Uber tira emprego de taxistas”, especula ninguém menos que a Presidente da República. “O aplicativo da empresa americana está achincalhando as leis brasileiras”, reclama o presidente da associação de cooperativas de táxi. “Vai ter morte”, radicaliza o mandatário do sindicato da categoria em São Paulo.

Políticos de todas as esferas governamentais não perdem a oportunidade para discutir sobre a legalidade da Uber no Brasil - a exemplo do que já ocorre nos Estados Unidos e Europa. Lá como cá, uns pedem para tirar o aplicativo do ar, acusado de concorrência desleal e ilegal; outros, que a atividade seja regulamentada com urgência.

Para quem não foi apresentado, o Uber é uma evolução do táxi, pois recruta motoristas bem preparados e carros nos trinques, que são submetidos à avaliação do usuário e com corridas pagas por cartão de crédito pré-cadastrado. Submetida a intenso bombardeio, a empresa se defende como pode. Consumidores e articulistas se posicionam, a favor e contra, em debates acalorados.

A Uber não está sozinha neste tipo de conflito. É apenas a parte mais visível da questão

O problema é que a Uber não está sozinha neste tipo de conflito. É apenas a parte mais visível da questão. A hotelaria tradicional também anda de cabelo em pé com o aplicativo Airbnb, que permite conectar proprietários de acomodações com usuários em todo o mundo. Presente em 190 países, já atendeu 40 milhões de hóspedes desde 2008. Enquanto eram só viajantes de lazer em busca de um lugar barato para pernoitar, não incomodava os hotéis. Mas de uns tempos para cá o Airbnb tem atingido o universo corporativo, filé mignon da hotelaria, principalmente a que se dedica ao segmento econômico e midscale.

A consultoria Barclay estima que em breve as reservas pela Airbnb devem superar as das maiores redes do mundo. Basta dizer que na Europa, durante o ano passado o inventário de quartos disponíveis no site saltou de 300 mil para um milhão de unidades. No mesmo período, cadeias como Hilton, Intercontinental e Marriot possuíam cada uma menos de 700 mil quartos no portfólio. Em 2014, a Airbnb engoliu nacos generosos da hospedagem em New York (17%), Paris (12%) e Londres (10%). “O que está ocorrendo com a Uber no Brasil sinaliza como a hotelaria tradicional deverá enfrentar a concorrência das hospedagens comunitárias”, avalia Alexandre Mota, diretor da Caio Calfat Real Estate Consulting.

Não há setor imune a esta revolução digital. A chegada da Netflix, que oferece filmes por demanda através de streaming, também disparou o alarme das empresas de tevês por assinatura. Elas se viram forçadas a modificar a maneira de entregar televisão nos domicílios. Como quem deixa de comer comida a quilo para escolher no cardápio, o consumidor antes forçado a assistir apenas a programação disponível, agora opta pelo que realmente deseja ver.

Há outros exemplos. “O WhatsApp é pirataria pura”, radicaliza Amos Genish, presidente da Vivo, sobre o aplicativo que antes trocava só mensagens. O problema começou depois que o aplicativo do Facebook, que já possui 900 milhões de usuários no mundo, passou a oferecer também chamadas telefônicas. Com isto, cutucou o ninho de marimbondos das operadoras de celular. Para elas, este tipo de aplicativo, assim como Google, Apple, Netflix e demais empresas de conteúdo (também conhecidas como OTTs) ganham dinheiro às suas custas, pois usam as suas redes de dados sem pagar. (Uma curiosidade: misteriosamente ninguém encrencou com o Skype, da Microsoft, que faz a mesmíssima coisa que o WhatsApp. Por que será?).

Por que causam tanta polêmica aplicativos que a rigor apenas promovem a convergência digital entre prestadores de serviço e usuários?

Afinal, o que está acontecendo? Por que causam tanta polêmica aplicativos que a rigor apenas promovem a convergência digital entre prestadores de serviço e usuários, como Uber e Airbnb, ou então usam a internet que alguém já paga para entregar dados e voz, como WhatsApp e Netflix? Trata-se de uma reação emocional de meninos incomodados com a chegada de um novo garoto charmoso à vizinhança? Afinal, até o insuspeito Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), órgão governamental que regula a concorrência no país, afirma que não há razão para proibir o Uber no Brasil. Um estudo do órgão concluiu que os novos aplicativos atendem a um mercado até então não alcançado – ou atendido de maneira satisfatória – pelos táxis. “Sob uma ótica concorrencial e do consumidor, a atuação de novos agentes tende a ser positiva”, conclui o estudo.

Atrás de todo o barulho, há um fator comum a todos os segmentos. Trata-se da “economia do compartilhamento”, um novo modelo de negócios em que bens e serviços são organizados graças a uma plataforma digital (aplicativo ou site), capaz de unir consumidores e fornecedores. Em outras palavras, estamos diante da ”disruptura”, termo da moda que substituiu “quebra de paradigmas”, expressão ainda usada por palestrantes mais saudosistas.

Inovações disruptivas introduzem novos benefícios ao mercado, como maior simplicidade e conveniência, e muitas vezes com menor custo

“As inovações disruptivas introduzem novos benefícios ao mercado, como maior simplicidade e conveniência, e muitas vezes com menor custo”, resume o consultor Cezar Taurion. Na prática, estas novidades tecnológicas batem de frente com os produtos e serviços já existentes. Aí é que porca torce o rabo. Poucos fornecedores se prepararam para enfrentar modelos de negócio digitais, bem diferentes dos tradicionais. Engessados em modelos mentais e presos a processos convenientes e confortáveis, custam a perceber mudanças de mercado. Só que, diferente de uma simples evolução ou transformação de um produto ou serviço, a inovação promove uma nova tecnologia. Ela não só substitui a anterior como redefine o próprio ecossistema, derrubando sem dó nem piedade práticas consagradas e valores definidos. “As mudanças bruscas não são facilmente aceitas por empresas solidificadas em seus setores, que tentam se proteger ao escudar-se na legislação”, conclui Taurion.

Mas não se deve confundir as coisas. Inovações disruptivas não são ilegais: apenas não foram ainda regulamentadas. Por isto, apegar-se a leis que não conseguiram acompanhar a evolução tecnológica ou a práticas obsoletas adotadas pelo mercado não vai impedir, no peito e na raça, que a sociedade se encante com os novos serviços. A transformação contínua dos processos e modelos de negócio vai continuar a ocorrer, mesmo debaixo da chiadeira dos perdedores. Todo dia surgem novos apps e não adianta atirar contra eles. É inevitável que, cedo ou tarde, sejam incorporados ao dia a dia do consumidor.

Apegar-se a leis retrógradas ou a práticas obsoletas adotadas pelo mercado não vai impedir, no peito e na raça, que a sociedade se encante com os novos serviços

Em breve serão 100 milhões de smartphones no Brasil. E ninguém vai deixar de usá-los para contratar serviços, enviar mensagens escritas ou por voz da maneira mais conveniente e barata. A história econômica ensina que não é inteligente brigar com o mercado consumidor. Melhor se adaptar aos novos tempos que tentar congelar artificialmente o passado. Por isto, negócios que tentarem resistir à evolução e bater de frente com a disruptura, ignorando a vontade do consumidor, correm risco de desaparecer. Sem deixar vestígios.

Exemplos de inovações disruptivas

Categoria

Inovação

Mercado afetado

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Artigo originalmente publicado na revista Viagens S.A., republicado pela Vérios com expressa autorização do autor.


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Revolução digital: quem tem medo da disruptura?
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