Você confia mais em quem usa roupa social?

Roupa social e roupa normal!

Todos os dias de manhã cedinho meu marido e eu acordamos e nos preparamos para mais um dia de trabalho. Ele sempre se veste da mesma forma: calça social preta, camisa social branca ou, no máximo, azul clara e sapatos de couro.

Admito que já até senti certa inveja da facilidade que ele tem para escolher a roupa de manhã. Na verdade, ele nem precisa escolher! Eu sei que o bom trabalho que ele faz seria igualmente bem feito se ele vestisse um jeans com aquela camiseta do Foo Fighters que ele adora. Nos dias mais quentes, uma bermuda talvez aliviasse o calor e deixasse ele mais confortável na hora de sair na rua para o almoço. Porém essas peças, assim como nosso carro, só saem de casa no final de semana.

O meu marido, talvez como você que lê este texto, trabalha em um escritório formal e segue o tal “dress code” da roupa social que pasteuriza a aparência das pessoas e faz todo mundo parecer igual andando pela Faria Lima ou pela Berrini ao meio-dia.

Eu trabalho em uma fintech, ou seja, uma startup que usa a tecnologia para oferecer serviços financeiros (no caso da Vérios, investimentos) mais práticos, eficientes e baratos que o sistema tradicional dos bancos. Posso escolher a roupa que eu quiser para trabalhar. Ninguém me dita regras, os limites são impostos pelo meu bom senso. Um dia tem vestido de poá, no outro, casaco de coraçõezinhos, tem a camiseta da Vérios com a estampa da hashtag “We Are The Robots”, tem All-Star, tem saltinho, tem roupa de yoga… Visto o que me deixa mais confortável a cada dia!

Falando assim, parece até que eu sou super bem-resolvida com isso e o problema é de quem tem que usar roupa social todo dia, né? Só que não. Esse problema é meu também. É para abordá-lo que decidi escrever este artigo.

A Vérios é uma empresa digital. Com muito amor e carinho virtual, ajudamos milhares de pessoas a se libertarem das armadilhas dos bancos e investirem melhor o dinheiro que elas decidiram poupar para o futuro. Ninguém usa terno e gravata aqui. Camisa social, só o Felipe, nosso CEO, e olhe lá! Geralmente ele combina a camisa com um tênis esportivo. Será que se nossos clientes vissem o jeito despojado como nos vestimos todos os dias eles se tornariam nossos clientes da mesma maneira? Eu queria muito que a resposta para essa pergunta fosse “Óbvio, ué, qual a diferença? Estou escolhendo um serviço e não aparências”. Mas não, a coisa não é tão racional assim.

A real é que você, a torcida do Flamengo, e eu também (que sou Vasco) usamos gatilhos mentais que facilitam a nossa vida e tornam a tomada de decisão mais rápida em n situações no dia a dia. Em geral, esses “atalhos” são realmente úteis. No supermercado, não escolhemos um peixe com mau aspecto — vai que ele está estragado?

Tendemos a achar que um rapaz com barba por fazer é desleixado e que uma moça bem penteada é super competente

O mesmo tipo de julgamento fazemos com a aparência das pessoas e das instalações físicas das empresas. Tendemos a achar que um rapaz com barba por fazer é desleixado e que uma moça bem penteada é super competente. Fenômenos assim são chamados de vieses e heurísticas e são bastante estudados no campo da economia comportamental. Um exemplo é o efeito halo, que leva você a generalizar suas conclusões sobre uma pessoa a partir da observação de um aspecto específico1.

Mas agora pensa aí: quantas vezes você já se surpreendeu ao constatar que sua primeira impressão sobre uma pessoa se revelou totalmente errada?

É preciso discernir em quais situações você pode confiar nesse primeiro julgamento do seu cérebro e em quais é melhor pensar um pouco mais para não julgar pela aparência. Às vezes, confiar na sua primeira impressão pode levar a prejuízos, literalmente!

No livro “Economia Nua e Crua”, Charles Wheelan propõe a seguinte reflexão. Suponha que você esteja escolhendo um empresa de investimentos após ter ganhado uma bolada na loteria (sonhar não custa nada). A primeira empresa que você visita tem um belo revestimento de madeira, um saguão todo em mármore, pinturas impressionistas penduradas pelas paredes e executivos que vestem ternos italianos feitos à mão. Imaginou a chiqueza? Nessa  situação, você pensa:

1) “É o meu dinheiro que vai pagar todo esse glamour — que exploração!”; ou

2) “Nossa, essa empresa deve ser muito bem-sucedida, espero que me aceitem como cliente”?

De acordo com Wheelan, a maioria das pessoas vai pensar algo mais próximo da opção 2.

Esse é um efeito que as empresas usam para sinalizar sua própria qualidade no mercado. Os chamarizes que indicam sucesso, como a mármore e o terno italiano, não têm nenhuma relação inerente com a conduta profissional da empresa. São apenas sinais que nos fazem imaginar que o serviço da empresa é de qualidade. E em resumo é por isso que meu marido não pode ir trabalhar com a camiseta do Foo Fighters.

O mármore e o terno italiano não têm nenhuma relação inerente com a conduta profissional da empresa

Isso acaba gerando um círculo vicioso: as empresas sabem que você pensa que chiqueza é qualidade, então investem nisso. Aí você, como cliente, vê com maus olhos as empresas que não seguem essa lógica. Elas acabam sendo forçadas a seguir a mesma fórmula. Claro, elas vão precisar cobrar de alguma forma para cobrir tanto gasto com aparência.

banner-poupanca

Na prática, esse tipo de simplificação mental acontece porque não dispomos de todas as informações necessárias para tomar decisões. Esse insight rendeu ao economista da Universidade de Stanford Michael Spence o prêmio Nobel em 2001. (Aliás, você deve ter acreditado muito mais no que leu depois que mencionei que Spence é de Stanford — e ainda por cima tem um Nobel, uau! Mas esse é um viés para abordar em outro artigo.)

Na hora de escolher onde investir, lembre-se de uma coisa: todas as instituições financeiras lucram cobrando taxas sobre o seu dinheiro. Quanto mais vai pra elas, menos sobra para você. Não se deixe impressionar por prédios luxuosos ou assessores com ternos bem alinhados. Tudo isso é bancado por você direta ou indiretamente.

A melhor dica que posso dar é: procure sempre ter ciência do quanto você está pagando para investir e da estratégia adotada para cuidar do seu dinheiro. Quanto mais informação, menos armadilhas.

Aqui, quem investe R$ 50.000 paga em média R$ 12 por mês para a Vérios. Quem investe R$ 12.000, paga em média R$ 5. Não seria sustentável ostentar uma decoração com mármore, mas também esse nem seria o nosso estilo! Nosso espaço é bem informal. Se você tiver a curiosidade de conhecer, é só marcar com a gente.

Aliás, temos um funcionário com um estilo de vida tão frugal que nem roupas ele usa! É o caso do Ueslei, nosso robô. Tudo bem, a transparência está no nosso DNA mesmo. 😊

banner-calculadora-objetivos

O grande pioneiro do estudo do efeito halo foi o psicólogo Edward Thorndike, da Universidade de Columbia, no começo do século XX. Meio século mais tarde o efeito correlato de “ancoragem” em primeiras impressões foi pesquisado por um de nossos heróis, o também psicólogo (e ganhador do prêmio Nobel em economia) Daniel Kahneman da Universidade de Princeton.

Você confia mais em quem usa roupa social?
4.98 (99.56%) 45 votos

Categorias: Economia comportamental, Iniciante, Intermediário, Avançado, Por dentro da Vérios, Cansou de ler sobre investimentos?
  • Renan Mazzarolo

    Sensacional!
    Estou e estarei com vocês pra sempre.

    • Isabella Paschuini

      Obaaa! Isso nos faz tão felizes! Obrigada, Renan 🙂

  • caio

    Muito interessante. Sempre reclamo de ter que usar roupas sociais, sendo que não chego nem perto dos clientes!
    Preciso pegar um dia livre para passar ai na vérios!

    • Isabella Paschuini

      Valeu, Caio! Poxa… Vamos fazer um protesto pela liberdade dos guarda-roupas!

  • Clara Raíssa Scarin

    Adorei o texto, sou psicóloga e sei bem sobre os gatilhos mentais. Fico feliz em saber que invisto com uma start up que dá essa qualidade de vida (é assim que eu vejo) pro funcionário. 😁😁 Parabéns pelo texto.

    • Isabella Paschuini

      Oba! Obrigada, Clara! Também ficamos muito felizes em ter você como nossa cliente. Um abraço!

    • Guto Tavares

      Já ia ficar triste de não ter mencionado o Daniel Kahneman no artigo 🙂

      As pesquisas dele sobre o efeito halo, a ancoragem, são fantásticas. Vale a pena ler o “Rápido e Devagar” dele!

      • Isabella Paschuini

        Eu li, Guto! Não quis mencionar muitas teorias no artigo para ele ficar bem leve, mas com certeza o livro me inspirou nessa reflexão.

        Um abraço!

        • Guto Tavares

          Ficou excelente o artigo! Parabéns pelo trabalho de vocês!

          Abraço!

  • Leonardo

    queria um emprego ai