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12 de setembro de 2013 Ultima atualização: 17 de agosto de 2018

Quem decide a cotação do dólar?

12 de setembro de 2013

Para o cidadão comum, que acompanha de longe as flutuações da moeda enquanto tenta planejar uma viagem, a taxa de câmbio entre o dólar e o real pode parecer definida por algum ente superior indeciso. Governo, grandes investidores, especuladores ou empresas aparentemente estariam provocando essas mudanças. A verdade, porém, é que essa taxa é diretamente influenciada por suas próprias ações cotidianas.

Para simplificar, pode-se dizer que a cotação do dólar perante o real é influenciada por dois grandes fluxos: o fluxo de bens e o fluxo de capitais.

O fluxo de bens é composto pelas exportações e importações. O saldo (exportações menos importações) é chamado de exportações líquidas.

A taxa de câmbio é diretamente influenciada por nossas ações cotidianas

De maneira semelhante, o fluxo de capitais envolve a remessa de recursos financeiros ao exterior por residentes e o ingresso de recursos financeiros de estrangeiros no país. O saldo (investimento externo de residentes menos recursos recebidos de estrangeiros) é chamado de investimento externo líquido.

Essas são as duas formas econômicas de interação entre duas economias: no mercado de bens e serviços e no mercado financeiro. Um fato da contabilidade, sutil porém importante, é que o investimento externo líquido de um país é sempre igual às suas exportações líquidas.

Essa equação é válida porque cada transação internacional é uma troca. Tudo que afeta um lado da balança, afeta também o outro. O fluxo internacional de bens e serviços e o fluxo internacional de capital são dois lados da mesma moeda.

Velocidades diferentes

Os diversos fatores que afetam a cotação, explicados ao longo deste artigo, possuem velocidades de atuação diferente. Aqueles mais estáveis geram os grandes ciclos de alta e baixa, enquanto os movimentos de capital financeiro especulativo geram oscilações de curto prazo. Os ciclos longos acabam sendo um pouco mais previsíveis e baseados em fatores econômicos reais, enquanto os ciclos curtos são altamente imprevisíveis e reagem rapidamente (e, por vezes, exageradamente) a notícias e acontecimentos recentes. Esses movimentos curtos se devem menos a mudanças de mercado e mais à expectativas do mercado com relação a mudanças futuras. A seguir, vamos passar pelos principais fatores que influenciam a cotação do dólar.

Exportação e importação

Pode parecer que você não participa desse fluxo, mas essa impressão está errada. Você já deve ter importado diretamente um produto. Comprando pela internet ou pedindo para um amigo trazer um eletrônico do exterior, você importa ativamente um produto estrangeiro. Mas, além dessas compras eventuais, suas escolhas diárias promovem outras importações sem que você perceba.

Ao comprar um celular, adquirimos um aparelho fabricado no exterior. O mesmo acontece quando assistimos um filme de Hollywood ou compramos um aplicativo para smartphone. O nosso gasto acabará sendo em parte enviado para outros países.

Quando você compra um computador fabricado no Brasil, promove importações um pouco menos perceptíveis, pois adquire o processador, o disco rígido, a memória e os softwares, todos produzidos no exterior.

E existem exemplos ainda menos óbvios. Ao realizar uma busca no Google ou navegar no Facebook, você promove a importação de serviços de publicidade, prestados pelo Google ou Facebook a anunciantes brasileiros cujo público-alvo é… você.

Ao realizar uma busca no Google ou navegar no Facebook, você promove a importação de serviços de publicidade

O turismo também é um exemplo que não pode ser esquecido. Quando um brasileiro faz compras em Miami, importamos. Quando um estrangeiro vem ao Brasil e consome, exportamos.

simulação do investimento

Todo dinheiro que sai do Brasil, para que seja utilizado no exterior, precisa ser convertido para a moeda de destino, majoritariamente, o dólar americano. A demanda por mais dólares valoriza essa moeda estrangeira, depreciando o real.

Investimento externo

Além das exportações líquidas, o fluxo de capitais também influencia diretamente a taxa de câmbio. Todo dinheiro que entra no Brasil precisa ser convertido em Reais. A demanda por mais Reais valoriza a nossa moeda.

Os fluxos de capitais estrangeiros mais comuns são aqueles destinados ao investimento financeiro (em títulos públicos, privados ou ações na bolsa, por exemplo) e empréstimos. Esse fluxo é atraído pelas altas taxas de juros. Outra forma é o chamado investimento estrangeiro direto, quando o investidor adquire participação relevante em empresas no Brasil.

A contrapartida do investimento estrangeiro no Brasil é a remessa de juros e dividendos para o exterior ou o pagamento de royalties.

Por outro lado, brasileiros também investem recursos no exterior. Essa medida foi muito utilizada por empresários, altos executivos e profissionais liberais nos anos de inflação alta e insegurança bancária, para proteger seu patrimônio.

Governo

Vimos que as decisões individuais dos brasileiros desempenham um papel importante na determinação da taxa de câmbio entre dólar e real. Mas é inegável a importância das medidas tomadas pelo Governo.

Ao contrário do que muitos pensam, o Governo não tem o poder de determinar a taxa de câmbio

Ao contrário do que muitos pensam, o Governo não tem o poder de determinar a taxa de câmbio. Ele é apenas mais um ator – um grande ator – na formação de preço do dólar. Como tem a possibilidade de comprar e vender bilhões de dólares, o Governo consegue afetar propositalmente a balança entre oferta e demanda.

Normalmente, o Governo aumenta suas reservas de moeda estrangeira comprando dólares em épocas de valorização do real (é o que fez nos últimos anos) e pode gastar essas reservas para conter a desvalorização do real.

Além disso, o Governo pode intervir indiretamente na cotação do dólar através da determinação da taxa de juros. Em momentos de forte saída de capital do Brasil, o Governo tenta defender o valor do real por meio do aumento da taxa de juros. Taxas de juros mais elevadas atraem o capital de investidores estrangeiros para o Brasil. Contudo, o capital financeiro é muito “nervoso” e consegue se mover com mais facilidade – é conhecido como capital especulativo.

O governo pode atuar ainda de outras formas, criando e aumentando impostos de importação, impostos sobre operações financeiras ou mesmo barreiras não tributárias (como limites de importações, barreiras sanitárias e reserva de mercado para produtos nacionais).

Gráfico da evolução da cotação do dólar americano entre 1994 e 2012, em reais
Cotação do dólar americano entre 1994 e 2012, em reais

Comportamento cíclico: feedback negativo

Sabendo de tudo isso, parece estranho que tantas pessoas diferentes, com vontades diferentes, atuem de maneira quase coordenada, gerando os ciclos de alta e de baixa do dólar. Esse comportamento, porém, pode ser explicado.

Dependendo da taxa de câmbio, alguns comportamentos são incentivados. Por exemplo, quando o real está desvalorizado, os produtos brasileiros ficam mais baratos em relação aos estrangeiros, e nossas exportações aumentam. Quando o real está valorizado, mais turistas brasileiros viajam para o exterior, pois as viagens ficam mais baratas.

Todos esses comportamentos influenciam na cotação do dólar. Quando o turista brasileiro compra e gasta dólares, ele aumenta a demanda pela moeda estrangeira, impulsionando um pouquinho o preço do dólar, desestimulando a viagem do próximo turista.

Da mesma forma, quando uma empresa estrangeira compra produtos brasileiros e paga em dólares, a conversão desses dólares para Reais aumenta um pouco a oferta de dólares no Brasil, empurrando um pouquinho a cotação do dólar para baixo, desestimulando a próxima exportação.

Quanto mais importamos, mais o dólar se valoriza, e menos interessante fica a importação. A soma desses movimentos promove os ciclos de alta e baixa. Nossas ações influenciam mudanças que, por sua vez, influenciam nossas ações no sentido contrário. Esse fenômeno é o que os economistas batizaram com uma expressão trazida da Biologia: feedback negativo.

Mas o tempo de reação de cada participante nessa dinâmica é diferente. Turistas podem marcar e desmarcar viagens com grande facilidade. Executivos a trabalho não contam com a mesma flexibilidade.

Um investimento especulativo pode sair rapidamente do nosso País, como aconteceu em 2008. Por outro lado, uma montadora de automóveis não tem a mesma facilidade para desinvestir o capital que usou para construir uma fábrica no Brasil. Muitas vezes, é melhor continuar operando, mesmo com perdas cambiais, do que encerrar as atividades.

Isso faz com que esses ciclos possam ser de curta, média ou longa duração. Devido à complexidade da interação entre esses participantes, é impossível determinar antecipadamente se os ciclos de alta ou baixa estão se encerrando ou apenas começando.

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12 de setembro de 2013
Ultima atualização: 17 de agosto de 2018

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Autores

Um dos cofundadores da Vérios, Resende é gestor de recursos credenciado pela CVM e especialista em Data Science

CEO da Vérios, a fintech que te ajuda a fazer investimentos inteligentes, de forma fácil, rentável e segura. Pode confiar. Felipe conta com mais de 10 anos de atuação no mercado financeiro, e em 2011 cofundou o site Comparação de Fundos, primeiro a dar transparência a mais de 15 mil fundos de investimento. É advogado pela USP e pós-graduado em Finanças Corporativas e Investment Banking pela FIA.

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