Quanto valem o passado e o futuro ao longo da vida?

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Investimentos, números e gráficos são apenas uma pequena parte da avaliação de finanças pessoais. Por isso, estamos sempre procurando entender melhor os processos que levam as pessoas a tomar suas decisões. Gostaríamos de compartilhar com vocês alguns dos trechos interessantes que surgem durante esse estudo.

O ciclo da vida, em muitos aspectos, descreve uma arco de desenvolvimento, auge e declínio. Em cada uma dessas etapas, diversas características biológicas, psicológicas, sociológicas, antropológicas e outras tantas “-lógicas” influenciam as suas decisões.

Eduardo Giannetti1 reflete de maneira brilhante sobre alguns aspectos que parecem óbvios depois da leitura, sobre os quais raramente paramos para pensar.

Infância

O recém-nascido, apesar de ter toda a vida pela frente, não compreende as escolhas de que dispõe. O bebê age então pelo instinto imediato. Ele chora pelo que quer agora, normalmente necessidades fisiológicas. A criancinha não chora por que quer um ensino superior de qualidade, um emprego com horas flexíveis ou uma aposentadoria confortável.

Ironicamente, esse comportamento volta a vigorar quando o homem está bem próximo do final da vida. O moribundo em seu leito de morte abandona qualquer perspectiva futura e passa a viver apenas mais um dia de cada vez. Em ambos os casos, o passado e o futuro não importam, apenas o presente é relevante.

O recém-nascido não chora por querer um ensino superior de qualidade

A criança, porém, em algum momento começa a compreender o conceito de futuro. Com isso, ela começa a desenvolver um sistema de tomada de decisões intertemporais (sobre as quais escrevi mês passado, no artigo Raízes biológicas dos juros).

Existe um experimento clássico, já repetido diversas vezes com algumas variações, para tentar identificar a etapa da vida em que a capacidade de avaliação das trocas intertemporais se desenvolve.

Nesse estudo, uma criança é deixada na sala com um doce. Um adulto explica que ela pode comer o doce a qualquer momento, se quiser. Mas, se ela puder esperar 20 minutos, o adulto retornará e lhe dará mais um doce e ela poderá comer os dois.

A criança é confrontada com um dilema claro: comer um doce agora ou dois doces daqui a 20 minutos. O resultado depende de dois fatores: o apelo da recompensa futura e a capacidade de esperar, que decorre da força de vontade da criança.

Os estudos mostram que essa força de vontade depende muito da idade. Em geral, crianças de até quatro anos não entendem a recompensa ou não conseguem resistir ao impulso de comer o doce. Em algum ponto entre 4 e 12 anos, as crianças desenvolvem a capacidade de avaliar a troca intertemporal proposta e a paciência para conquistar a maior recompensa. É possível ver uma versão desse experimento em vídeo.

Algumas versões mais antigas deste teste foram feitas há várias décadas e o mais interessante é que alguns continuaram acompanhando o desenvolvimento das crianças até a idade adulta. Com isso, perceberam que as histórias de sucesso acadêmico e profissional eram mais frequentes entre as pessoas cuja habilidade de avaliar trocas intertemporais se desenvolveu mais cedo. Também apresentaram menores índices de tabagismo e de uso de drogas e menores índices de delinquência e conflitos familiares graves.

Os resultados são compreensíveis. Um dos primeiros trade-offs que a criança encontra em sua vida é na alocação de tempo entre brincadeiras e estudos. A criança com mais capacidade de avaliar o benefício distante e incerto dos estudos tem maior propensão a dedicar-se a eles. Também o jovem que consegue perceber os malefícios de longo prazo do cigarro tem mais convicção para resistir à pressão dos colegas.

Puberdade

Na puberdade a relação entre o presente e o futuro muda drasticamente. A compreensão do horizonte temporal se dilata, mas o jovem ainda é fortemente influenciado por seus impulsos imediatos. Isso porque o valor que atribuímos ao futuro depende daquilo que podemos esperar dele. Nas palavras de Schopenhauer2:

Encarada do ponto de vista da juventude, a vida é um futuro indefinidamente longo, ao passo que na velhice ela parece um passado deveras curto. (…) Um homem precisa ter envelhecido e vivido bastante para perceber quão curta é a vida.

O jovem entende que seus atos influenciam o futuro e que as trocas intertemporais são poderosas, mas a vida ainda lhe parece um vasto campo de oportunidades. Ele ainda não experimentou nenhum revés significativo e tende a superestimar a sua capacidade, desprezando os riscos inerentes à vida. Há grande expectativa de sucesso e isso gera uma alta propensão a descontar o futuro para maximizar o aproveitamento do presente.

O jovem enxerga a vida como um vasto campo de oportunidades, e cria a confiança de que o futuro será próspero

Nesse desconto, o crédito é o instrumento da antecipação, e os juros são o preço a ser pago. O jovem quer antecipar para hoje um pouco da riqueza de seu futuro próspero.

O problema não está em antecipar o futuro, tampouco nos custos envolvidos. O problema está nas premissas do futuro próspero e brilhante, que o jovem muitas vezes dá como certo. A combinação de impulsividade com uma previsão otimista podem trazer um preço caro demais.

Maturidade

A maturidade ocupa uma posição equidistante entre a juventude e a velhice. Com ela três efeitos são percebidos: (i) uma perspectiva menos assimétrica entre passado e futuro; (ii) uma antevisão menos sonhadora e mais realista do futuro; e (iii) uma maior capacidade de articular a interrelação entre os momentos da vida, em vez de encará-los como etapas isoladas.

Há uma gradual redução da impulsividade e da impaciência, e maior preocupação com o futuro, relativizando as demandas do presente. O adulto já sofreu e compreende os revéses que a vida nos impõe e sabe que as suas expectativas nem sempre se concretizam.

O homem maduro se dá conta de que a velhice é inexorável e, se possui dependentes, passa a dar a devida importância ao amanhã. A maturidade reduz o impulso de descontar o futuro e cria a propensão a tentar inverter essa equação e poupar.

Velhice

A chegada da velhice não ocorre como um fato tão marcante quanto a explosão hormonal da juventude, porém os sinais da idade começam a se manifestar. O passado parece estar mais distante e o futuro opressivamente estreito. Sabe-se que a jornada está mais perto do fim que de seu começo.

A percepção de escassez relativa do tempo tende a elevar o valor que se atribui a ele e estimular o uso mais atento e econômico dos recursos.

A antevisão do futuro também se altera. O acúmulo da experiência, e inevitavelmente de dissabores que não eram imaginados no otimismo da juventude, reforçam um pessimismo e a apreensão com o amanhã.

A natureza, sem pedir autorização, descontou o futuro da vida e nos cobra os juros, deixando sobrar um corpo com menos vigor e força. A capacidade de gerar renda já não é a mesma na velhice e, pior, pode em breve cessar por completo.

Na velhice, a natureza nos cobra o preço do vigor, força e fertilidade de que usufruímos na vida jovem

Por outro lado, duas preocupações deixam de pesar, os filhos já partiram em voo solo (e podem inclusive prestar auxílio, se necessário) e já não há necessidade de acumular patrimônio para o futuro.

A velhice nos apresenta um campo de forças complexas e conflitantes. Por um lado não é mais necessário poupar para o amanhã, sendo possível então desfrutar o presente; porém não se sabe quanto tempo ainda temos e quais serão os custos necessários para nossa sobrevivência. Não haverá tempo ou vigor para refazer o patrimônio, por isso a prudência ganha espaço.

Como as etapas se comunicam

Para os que sobrevivem, a passagem por essas etapas é inevitável. Muito disso não pode ser alterado, mas nós temos a faculdade de realizar escolhas intertemporais que nos permitem submeter em parte as etapas da vida aos nossos critérios.

O desejo incita à ação, mas o animal humano adquiriu a capacidade de fazer planos e refrear impulsos. Nossas escolhas podem transmitir recursos de uma fase da vida para outra, agravando ou amenizando os prazeres e os dissabores do ciclo natural.

O desejo incita à ação, mas o animal humano adquiriu a capacidade de fazer planos e refrear impulsos

Antecipar custa, retardar rende. Qualquer decisão envolve ganhos e perdas em tempos distintos. O resultado não está estabelecido de antemão. Ele depende dos termos de cada troca. O benefício ou prejuízo não decorre do sentido escolhido, mas do valor relativo e conteúdo específico de cada troca.

A arte de planejar e o talento para realizar boas escolhas intertemporais residem na capacidade de identificar oportunidades nas quais é possível colocar o tempo trabalhando a nosso favor.

Assim como no texto anterior, esse artigo é o resumo de mais um capítulo do livro “O Valor do Amanhã” do filósofo e economista brasileiro Eduardo Giannetti, PhD em Economia pela Universidade de Cambridge.
Schopenhauer, Arthur. Parerga and paralipomena, vol.1, p. 483. Cit. in Giannetti, Eduardo. O valor do amanhã: ensaio sobre a natureza dos juros. São Paulo, Companhia das Letras, 2005.

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