentabilidades diferentes, riscos de crédito diferente etc. E é impossível avaliar de verdade o risco de crédito desses papéis, como já falamos acima. Assim, dois clientes com o mesmo perfil de tolerância a riscos poderiam acabar ficando com riscos muito diferentes em suas carteiras.

8. Não é correto buscar “máxima rentabilidade” com a parcela de renda fixa da sua carteira

Você pode nos perguntar se estamos abrindo mão de boas rentabilidades com LCI/LCA.

A questão é que a parcela de renda fixa da sua carteira de investimentos não é lugar onde você deve buscar “maximizar rentabilidade”. Isso deve ser feito na renda variável. Na renda fixa, buscamos maximizar segurança e liquidez.

Ao contrário do que dizem por aí, você não deve buscar maximizar rentabilidade na renda fixa, mas sim segurança e liquidez

A parcela de renda fixa do seu patrimônio é o dinheiro que você resgata em caso de imprevistos. Você não deve ficar buscando “maximizar a rentabilidade da sua renda fixa”, como muitas corretoras e assessores dizem por aí. Lembre-se sempre que a rentabilidade não é um presente, ninguém te dá dinheiro de graça. A rentabilidade é a remuneração pelo risco corrido. Regra geral: quanto maior a rentabilidade, maior o risco.

Em alguns tipos de títulos de renda fixa como LCI, LCA e CDB de bancos de segunda linha, assim como nos fundos de crédito privado, você não vê o risco. A rentabilidade parece muito estável e consistente. Quando o risco de calote se materializa, já é tarde demais. Leia este outro artigo para entender como é possível perder dinheiro na renda fixa.

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Esperamos que tenham ficado claras para você as razões pelas quais não incluímos LCI e LCA na carteira inteligente da Vérios. Qualquer dúvida, é só comentar aqui no artigo e responderemos.

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Por que não incluímos LCI/LCA na carteira inteligente da Vérios?
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Categorias: Intermediário, Avançado, Carteira inteligente, Por dentro da Vérios, LCI e LCA
  • JP

    Porque financeiramente não compensa para vocês, falar de risco para um ativo que tem uma garantia fiduciária completa é meio que surreal, LCI/LCA de bancos médios bate quase todos os fundos que vocês vendem, bate o TD, bate qualquer coisa relacionada a renda fixa.

    E olha que são bancos médios, não pequenos, 95% líquido, qual fundos da prateleira de vocês com baixo risco que deu isso? haha

    Não oferecer isso para seus clientes é pensa muito pequeno, uma pena.