Tesouro Direto fica arriscado após Brasil perder grau de investimento?

A Standard & Poor’s rebaixou a classificação de risco do Brasil, que passou do “grau de investimento” para o “grau especulativo”, na avaliação daquela agência de risco. Com isso, os títulos do Tesouro Direto ganharam ainda mais destaque como opção de investimento.

Você entendeu a ligação entre uma coisa e outra? Por que a piora da nossa economia aumenta a atratividade desses títulos? E o risco, como fica?

Entenda o grau de investimento

O rating, ou classificação de risco, é a nota dada a uma empresa, país ou título para medir o risco de crédito desse investimento. Serve para indicar a capacidade de um país ou empresa pagar suas dívidas e as chances de não conseguir, atrasando o pagamento ou dando calote.

Essa avaliação é feita por agências de rating, ou agências de classificação de risco, sendo que as mais respeitadas no mundo são Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch Ratings.

A importância dessas classificações é que muitos investidores institucionais (grandes fundos com bilhões de dólares) possuem limitações nas suas regras, que só permitem investir em países ou títulos com classificação acima de determinado nível. O ponto de corte mais comum é o “grau de investimento”. Veja onde está o Brasil hoje:

Tabela comparativa das escalas de classificação de risco das agências  Standard & Poor's, Moody's e Fitch Ratings, com posição do Brasil em cada

A perda desse “selo de qualidade” traz consequências, na medida em que aumenta a percepção de risco de calote do nosso país no mundo. Assim, para continuar atraindo recursos, o Brasil precisa oferecer taxas de juros mais altas, ou seja, oferecer maior rentabilidade para quem investe em títulos públicos brasileiros.

Isso faz com que a rentabilidade ofertada do Tesouro Direto aumente, e as empresas e bancos que quiserem continuar captando recursos precisam aumentar os juros que pagam nos seus títulos privados também.

E o risco, como fica?

Quem acompanha nossos artigos sabe que não existe almoço grátis. Aumento de rentabilidade vem sempre acompanhado de aumento do risco (podendo a relação entre as duas coisas ser mais eficiente ou menos eficiente).

O que muita gente não percebe é que essa regra se aplica também na renda fixa. É aquilo que já discutimos no artigo Alta dos juros: os dois lados da moeda:

Esquema: quando aumentam os juros, aumenta a rentabilidade e o risco dos títulos de crédito privado

O aumento da rentabilidade nos ativos de renda fixa está diretamente relacionado ao aumento do risco de calote, ou seja, do risco do investidor não receber o valor combinado. E isso vale para os títulos privados, como LCI, LCA e CDB, e também para os títulos públicos, que são aqueles vendidos no Tesouro Direto.

Aumento da rentabilidade na renda fixa está diretamente relacionado ao aumento do risco de calote

É por isso que a jornalista da Rede Globo afirma, no vídeo abaixo, que “aplicar o dinheiro no Tesouro Direto pode ser uma boa opção nesse momento complicado da economia, mas tem risco, viu?“.

Clique na imagem para assistir o vídeo no site da Rede Globo
Clique na imagem para assistir ao vídeo no site da Rede Globo

A diferença é que a capacidade de pagamento do país é muito superior à de qualquer empresa atualmente. Se faltar dinheiro, o país pode inclusive imprimir mais moeda para pagar o investidor (causando inflação, que é um outro problema). Isso torna os títulos públicos muito mais seguros que os títulos privados.

O risco mais grave, que é o risco de calote, praticamente não existe. De que risco, então, a a repórter está falando? No vídeo, o analista financeiro Roberto Indech, da Rico Corretora, explica melhor: o risco que existe no Tesouro Direto é a volatilidade de preços dos papéis.

Por isso ele recomenda: “a nossa recomendação é que os investidores levem [os títulos] até o vencimento“. Essa recomendação faz sentido nos títulos prefixados, pois a rentabilidade final é previsível desde o momento da compra. As oscilações de preço não afetam a rentabilidade final. O problema é que alguns investidores se assustam com a volatilidade e resgatam antes da hora, causando (aí sim!) prejuízo a si mesmos. É um risco emocional.

O maior problema da volatilidade é o risco emocional do investidor tomar decisões erradas por medo e resgatar antes da hora

Quem pode ter perda do capital investido nesses títulos é o investidor que resgata antes do vencimento.

Investir no Tesouro DiretoUma boa opção também para fugir da volatilidade é investir no Tesouro Selic. Nessa modalidade, o investidor recebe juros de mercado, mesmo se resgatar antes do vencimento. É por isso que o Tesouro Selic é utilizado para diminuir o risco das carteiras de investimento. Quanto mais conservador você for, maior a parcela recomendável de Tesouro Selic na sua carteira.

Um desafio

Por fim, deixo um desafio para quem assistiu o vídeo. Além do título um tanto alarmista, que é questionável, a matéria tem um erro técnico bem objetivo. Um dos jornalistas diz uma coisa categoricamente errada, mas é um detalhe que só os mais atentos perceberão.

Você consegue identificar o que foi? O primeiro a responder corretamente nos comentários fica convidado para conhecer a nossa equipe e o nosso novo escritório, no Cubo. É só vir até a Vila Olímpia e a gente conversa sobre as inovações que estamos desenvolvendo. Que tal?

Seja o primeiro a avaliar!

Categorias: Plano de investimento, Economia, Títulos públicos
  • Guilherme Fôlego

    @1:15
    Tesouro Selic é pós-fixado.

    • Isabella Paschuini

      Isso mesmo, Guilherme! Super atento!
      Vamos entrar em contato por e-mail pra combinar a visita.

      PS: Levei sua pergunta para o Felipe e a resposta é o Tesouro IPCA, que junta as duas coias: tem um componente prefixado (juros) e um pós-fixado (IPCA).

  • Marcello

    O erro técnico está no final, quando falaram que o tesouro selic é muito parecido com a poupança, o que, na minha opinião é bem pouco ou nada semelhante. Poupança rende 0.5% a.m + tr, sendo creditado os juros somente na data de aniversário do depósito. Selic é pós-over, sendo o rendimento calculado com base na selic-over, diariamente. Isso sem nem comentar os impostos!

    • Marcello, muito bem observado. Tesouro Selic é bem diferente de poupança (na minha opinião, o Tesouro é muito melhor!). Mas o que o investidor entrevistado quis dizer é que é bem parecido em termos de risco (muito baixo) e comportamento (rendimento previsível, sem volatilidade). Você está certo nas suas observações, mas não foi esse o erro técnico (e não foi dito pelo jornalista).

  • Izabella Braga

    O Título do Tesouro indexado à selic não protege o investidor contra volatilidade no preço do títulos. A precificação deste ativo terá menor sensibilidade às variações da taxa de juros, pois já está imbutido diretamente na taxa pega pelo título, mas haverá oscilação.

    • Izabella, o Tesouro Selic protege sim contra volatilidade. A rentabilidade dele é diretamente impactada pelas mudanças na taxa Selic, mas esse impacto é sempre sentido bem devagarinho, com pouquíssima variação de preço (volatilidade). Na prática, é imperceptível. No longo prazo, ele vai render mais quando a Selic está alta e render menos quando a Selic está baixa. Mas não tem quase nenhuma variação de preço de um dia para o outro.

  • Rodrigo Chohfi

    O erro: o reporter fala ” em vez de investir pre ou pós fixado , deve se investir no selic “. Na verdade , o Selic é um pós fixado , assim tendo menor volatilidade. Acertei ?

    • Isabella Paschuini

      Sim, Rodrigo, acertou! Parabéns!
      Vamos entrar em contato por e-mail para combinar a visita.

  • Diogo Luís Fiaminghi

    O erro técnico é que o Tesouro Selic se investe a partir de R$ 70,00 mais ou menos e não a partir de de R$ 30,00 com está na reportagem. O mínimo a se investir sempre é 1% do valor do título ou 0,01 título.

    • Diogo, sua colocação está perfeita. Esse foi um erro que eu não tinha percebido! Mas esse deslize foi cometido pelo investidor entrevistado, não pelo jornalista. Apesar de você estar correto (e atento!), para ser justo preciso indicar quem acertou em cheio, dentro de todos os parâmetros que colocamos. Abs!

  • RS

    rsrsrs não tenho como assistir ao vídeo de onde estou, mas os comentários anteriores indicam que a reportagem conteve bem mais que um erro técnico.
    O Cubo vai ficar lotado graças à ajuda da globo.
    Quanto ao Cubo (objeto de outra postagem), parabéns pela mudança e muito sucesso à Vérios, que compartilha gratuitamente conhecimento de excelente qualidade.

    • Isabella Paschuini

      Rsrsrsrs
      Em nome de toda a equipe, muito obrigada, RS!

  • antonio

    Me parece que ele equivocou-se ao dizer que os títulos dos países de risco pode se desvalorizar se o mercado sentir que a situação piorou, eu acho que o risco em precisar vender o titulo antes do prazo é a volatilidade que aumenta com relação a taxa futura de juros.

    • Antonio, o risco é esse mesmo: volatilidade. Mas nesse ponto a reportagem não está errada. Eles apenas “simplificaram” a mecânica. Quando a situação do país piora e o mercado começa a duvidar da capacidade de pagamento, o Tesouro precisa oferecer juros mais altos para atrair capital e esse aumento dos juros causa uma derrubada no valor de mercado atual dos títulos que já existem. Essa mêcanica de juros versus preço de mercado está explicada usando os títulos de inflação como exemplo nesse artigo: https://verios.com.br/blog/fundos-de-inflacao-final-da-festa/

  • Monica Lima

    Vocês publicaram quem foi visitar o Cubo? Pelo visto, vários erros encontrados na reportagem! Parabéns a Verios e muito sucesso na casa nova. Sou fã do blog.

    • Isabella Paschuini

      Que bom contar com sua energia positiva, Monica!
      Ainda não divulgamos, mas vamos fazer isso muito em breve, você poderá ver aqui nos comentários mesmo.

  • Pessoal, muito obrigado a todos que participaram. É muito gratificante vê-los engajados com o nosso trabalho. Dá fôlego novo para continuarmos trabalhando animados! Além de confirmar aqui nos comentários, nós vamos entrar em contato direto com os nossos leitores que estavam atentos e foram rápidos no gatilho, para combinar a visita. Uma pista: nosso “comitê julgador” considerou que houve empate técnico. =)
    Nos vemos em breve!