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29 de setembro de 2016 Ultima atualização: 17 de agosto de 2018

Procuram-se informações sobre LCI e LCA

29 de setembro de 2016

Já explicamos aqui no blog os 8 motivos pelos quais decidimos não incluir as Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e do Agronegócio (LCA) de bancos de segunda linha nas carteiras diversificadas dos nossos clientes.

O primeiro motivo é que não conseguimos saber ao certo o que está por trás desses papéisA embalagem é muito atrativa, com rentabilidade alta, isenção de Imposto de Renda e garantia do FGC. Mas o que há dentro dela?

Telefonei para diversos bancos, emissores e custodiantes de LCI/LCA fazendo uma pergunta muito simples: o que tem dentro desses papéis de crédito? As respostas são assustadoras.

Tenho estudado e acompanhado a oferta de LCI e LCA há algum tempo. Vou compartilhar um resumo do que apurei até o momento para você refletir comigo.

A embalagem é bonita, mas o que tem dentro?

Veja este exemplo de uma “prateleira” de LCIs e LCAs disponíveis para aplicação no site de uma grande corretora.

prateleira-lci-lca

Prateleira de produtos disponíveis no site de uma grande corretora

As ofertas dos títulos incluem o nome do banco emissor e suas avaliações de risco de crédito (rating), ao clicar no pequeno ícone azul com uma interrogação.

A prateleira traz ainda a rentabilidade prometida pelo título, a liquidez (prazo até o vencimento) e os valores mínimos para aplicação. Tem até um carrinho para colocar o produto.

Mas tudo isso é embalagem. São os atributos de venda dos produtos. Reparou que não há nenhuma informação dos produtos em si? Não tem nada que diz do que são compostos esses ativos. Quais são os ingredientes desses produtos?

Onde ficam esses imóveis?

Quais são os agronegócios?

Você empresta seu dinheiro para o banco e o banco empresta para quem?

Qual a capacidade de pagamento dessas pessoas? Ou seriam empresas?

Em que estão lastreadas essas LCIs e LCAs? Quanto valem esses imóveis?

Sem informações, é impossível avaliar o risco

Sem conhecer os agentes envolvidos nas operações de crédito, não é possível avaliar a saúde financeira desses empréstimos que são feitos com os recursos aplicados por investidores. Tudo que sabemos é que os recursos devem ser direcionados para o ramo imobiliário ou do agronegócio.

Simplesmente não há informação suficiente. Esses produtos podem ser muito bons ou muito ruins. O fato é: as pessoas estão investindo no escuro.

A grande questão que não conseguimos responder para corretamente avaliar LCIs e LCAs é:

Do que são compostos esses ativos?

Parece errado investir em algo que você não consegue saber o que é. Você pode não querer saber. Mas caso queira, não parece errado você descobrir que não tem acesso a qualquer tipo de informação? Não conseguir avaliar o risco? Isso é estranho.

A saga por informações

Minhas incursões em busca de informações nos balanços dos bancos emissores de LCI e LCA fracassaram. Então decidi entrar em contato com essas instituições.

Ao longo de duas semanas, telefonei para diversos bancos, e até para a Cetip, que faz a custódia dos papéis. Ninguém soube me passar esta informação: quais são os créditos que lastreiam a LCI ou a LCA que estava sendo ofertada no site da corretora?

Muitas pessoas que me atenderam simplesmente não entendiam minha pergunta, como se fosse algo anormal tentar descobrir onde seu dinheiro será investido.

Então eu tentava ser mais específico nas perguntas: “Quais são os tipos de imóveis para onde o banco empresta os recursos da LCI? Onde eles ficam localizados?”.

Parecia que eu falava grego.

meme-telefone

Foram longos minutos na espera enquanto eu era transferido de uma pessoa a outra. É… Não adiantou muito.

Alguns exemplos de ligações que fiz:

24/08/2016, 15h40: Banco Pine
(11) 3372-5200

Falei com uma pessoa da área comercial que disse que fui a primeira pessoa a ligar para lá com essa pergunta, mas que eu teria que buscar essa informação na Cetip.

25/08/2016, 9h06: Cetip
(11) 3111-1477

Falei com um atendente que me deu outro telefone para entrar em contato com a área chamada Operacional Valores Mobiliários: (11) 3111-1596. Telefonei para essa área, mas disseram que todos estavam ocupados e ninguém poderia me atender no momento

25/08/2016, 9h40: Banco Original
4004-0800

Essa foi rápida. O atendente disse que o banco não oferece LCI. Oi?! Você pode ver a oferta de LCI do Original na prateleira de produtos da corretora, no início deste artigo.

25/08/2016, 9h45: Banco ABC Brasil
(11) 3170-2000

A pessoa que me atendeu disse que me enviaria por e-mail um material informativo sobre a LCA do banco. Nunca recebi.

25/08/2016, 9h55: Cetip
(11) 3111-1477

Voltei a tentar contato com a Cetip. O primeiro atendente me transferiu para o “departamento operacional”. Depois uma pessoa de lá me informou que não poderia fornecer as informações que eu pedia, mas não consegui entender o motivo. Ela falou algo sobre não poder oferecer endereços individuais dos tomadores de crédito, o que faz sentido. Mas eu não queria tudo isso, apenas os tipos de imóveis e regiões onde estavam localizados (no caso das LCIs). Nesse momento me dei conta que ninguém que investe nesses ativos conseguiria ter noção do que tem dentro deles.

Por que procurar essas informações

Os bancos de segunda linha que emitem as LCIs e LCAs aparentemente tão atrativas têm uma saúde financeira pior que a dos grandes bancos. Por isso, os empréstimos imobiliários concedidos por eles são chamados de créditos subprime.

Você já ouviu esta palavra antes: subprime. Lembra da crise de 2008 nos Estados Unidos?

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Cartaz do filme “A Grande Aposta” (2015)

O fato de que ninguém avaliava as informações sobre créditos subprime culminou com a crise dos EUA. Essa história é contada no filme “A Grande Aposta”. Se você ainda não assistiu ao filme, por favor, assista. Está disponível no Netflix.

Comecei a pensar sobre a falta de informações das letras de crédito após ver o filme. O personagem que antecipou a crise de 2008 diz que não fez nada de mais, simplesmente observou os imóveis que estavam sendo comprados com as linhas de crédito oferecidas.

É claro, a situação não é igual, há muitas diferenças. Mas também há semelhanças que não podem ser ignoradas. Não acredito que o Brasil passará pela versão tropical da crise de 2008, mas não podemos simplesmente deixar pra lá a falta de transparência nas informações sobre esses ativos. Você não pode ignorar esse fato se quiser investir R$ 250 mil neles. Em muitos casos, o valor alocado pelos “assessores” em LCI e LCA tem chegado a mais de 60% do patrimônio financeiro do cliente. É um absurdo.

Em um dos bancos que contatei, conversei com uma consultora de investimento. Fiz meus questionamentos e ela me respondeu assim: “Mas, senhor, para que você quer saber quais são os imóveis? O risco da nossa LCI é o risco da saúde financeira do banco.” Eu pensei: “Sim! Exatamente!”. Eu não quero correr o risco da saúde financeira desses bancos pequenos, principalmente agora, num cenário econômico complicado.

Analisando o relatório de resultados de um dos bancos que mencionei acima, descobri que a inadimplência da carteira de crédito subiu de 2,9% em 2015 para 4,7% em 2016. Mas isso não constava na embalagem do produto.

Aliás, o Banco Central já mantém 9 bancos sob “acompanhamento especial” em função de questões como liquidez e estabilidade.

Muitas pessoas acham que um banco quebrar é algo raro, mas a verdade é que volta e meia quebra um banco pequeno. De acordo com a lista oficial no site do FGC, nos últimos 21 anos foram 33 bancos quebrados no Brasil pedindo falência. Mais de 1,5 banco por ano!

E eu não confio 100% na garantia do FGC, principalmente no cenário atual, por motivos que já discutimos antes.

Estou falando apenas de bancos pequenos

Sim, claro, porque as LCI e LCA dos bancos grandes pagam rentabilidades baixas. Essas todo mundo sabe que não valem a pena. As que parecem atraentes são sempre as LCI e LCA emitidas por bancos pequenos, que precisam prometer rentabilidade mais alta para atrair investidores — afinal, a maioria das pessoas não colocaria seu patrimônio nesses bancos sem um bom chamariz.

O agravante do incentivo

Por oferecer rentabilidade maior dentre as opções de renda fixa, as LCIs e LCAs são campeãs de vendas nas corretoras. Aquelas com as maiores taxas de rentabilidade são ofertadas por bancos dos quais você provavelmente nunca ouviu falar. São bancos pequenos, com menos estabilidade.

E você sabia que a distribuição de LCI e LCA rende gordas comissões?

Na época em que a Vérios trabalhava com a plataforma de fundos de investimento e renda fixa, chegaram a nos oferecer comissões de cerca de 2% a 3% do valor total da aplicação — com pagamento da comissão à vista — para vender esses títulos aos nossos clientes. Se esse é o percentual repassado ao vendedor, imagine quanto ainda sobra para o empacotador, aquele que cria os belos embrulhos de créditos suprime na forma de LCI ou LCA?

Nós lutamos para fazer caber todos os custos dos nossos clientes dentro de 0,95% ao ano sobre o valor investido na carteira inteligente. Depois de pagar a corretora, Bovespa e todo o resto da estrutura, sobra algo entre 0,20 e 0,55% ao ano para a Vérios. Comissões de 2% a 3% à vista sobre o valor investido parecem muito erradas. Ainda mais para um tipo de aplicação que alega “não ter taxas”.

***

Eu poderia continuar essa discussão ainda sob muitos aspectos, mas vou parar por aqui.

Continuarei buscando informações. E vou te pedir uma coisa: se você investe nesses ativos, entre em contato com o banco emissor. Tente descobrir o tipo de crédito que está por trás da sua LCI ou LCA e conte aqui nos comentários a resposta que você conseguir.

Talvez você encontre informações positivas, que mostrem um crédito saudável. Mas hoje não temos qualquer parâmetro para estimar o risco dessas aplicações.

Aliás, deixo um convite aos próprios bancos emissores: apresentem informações mais transparentes sobre LCI e LCA. Ficarei satisfeito de divulgar suas respostas aqui, se eu receber alguma.

Crédito das imagens do filme “A Grande Aposta”: Divulgação/IMDB

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29 de setembro de 2016
Ultima atualização: 17 de agosto de 2018

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Autores

Um dos cofundadores da Vérios, Resende é gestor de recursos credenciado pela CVM e especialista em Data Science

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