Saiba avaliar investimentos com o gráfico underwater

underwater

Na última semana, lançamos mais um gráfico, o Underwater Curve, que está disponível nas lâminas e nas comparações de fundos. Esse gráfico exclui todos os ganhos do fundo, deixando visíveis apenas as perdas, de forma que os investidores possam ver com clareza o risco histórico do fundo.

O gráfico Underwater Curve é mais utilizado para análise de risco de ações negociadas em bolsa. Contudo, a informação retratada nele, se corretamente interpretada, pode ser muito útil também ao escolher fundos de investimento.

Qualquer estratégia de investimento está sujeita a eventuais períodos de perda. O Underwater evidencia a duração e a magnitude de cada perda sofrida no passado

Qualquer estratégia de investimento está sujeita a eventuais períodos de perda, que podem ser de maior ou menor magnitude e duração. Ao excluir todos os ganhos, o Underwater oferece uma visualização rápida e fácil de todas as perdas sofridas pelo fundo ao longo de sua existência, facilitando a distinção entre as perdas corriqueiras temporárias e as perdas que se estenderam por períodos prolongados. Além do período de duração, também fica evidente a grandeza de cada perda.

Assim, o gráfico permite identificar os piores momentos do fundo. Se você, como investidor, não se sentir confortável com as perdas retradas no Underwater de determinado fundo, deve buscar um produto de investimento mais conservador.

Como funciona

O Underwater Curve retrata apenas as perdas, desprezando os ganhos. Isso é feito mantendo o gráfico com valor igual a zero sempre que o resultado do dia for um novo topo histórico, ou seja, a rentabilida acumulada mais alta da história do fundo até aquele dia.

Por exemplo, imagine um fundo que sobe e desce sempre de maneira constante (em linha reta). Se ao longo de determinado período ele sobe 10%, depois perde 2%, sobe mais 20% e perde 5%, o underwater ficará estável em 0% durante o período de subida até os 10%. Depois, mostrará a queda até -2%, uma subida de volta até recuperar os 2% perdidos, um período de estabilidade em 0% durante o restante da subida, e depois revelará a queda de 5%.

Ou seja, ele mostra as perdas e o tempo que foi necessário para sua recuperação. O ponto mais baixo desse gráfico é a pior perda que já ocorreu no fundo.

Exemplos de comportamentos evidenciados no Underwater

As características essenciais do Underwater nos dão a oportunidade de visualizar alguns comportamentos interessantes no mercado. Identificamos abaixo alguns casos que revelam informações nem sempre percebidas pelo investidor que acompanha apenas os gráficos de rentabilidade.

Diferentes riscos numa única estratégia

Uma situação onde a utilidade do Underwater fica evidente é quando comparamos fundos cujas estratégias são idênticas, mas que assumem diferentes níveis de risco.

Comparação de rentabilidade de fundos com estratégia idêntica e diferentes níveis de risco
Comparação de rentabilidade de fundos com estratégia idêntica e diferentes níveis de risco

 Observe a rentabilidade destes três fundos. Eles são geridos pela mesma gestora e oscilam sempre juntos – tanto para cima quanto para baixo. A estratégia é única, mas a gestora criou três diferentes níveis de risco, para atender três diferentes perfis de investidor.

Ao observar o gráfico acima, é fácil escolher o fundo retratado em azul. Ele rendeu mais que os outros dois. Porém, o investidor precisa entender que rentabilidade decorre da assunção de algum nível de risco. Isso fica evidente no gráfico abaixo.

Comparação de risco no gráfico underwater de fundos com estratégia idêntica
Comparação de risco no gráfico underwater de fundos com estratégia idêntica

 O Underwater revela que o fundo retratado em azul assumiu maiores riscos. A magnitude de suas perdas é sempre superior à das perdas dos outros dois. Aqui também fica evidente que as estratégias são idênticas, os três fundos ganham e perdem sempre juntos. Mas o tamanho das perdas é diferente entre eles, assim como os ganhos que vimos no gráfico de rentabilidade.

Mudança de exposição a risco após a crise de 2008

Mudança da exposição a risco após a crise de 2008

Note que, antes de 2008, esses dois fundos multimercados assumiam posições que aceitavam perdas moderadas. A súbita piora do cenário mundial em 2008 provocou perdas fora do padrão anterior, acumulando resultados negativos muito maiores. A recuperação dessa perda demorou quase um ano no fundo retratado em vermelho e mais de um ano no fundo azul.

Após a crise, notamos um comportamento diferente. Ambos os gestores mudaram o limite de risco dos fundos, que nunca mais (até o momento) apresentaram perdas superiores a 1,5%. É possível que essa postura tenha reduzido o potencial de ganho, porém o Underwater não mostra os ganhos, apenas as perdas. Para ver se a rentabilidade destes fundos tornou-se mais tímida, é necessário consultar outros gráficos do site.

Fundo de ações alavancado

Fundos de ações alavancados assumem um risco superior ao patrimônio total dos cotistas. O risco é maior, mas os ganhos obtidos com cada acerto também são maiores. É uma estratégia para poucos investidores.

Repare nesse fundo. Ele sempre teve oscilações fortes, os ganhos e as perdas sempre foram expressivos. O Underwater mostra perdas que constantemente ficam entre 30% e 40% do patrimônio. No entanto, quando a crise de 2008 acentuou o prejuízo, a alta exposição a risco provocou a quebra do fundo, que nunca mais se recuperou.

Esse é um caso extremo do que chamamos de perda permanente de capital. Não há expectativa de recuperação.

Exemplo de caso extremo: perda permanente de capital
Exemplo de caso extremo: perda permanente de capital

 Fundo modificado pela troca do gestor

Esse é outro caso interessante. O fundo apresentava boa rentabilidade, com quedas sempre muito pequenas e pouco duradouras. Os cotistas quase nunca chegavam a perder 0,3% do patrimônio. Em 2011, o principal profissional responsável pela gestão deste fundo saiu da gestora.

Exemplo de alterações relacionadas à troca de gestor
Exemplo de alterações relacionadas à troca de gestor

 É nítida a mudança de comportamento do fundo a partir de outubro de 2011. As perdas ainda são pequenas: até o momento, não passaram de 1,5%. Mesmo assim, tornaram-se muito maiores, mais frequentes e mais duradouras. O fundo mudou.

O risco invisível do crédito privado

O risco dos fundos de crédito privado é mais difícil de medir. Isso porque a análise do histórico não revela nada. O risco desses fundos não está diretamente associado ao mercado, mas sim à qualidade dos emissores de dívida da carteira – as empresas às quais o fundo empresta dinheiro.

Como o fundo empresta para empresas, o crédito privado funciona como uma renda fixa: sempre ganha, nunca perde. Exceto se algum desses devedores enfrentar dificuldades financeiras e deixar de realizar os pagamentos.

Veja como as perdas não existem, até o dia em que ocorre uma inadimplência.

Perdas de um fundo de crédito privado no gráfico underwater
Perdas de um fundo de crédito privado

 Utilizando o Underwater para investir

Assim como qualquer outra informação sobre investimentos, o Underwater sozinho não é suficiente para sua tomada de decisões. Mas a sua utilidade é inegável para ajudar o investidor a entender o nível de risco assumido pelos fundos.

Investir sempre envolve algum risco. Até nossas poupanças já foram congeladas e corroídas pela inflação. A boa compreensão do risco que se assume é fundamental para que o investidor não se frustre na sua experiência. Esperamos com o novo gráfico poder ajudá-lo a tomar decisões melhores.

Categorias: Fundos de investimento, Por dentro da Vérios
Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on LinkedInShare on Google+

Cofundador da Vérios e diretor de Estratégia de Investimento. Resende é gestor de recursos credenciado pela CVM e especialista em Data Science, mas pode chamá-lo de "Father of Algorithms" :)

Felipe é cofundador e CEO da Vérios. Atuou por 7 anos como agente de investimento credenciado pela CVM e Ancord e cofundou o site Comparação de Fundos, primeiro a dar transparência a mais de 15 mil de fundos de investimento. Felipe é advogado pela USP e especialista pós-graduado em Finanças Corporativas e Investment Banking pela FIA.

Escolhemos a dedo estes artigos para você ler também: