Raso ou profundo? Entenda este novo conceito em gestão de risco

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Quem investe sabe que perdas fazem parte do risco. Alguns prejuízos são recuperáveis, outros não. Saiba diferenciar riscos rasos e profundos e conheça a nova forma de compreender o conceito, proposta pelo especialista William J. Bernstein.

Risco é um dos conceitos mais discutidos em Finanças. Ao longo do tempo, surgiram diversas classificações de riscos e inúmeras metodologias de cálculos para cada uma delas. Em seu livro Deep Risk: How History Informs Portfolio Design, o especialista norte-americano William J. Bernstein propõe uma nova categorização, estabelecendo dois tipos de risco: raso e profundo, este último podendo trazer perdas permanentes para o investidor.

Quando as perdas do investidor são recuperáveis?

Na concepção de Bernstein, o risco raso é aquele de natureza temporária, que acarreta ao investidor perdas consideradas recuperáveis. O principal exemplo é o risco das oscilações de mercado nos preços das ações ou dos títulos de renda fixa. Apesar das perdas de curto prazo – que podem ser bem expressivas em momentos de crise -, a tendência é que, no longo prazo, o investidor consiga recuperar o valor investido.

O principal exemplo de risco raso é o risco das oscilações de mercado nos preços das ações ou dos títulos de renda fixa

Apesar de as perdas serem recuperáveis, a possibilidade de prejuízos no curto e médio prazo continua sendo um risco relevante, já que traz desconforto ao investidor. Por isso, também é necessário entender e definir quanto risco raso você é capaz de assumir. A solução para lidar com esse tipo de risco passa pela diversificação da carteira de investimentos.

O investidor, porém, deve tomar cuidado para não transformar perdas recuperáveis em permanentes. Bernstein alerta para a necessidade de disciplina e planejamento e recomenda não vender ações justamente no pior momento de fazê-lo, em mercados de baixa. Diversificar investimentos também é importante para não expor a carteira ao risco de poucas empresas, que podem se tornar inadimplentes ou entrar em falência, o que resultaria em perdas permanentes para o investidor.

Riscos que podem tornar o prejuízo irrecuperável

De natureza diferente, o risco profundo pode trazer perdas irrecuperáveis para o investidor. Bernstein lista quatro tipos desses riscos. O primeiro deles é a inflação: o aumento generalizado nos preços acarreta prejuízo na medida em que o rendimento de suas aplicações não seja o suficiente para superar a taxa de inflação. E esse risco não se restringe a cenários de hiperinflação, como vivemos em um passado ainda recente no Brasil, nas décadas de 1980 e 1990. O risco existe mesmo quando há inflação levemente alta – como temos hoje no Brasil – aliada à escolha inadequada de aplicações financeiras que geram rentabilidade abaixo do índice.

Um risco profundo relacionado, mas na direção oposta, é a deflação, ou seja, a redução generalizada de preços. Para um país com um histórico inflacionário, a ideia de preços em queda pode não soar tão ruim. No entanto, a deflação – que geralmente está associada a períodos de recessão – tende a causar efeitos adversos na economia, podendo afetar negativamente consumo e investimento.

O terceiro risco profundo é o confisco, que ocorre quando governos retêm, temporária ou permanentemente, as propriedades dos cidadãos. Exemplos de confisco temporário são o corralito argentino do começo do século e o que ocorreu no Brasil durante o Plano Collor, na década de 1990. Mesmo que temporário, o confisco pode trazer perdas irrecuperáveis, dependendo da remuneração desses recursos, se houver alguma. Ainda mais graves são os casos de confiscos diretos, como aconteceu em países que adotaram regimes totalitários.

Outra forma de confisco é a tributação excessiva. Nesse sentido, o economista francês Thomas Piketty, em seu polêmico livro O Capital no Século XXI, propõe tributar em 80% a renda dos mais ricos, como forma de minimizar a desigualdade.

Inflação, deflação, confisco e devastação são os quatro riscos profundos apresentados por Bernstein – cada país é afetado de maneira diferente por esses riscos

O último risco profundo elencado por Bernstein é a devastação, ou seja, a possibilidade de desastres naturais ou conflitos ocasionarem grandes perdas materiais ao país, sem contar as perdas humanas. A devastação causa perdas irrecuperáveis. E a reconstrução desviará recursos de outras utilidades possíveis para o mero esforço de fazer tudo voltar ao mesmo estágio de antes.

Os quatro riscos profundos analisados por Bernstein afetam cada região ou país de maneira diferente: enquanto alguns, como o Brasil, se preocupam com a inflação, nações europeias atentam para a deflação. O confisco é o pesadelo de países politicamente instáveis, como Venezuela e Bolívia, enquanto disputas e guerras aumentam o risco de devastação em nações como Coreia do Sul e Israel.

Lidando com os riscos

Contra cada risco profundo, existem formas de proteção específica. Entretanto, não raro o investimento que protege contra um risco é vulnerável a outro risco. Ações podem ser uma boa proteção contra a inflação, na medida em que, de maneira geral, o valor das ações acompanha a alta nos preços, já que a inflação se reflete nos lucros das empresas. Segundo as análises de Bernstein, o retorno das ações em termos reais (ou seja, acima da inflação) é positivo mesmo em cenários de inflação elevada. Porém, na deflação, ações não são um bom investimento, e títulos pós-fixados em inflação tendem a ter um desempenho pior do que os pré-fixados.

Contra confisco e devastação, uma boa saída é investir no exterior – seja em títulos de países estrangeiros, seja em ativos reais. O importante, nesse caso, é que os ativos estejam custodiados no exterior, se não, o risco de confisco permanece. As desvantagens de apostar na diversificação internacional são a tributação ao trazer os recursos de volta para o país e o elevado investimento inicial necessário, além dos custos envolvidos e da burocracia.

Uma dica para o investidor brasileiro: ficar de olho na inflação é sempre válido. Apesar de o índice se encontrar em patamar historicamente baixo, o ritmo é de ascensão nos últimos anos. Medida pelo IPCA, a inflação acumulada nos últimos 12 meses é de 6,52%. Acompanhe periodicamente a rentabilidade de seus investimentos e compare com a inflação.

Categorias: Economia, Plano de investimento