Três histórias de terror com bancos

Histórias de terror com bancos

Cuidado! Retire crianças, cardíacos e idosos da sala antes de ler este texto.

Ele contém histórias de terror e pânico acerca de criaturas pavorosas: mais vampíricas que o chupa-cabra, mais horripilantes do que o Nestor Cerveró, mais alienantes que o ET de Varginha…

Estamos falando deles, os BANCOS! 😱

Continue lendo por sua conta e risco. Depois não venha reclamar que passou a noite em claro, suando frio ou tendo pesadelos. Hoje é Halloween e você foi devidamente avisado.

O Silêncio dos Atendentes

Essa história aconteceu comigo mesmo, e foi agorinha, às vésperas do Dia das Bruxas.

Peguei um avião para o Rio na sexta passada, poucos depois de a Isa, nossa editora do blog, ter me passado como dever de casa escrever esse artigo apavorante. Eu já havia contado, em outra ocasião, sobre o meu  repertório cheio de histórias aterrorizantes envolvendo bancos.

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Mal desembarquei no Santos Dumont e notei que tinha perdido o meu cartão de débito.

Até aí, nada demais! Eu me orgulho de, em muitos sentidos, não me encaixar no estereótipo do matemático distraído. Mas no quesito perda de objetos (chaves, cartões, carteiras…) admito que sou mesmo bem matemático.

Meu trabalho (ou missão?) era cancelar o cartão e pedir uma segunda via. Simples, né? Na teoria, sim.

Primeira ligação para o atendimento do banco.

Depois de atravessar uma breve gincana através do menu de opções — “tecle um para saber o seu saldo, dois para abrir uma conta, três para marcar manicure” etc etc — atendeu um rapaz gentil que (1) pediu o número da agência e da conta, depois (2) fez n perguntas pra confirmar minha identidade — CPF? Data de aniversário? Nome da mãe? Ração favorita da minha gatinha de estimação? Banda favorita? Biscoito ou bolacha? — e então (3) me colocou pra esperar na linha enquanto ele transferia a ligação pra outro setor.

Normal. Fiquei um ou dois minutos na linha ouvindo uma daquelas musiquinhas xarope até que…

TU-TU-TU-TU

A ligação caiu. 😒

Grrr. Mas ok, acontece.

Segunda ligação. De novo a gincana de opções e depois uma atendente gentil.

Expliquei, ligeiramente irritado, o que tinha acontecido. Mesmo roteiro de antes: número de agência e conta, endereço do pai, apelido da mãe, “por favor aguarde na linha enquanto transfiro”, musiquinha xarope etc e tal.

Dessa vez a ligação não caiu, mas foi para um segundo menu de opções. Esse menu era mais exigente — pediu a senha eletrônica de internet. Digitei as duas ou três que uso1 e ele não aceitou nenhuma. Ameaçou bloquear o raio da senha se eu errasse de novo.

Argh! Desliguei e liguei de novo.

Terceira ligação. Essa é fácil de descrever: aconteceu exatamente o mesmo que tinha acontecido na primeira. Caiu a ligação. Que ódio!

Quarta ligação. Foi tenso. Eu não estava feliz. Quando o coitado do atendente me pediu os dados eu cuspi ração do pai, CPF da gata, aniversário da agência como uma metralhadora. Não sei se foi por intimidação ou se esse cara era mais competente que os outros, mas depois de alguma peleja ele conseguiu cancelar o cartão.

Ufa! Minha pressão começou a baixar. Agora só faltava fazer o pedido da segunda via.

Perguntei para o atendente: então, como faz? Ele explicou que não dava pra ser ali, isso era responsabilidade de outro setor, tinha que transferir pra lá. Temo não ter reagido bem a essa novidade. Vou poupar vocês do teor da minha reação. Mas não teve jeito, ele me botou pra aguardar na linha.

E aí? Silêncio absoluto. Necas da música xarope (nunca imaginei que sentiria falta dela). Pois é, a ligação não se deu ao trabalho nem mesmo de cair; ela simplesmente ficou muda.

Gritei, berrei, esbravejei. Confesso que chorei. A minha gata2 fugiu apavorada da sala. Enfim, nessa semana passo no banco pra pedir a segunda via do cartão. Espero não esganar ninguém lá.

Hanibal: All good things come to those who wait

Conta Corrente do Mal

Esta história verídica aconteceu com a Aninha aqui da Vérios. 

A Ana sempre teve conta bancária vinculada à do seu pai. Era uma conta do tipo “Premium” no banco Cofre Graúdo3.

Antes de ela ter controle total das suas despesas, a Ana nem ligava para as taxas abusivas desse tipo de conta, porque não tinha noção do impacto delas. Hoje que a Aninha é adulta4, ela resolveu organizar suas finanças. Foi aí que veio o primeiro susto: ela percebeu que as taxas do banco estavam comendo alguns pontos percentuais do seu salário todo mês!

A Ana decidiu tomar providências. O primeiro passo foi tentar o bom relacionamento do seu pai com a gerente do banco para diminuir as as tais taxas.  A gerente explicou por telefone que isso só seria possível caso ela colocasse R$100 mil no fundo tal e tal.

Ela ficou indignada. Nas palavras dela:

— Sério, eu tô reclamando de R$ 100 por mês e vou ter R$ 100 mil pra investir em um fundo #0$T@?

Então a Ana perguntou sobre a conta digital do banco. Nas palavras dela:

— Minha gerente fofa e linda me instruiu a ir até uma agência Cofre Graúdo para abrir a conta digital.

O que a nossa querida e fofa não me avisou é que Cofre Graúdo e o Cofre Graúdo Premium não conversam entre si. São estruturas totalmente diferentes, então eu não poderia simplesmente transferir a minha conta. Além disso, quando se quer ter uma conta digital, essa deve ser a única conta no seu CPF em todo o Cofre Graúdo — aqui, sim, as instituições conversam.

Então, na agência do Cofre Graúdo, a minha mais nova instrução foi ir até uma agência Cofre Graúdo Premium e cancelar a minha conta lá.

Voltei lá, no mesmo dia, pra agência Premium da gerente fofa… E olha só: descobri que não consigo cancelar a minha conta enquanto eu tenho outra. E nem abrir uma conta digital.

Corrente do Mal

— A conclusão da história: tive que ir ao Cofre Graúdo abrir uma conta normal, com taxas e tudo mais, transferir tudo do Cofre Graúdo Premium pra essa mais nova conta, depois ir a uma agência Cofre Graúdo Premium e cancelar a conta, para enfim (!) voltar à outra agência do Cofre Graúdo e transformar a minha nova conta normal em conta digital.

Depois as pessoas me perguntam por que eu amo o Nubank.

Apertem os Cintos… o Dinheiro Sumiu!

A última das nossas histórias de terror foi protagonizada pela Dana, minha amiga matemática tcheca que cursa pós-doutorado na USP. Ela estava se preparando para participar de uma conferência na Inglaterra, e precisava transferir dinheiro para um determinado banco estrangeiro para cobrir suas despesas por lá.

Como toda boa heroína de filme de horror, a Dana é charmosa, corajosa, engenhosa, e muito, muito azarada.

Ainda em São Paulo, a Dana passou na sua agência do Banco do Barril5 para fazer a transferência. Deu um pouquinho de trabalho, porque a Dana tinha que fornecer vários dados, inclusive um código internacional, o Swift. Mas ela já morou em muitos países, então sabia como era, tinha tudo anotado direitinho.

Passou o número para um funcionário que digitou tudo, deu enter, e anunciou que daqui a tantos dias o dinheiro estaria disponível na conta do banco inglês.

Maravilha! A Dana foi tranquila pra casa, e poucos dias depois desembarcou em solo inglês. Ela tinha levado umas poucas libras na bolsa, então uma das primeiras providências foi ir a uma agência do tal banco estrangeiro.

Lá — terror e pânico! — descobriu que não tinha chegado um centavo do Brasil.

A situação era grave. A Dana imediatamente telefonou para o Banco do Barril.

— Bom diiia6! Oi amiga, estou aqui no exterior, na Inglaterra, e teve um probleminha com aquela transferência, lembra?

— Claro que lembro, você veio aqui fazer outro dia. Qual foi o probleminha?

— Bem, fui verificar aqui, e o dinheiro não chegou. Tô quase sem dinheiro aqui, só o que tem na carteira. E meu cartão de crédito está no limite, por causa das passagens, que só vão ser reembolsadas quando eu voltar pro Brasil. 

— Hmm, um momento, vou verificar no sistema.

Após uma demorada espera — com musiquinha xarope no fundo, claro — a atendente volta para a ligação:

— Ah, descobri aqui. É o seguinte: sabe aquele código Swift que você trouxe?

— Sei. O que tem ele?

— O problema foi que o funcionário esqueceu de incluir os três dígitos finais. Então ele especifica o banco, mas não a agência. E desse jeito não vai cair na conta mesmo.

— Hmm, ok, então como eu faço? Posso passar os três dígitos finais pra você?

— Na verdade não posso fazer isso. O protocolo de segurança daqui do banco exige que a gente confirme a sua identidade.

— Tá bom. E como a gente faz isso? Você precisa do quê? Quer que eu diga meu endereço, data de nascimento?

— Bem, não, na verdade precisa de mais do que isso… Que dia você pode passar na sua agência, aqui na Avenida Paulista?

Gif: surely you can't be serious

O fim da aventura? A Dana se safou, é claro, combinando sua engenhosidade de heroína de filme com uma boa pitada do “jeitinho brasileiro” que ela já tinha aprendido morando aqui. Mas essa parte da história fica pra outro dia.

***

Todas as histórias (infelizmente) são baseadas em fatos reais.

Você também tem histórias horripilantes com bancos? Conte aqui nos comentários!

Coisa de quem tem três contas, duas pessoais e uma PJ, e nunca lembra qual é a senha de qual.

Estão aqui, aliás, os dados que os atendentes recolheram sobre a minha filha felina: Tiba, Cat Chow, 12 de abril de 2003, não tem CPF, Beatles (acho).

Alteramos o nome para preservar a identidade do banco.

4 Há controvérsias.

5 Novamente, alteramos o nome para preservar a identidade do banco.

6 A Dana tem a mania de esticar as vogais quando fala. E também de chamar todo mundo de “amigo” e “amiga”. Eu me pergunto se isso vem da língua tcheca, ou se são cacoetes exclusivamente danenses. Aposto na segunda alternativa.

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Economista pela PUC-Rio e doutor em Matemática pelo IMPA, integra o time de Estratégia de Investimento da Vérios. Flavio é sócio-proprietário da consultoria SLQ Soluções Quantitativas e possui certificação CGA

  • A Dana precisa usar a TransferWise da próxima vez – sem susto e sai mais barato.

    • Isabella Paschuini

      Também acho!

  • Rafael Sarres de Almeida

    Hahaha! Excelente.
    Um comentário sobre a história da transferência internacional: Andreas Antonopoulos é um entusiasta do bitcoin e faz palestras sobre o assunto no mundo todo. Quando a promotora do evento decide pagá-lo de qualquer forma além de bitcoins, ele cobra um valor adicional. Ele conta que, além do atraso de praxe, pagamentos já foram simplesmente perdidos no emaranhado absolutamente absurdo que é o sistema de FX. Ele minimiza o caso do pagamento que foi perdido e teve que ser enviado novamente porque foi originado em um país com sistema bancário muito precário: a Suíça.