Será que o preço baixo já compensa o risco?

Relatório Economia em 5 minutos

Agosto foi um mês ruim para a economia brasileira. Entre outros indicadores, podemos destacar que o real sofreu forte desvalorização frente ao dólar e a nossa bolsa de valores teve o pior mês de 2015. Juntos, porém, esses dois fatores criam um cenário inusitado: medindo seu preço em dólares, o Índice Bovespa atingiu em agosto um patamar inferior àquele do auge da crise financeira mundial de 2008. O que isso pode significar?

Sempre ouvimos dizer que a economia é cíclica. Achar explicações depois que os movimentos acontecem é muito fácil, mas prever o ponto da virada onde termina um ciclo e começa outro é uma tarefa talvez impossível, devido à infinidade de fatores – simples e complexos, previsíveis e imprevisíveis – que determinam esses movimentos.

Porém, tomando o ponto de vista do capital estrangeiro, o Brasil pode ter ficado mais atraente nos últimos meses. Muitos investidores estrangeiros saíram do nosso país em 2015, por diversos fatores. Para quem está no Brasil, a sensação é que está cada vez mais difícil enxergar uma luz no fim do túnel.

Imagine-se no lugar de um investidor estrangeiro. Tudo no Brasil está mais barato, muito mais barato

Agora, imagine-se no lugar de um investidor estrangeiro. Tudo no Brasil está mais barato, muito mais barato. Isso vale tanto para o capital especulativo quanto para o capital produtivo. A bolsa brasileira está no patamar da crise de 2008 (em dólares), as matérias-primas estão baratas, a mão de obra está barata, até os imóveis – que tinham alcançado preços alegadamente irreais quando comparados a imóveis nos Estados Unidos – parecem estar baratos agora para quem vem de fora comprar ou alugar em dólares. “Negócio bom assim ninguém nunca viu”, como já dizia Raul Seixas.

Como o investidor estrangeiro vê a bolsa brasileira: o Ibovespa em dólar

Veja no gráfico, o Ibovespa ajustado pelo dólar. É assim que o investidor estrangeiro enxerga a bolsa brasileira. Hoje, estamos abaixo do pior momento da crise de 2008. O Ibovespa está uma pechincha para quem tiver coragem de vir de fora.

11363

É claro que isso por si só não gera mudança. Ainda existem um cenário de instabilidade econômica mundial e uma descrença generalizada nos próximos passos da política econômica brasileira – fatores que contribuem para manter nas alturas o risco de investir no Brasil. E isso pode fazer com que as coisas ainda demorem para melhorar. E mais: ainda pode piorar.

Mesmo assim, para alguns tipos de investidores internacionais o Brasil começa a valer a pena. Risco alto com prêmio alto.

Ao mesmo tempo, o câmbio que desfavorece nossas viagens ao exterior faz com que os produtos nacionais se tornem muito mais baratos no mercado internacional. As nossas importações diminuem e as exportações ficam mais competitivas. Nas palavras de Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú-Unibanco, o Brasil ganha competitividade via empobrecimento.

Esse fenômeno pode ser traduzido em bom português como “tá tão ruim, que tá bom” – tão ruim para nós, que começa a ficar bom para atrair capital estrangeiro.

Esse fenômeno pode ser traduzido em bom português como “tá tão ruim que tá bom”, principalmente para o estrangeiro

Que conclusão nós tiramos disso e quais previsões fazemos para o futuro? Nenhuma. No momento atual, o mercado anda “nervoso” e respondendo exageradamente a qualquer notícia. As decisões tomadas sobre a política econômica do país têm forte impacto sobre os próximos movimentos da bolsa – provavelmente mais impacto do que qualquer fundamento econômico. É tempo de cautela, e é necessário estar preparado para qualquer cenário.

Muita coisa está acontecendo aqui na Vérios. Estamos cuidando dos preparativos para lançar um serviço de investimento inédito no Brasil. Por isso, vamos diminuir o ritmo dos artigos e suspender temporariamente a série Economia em 5 Minutos. Contamos com a sua compreensão 🙂

Seja o primeiro a avaliar!

Categorias: Economia, Economia em 5 minutos, Indicadores econômicos
  • Helcio Bianchi

    Se você pegar a quantidade de contratos futuros do ibovespa comprados por estrangeiros, vai ver que esse número vem aumentando. Há muita liquidez lá fora querendo um lugar para entrar. Os problemas dessa liquidez aportar aqui hoje são a falta de previsibilidade política e institucional e uma possível solução para o problema fiscal, que envolve novamente o lado político: uma coisa não se resolve sem a outra. O Brasil ganha produtividade quando a inflação chega aos salários via recessão e desvalorização cambial, por um lado; por outro, o a oferta foi tão deprimida nesses anos todos que você não o restaura de uma hora para outra, até porque a demanda do resto do mundo também anda achatada. Outro problema, a iminente alta de juros americanos que pode absorver boa parte dessa liquidez de volta pra casa. A hora em que estas questões começarem a gerar menor grau de incerteza, pode ser um bom ponto de reversão. Apostar antes é muito arriscado e só para quem tem muito capital e precisa diversificar e pode esperar, não para quem ainda o está construindo. E também não é preciso adivinhar nada, nem antecipar a reversão da tendência num ambiente de Selic a 14,25 com viés de alta. É preciso apenas ficar atento e observar a evolução sem ser torcedor.