Raízes biológicas dos juros

raizes-biologicas

De acordo com o filósofo e economista brasileiro Eduardo Giannetti, juros financeiros são apenas uma espécie contida em um gênero mais amplo. Nessa categoria ampla estão todas as interações, econômicas ou não, em que ônus e bônus ocorrem em momentos distintos do tempo. São as denominadas “trocas intertemporais”. Elas acontecem o tempo todo: na natureza, na sua cintura e, claro, nas operações de empréstimo e de investimento.

As trocas intertemporais possuem sempre uma posição credora – pagar agora, usufruir depois – que é aquela em que abrimos mão de algo no presente em troca de um benefício esperado no futuro. Um excelente exemplo de investimento intertemporal é a educação. As pessoas utilizam anos da vida apenas para se preparar para ter um futuro confortável.

No sentido oposto temos a posição devedora – usufruir agora, pagar depois. É a situação em que valores ou benefícios usufruídos acarretam algum tipo de ônus ou custo a ser pago mais à frente. Isso acontece quando ingerimos comidas gordurosas pelo prazer do paladar, mesmo sabendo que podem nos causar obesidade e outros problemas de saúde.

Nesse contexto, os juros financeiros são o prêmio pela espera na ponta credora – os ganhos decorrentes da transferência ou cessão temporária de valores do presente para o futuro. E são o preço da impaciência na ponta devedora – o custo de antecipar valores do futuro para o presente.

Mas o conceito não é apenas financeiro. Ele é resultado de uma evolução biológica impressionante.

As bactérias não morrem

Ao contrário do senso comum, a vida nem sempre implica em morte. Durante os primórdios do mundo, toda a biomassa existente era formada por seres simples como bactérias, que não morrem.

A bactéria se reproduz por meio de fissão e, ao se dividir, não deixa restos mortais. Após a bipartição, ambas bactérias resultantes são iguais, nenhuma é mais nova e nenhuma é a original. Nenhuma delas é uma bactéria velha. As bactérias não seguem o nosso conceito de idade, pois elas não envelhecem. O vigor físico e a capacidade de reprodução são mantidos intactos, desde os primórdios até hoje.

É claro que as bactérias podem morrer por questões externas como falta de alimento, predadores, temperaturas extremas e agentes como antibióticos, álcool e fogo. Mas elas não morrem por causas naturais.

O envelhecimento é uma troca intertemporal

Com os seres de reprodução sexuada, a história é diferente. A geração de uma nova criatura não descontinua seus progenitores, mas a idade do feto é independente da idade do casal que o produziu. Não importa a idade dos pais, o bebê será sempre um indivíduo novo, que precisará sobreviver até atingir a maturidade reprodutiva.

Para garantir sua alimentação, conquistar um parceiro e proteger a prole, os animais precisam de seu máximo vigor físico quando são jovens adultos. Usam intensamente sua energia biológica para ter sucesso no início de cada vida, ainda que isso implique em custos nocivos para o futuro. O resultado desse esforço é a deterioração do organismo.

A seleção darwiniana possibilitou a viabilidade dos indivíduos que envelhecem, já que eles são capazes de ter mais vigor para sobreviver e se reproduzir durante a juventude. Dessa forma, em algum ponto na história natural da vida, a perpetuação da espécie passou a implicar a perecibilidade do indivíduo.

Essa lógica faz sentido no estado natural, onde as criaturas vivem em constante risco de morte precipitada – predadores, doenças, fome, desastres naturais. Nesse ambiente, guardar recursos biológicos para o futuro em detrimento do presente não faz muito sentido.

O ambiente mudou muito, mas herdamos essas características. Por isso, envelhecemos.

Árvores poupam e investem recursos

No reino vegetal, temos outra experiência interessante. Em regiões onde as estações do ano são bem definidas, as árvores se adaptaram para saber a melhor hora de poupar e investir recursos biológicos, buscando otimizar a equação entre gasto e obtenção de energia.

As árvores aplicam os conceitos de trocas intertemporais com maestria

Com a chegada do inverno, mesmo que seja possível fazer suas folhas resistir ao frio, esse esforço não seria recompensado, pois a incidência de luz é reduzida, diminuindo a produtividade e a utilidade das folhas.

Assim, algumas árvores reabsorvem o quanto podem dos nutrientes das folhas, permitindo então que as folhas sequem e caiam. Com a chegada da primavera, a planta tem que “decidir” quando é o melhor momento de florescer novamente.

Se novas folhas brotarem mais cedo, a árvore poderá maximizar a produção de energia fotossintética. Porém, se esse processo for iniciado cedo demais, maior é a chance de pegar uma geada de última hora e perder boa parte da energia que estava armazenada e foi investida naquelas novas folhas.

Nesse processo cíclico, as árvores abrem mão de maximizar seu crescimento durante os meses quentes e úmidos, para armazenar a energia que será necessária para sobreviver durante o frio e produzir novas folhas após um longo período sem fotossíntese. Realizam uma sofisticada troca intertemporal.

Entender e planejar as suas trocas intertemporais

Esse tipo de trade-off é uma constante também em nossas vidas humanas.

A forma como você usa os juros pode ajudar ou atrapalhar seus planos para o futuro

Dedicamos anos de nossa juventude nos preparando e outros tantos nos esforçando para produzir os recursos financeiros de que precisaremos para ter uma vida digna e confortável até o fim de nossos dias.

Na posição credora, trabalhamos e guardamos recursos para usufruir deles no futuro. Ao investir, estamos transferindo recursos do presente para o futuro e pela paciência, recebemos juros como recompensa.

Em algum momento da vida, a chave entre construir e consumir a poupança deverá ser virada. As árvores não estudam matemática financeira e nosso corpo sequer entende a Teoria Moderna do Portfólio, mas aplicam os conceitos de trocas intertemporais com maestria.

O investimento em galhos e folhas para a produção de energia possui todos os elementos de investimentos financeiros. A operação envolve riscos (geada ou tormenta extemporânea), perda de liquidez (os recursos ficam temporariamente indisponíveis) e custos de transação (operação de desfolha de acordo com as estações). Mas as árvores que conseguem dominar esse processo chegam à primavera com recursos energéticos abundantes para finalmente produzir frutos e atrair polinizadores, espalhando sua prole. Vitória evolutiva dos que souberam poupar e investir na hora certa.

O presente artigo é um resumo do livro extremamente interessante do filósofo e economista Eduardo Giannetti, PhD em Economia pela Universidade de Cambridge: “O Valor do Amanhã”. Tratei apenas de um capítulo, mas espero que tenha sido suficiente para despertar o interesse de ler o livro inteiro.

Categorias: Aposentadoria, Economia, Planejamento pessoal, Plano de investimento