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20 de dezembro de 2016 Ultima atualização: 17 de agosto de 2018

Você se considera um investidor acima da média?

20 de dezembro de 2016

Você se considera um bom motorista? Provavelmente sim. Cerca de 90% dos motoristas acham que estão acima da média – uma impossibilidade matemática evidente, dado que por definição só 50% dos motoristas dirigem melhor do que o motorista mediano.

Isso acontece em muitas esferas. Antes de serem confrontados com suas estatísticas históricas, jogadores de basquete amador geralmente acham que têm uma probabilidade muito mais alta de acertar a cesta num lance livre do que realmente têm1. Cerca de dois terços dos professores da Universidade do Nebraska acham que estão entre os 25% melhores. Estonteantes 93% dos motoristas americanos se consideram acima da média. E por aí vai.

Esse é o viés da confiança, batizado e extensamente documentado (junto como uma penca de outros viéses irracionais) pela genial dupla de psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky a partir da década de 70. Eles mostraram que as pessoas em geral tendem a superestimar a sua própria competência e conhecimento. Elas se consideram mais simpáticas e atraentes do que realmente são. E confiam demais nas próprias opiniões, acreditando entender diversos assuntos muito mais profundamente do que realmente entendem², tipicamente desprezando as incertezas e lacunas que cercam assuntos complexos. Pense naquele arquiteto que sabe tudo sobre mudança climática, naquela dermatologista que “sempre soube” que o Trump ia ganhar as eleições.

Pra piorar, o efeito Dunning-Kruger, um caso particular do viés da confiança, agrava o autoengano: quanto menos uma pessoa sabe sobre um assunto, mais convicta ela tende a ser quanto às suas opiniões, e maior a distância entre a sua competência autoavaliada e a sua competência verdadeira³.

Alguns aspectos da vida são mais vulneráveis ao viés da confiança do que outros. Via de regra, as pessoas se superestimam mais em relação a características mais subjetivas, que não admitem quantificação nem comparações imediatas com o desempenho dos outros. É fácil se iludir quanto à própria simpatia ou habilidade ao volante, mas quase ninguém com um metro e meio de altura se considera alto.

Mesmo assim, quase toda área admite zonas cinzentas e bastante espaço para subjetividade. É aí que prospera o viés da confiança. Com ou sem números, muita gente se acha melhor tenista do que é. E também melhor motorista. E certamente melhor investidor.

Tanto investidores profissionais quanto amadores4 tendem a se achar melhores do que são. Como diz um amigo com bastante bagagem de mercado financeiro: “Muitos gestores de fundos têm um tremendo complexo de Deus. Se o cara acerta uma aposta, ele se acha um gênio. Se ele perde dinheiro, então a culpa é do analista que deu uma recomendação ruim, ou de um evento totalmente imprevisível. Dele mesmo, a culpa nunca é”.

As estatísticas confirmam a essência desse depoimento anedótico. Em 2006 o pesquisador James Mortier entrevistou anonimamente 300 investidores profissionais. Desses, 74% acreditavam ter obtido resultados acima do esperado. Dos 26% restantes, a grande maioria disse que seu desempenho estava na média do mercado. Ou seja, numa amostra aleatória de centenas de gestores, praticamente nenhum se acha abaixo da média. (Eis uma das frases que o Montier mais ouviu: “Eu sei que todo mundo se diz acima da média — mas eu realmente sei que sou!”). Nas finanças, como ao volante, o autoengano predomina.

No caso de um gestor profissional excessivamente autoconfiante, se ele acertar a aposta ele leva um bônus milionário pra casa; se ele errar, quem leva o prejuízo são os clientes. O gestor no máximo é demitido. Já o prejuízo causado pelo excesso de confiança de um investidor individual sai do bolso do próprio, e pode levá-lo à ruína financeira. É o proverbial tiro no pé.

E o que isso tem a ver com você? Bem, tudo. Em maior ou menor grau, todo mundo está sujeito a vieses cognitivos irracionais. Se você está absolutamente convicto de que é imune a esse tipo de viés, bem, então essa própria convicção mostra um excesso de confiança. É preciso estar alerta para atitudes irracionais, e potencialmente prejudiciais, em nós mesmos.

Em termos concretos, comos se manifesta nos investidores o viés da confiança? Novamente, muita gente esperta estudou e estuda esse tema, então já se sabe bastante. Aqui estão três das principais consequências prejudiciais do excesso de confiança nos investimentos:

  • Primeiro, um investidor excessivamente autoconfiante tende a negociar com frequência alta demais. Convencido de que consegue captar e absorver novas informações melhor e mais rápido do que o resto do mercado, ele compra ou vende a cada nova manchete dos jornais. Só que em geral essas informações já foram embutidas nos preços; o investidor não sabe, mas na verdade está apostando no escuro. O resultado é que ele está só se se expondo a riscos desnecessários e custos de transação diversos, alguns deles escondidos. A rentabilidade cai.
  • Segundo, um investidor muito convicto de suas apostas geralmente concentra seus investimentos em poucos ativos. Afinal, quando se tem certeza de que o dólar vai disparar, por que colocar dinheiro em títulos públicos? Só que diversificar criteriosamente é fundamental e muito benéfico para sua carteira. A concentração indevida aumenta os riscos, sem trazer benefício compensador em termos de retorno esperado. Muita gente já perdeu a casa — metaforica ou literalmente — fazendo apostas concentradas.
  • Terceiro, um investidor que acredita demais no seu taco pode achar que consegue identificar gestores ativos especialmente competentes. A evidência indica que essa é uma tarefa ingrata e arriscada. A maioria dos gestores com desempenhos passados excepcionais acabam tendo retornos medíocres no futuro, graças ao fenômeno do retorno à média. Botar o patrimônio nas mãos de um gestor supostamente genial pode gerar grandes lucros ou grandes prejuízos. A única certeza aqui é que o gestor vai ganhar um bom dinheiro, graças às altas taxas de administração dos fundos de investimentos ativos

No fundo somos seres bastante irracionais. Mas há alguma esperança. O livro “Subliminar” é essencialmente um compêndio de vieses inconscientes, alguns dos quais podem nos prejudicar bastante. Seu autor, o físico Leonard Mlodinow, conclui o livro com a constatação de que com reflexão, atenção aos fatos e autocrítica é possível minimizar as distorções cognitivas.

Então como se prevenir contra as armadilhas psicológicas da confiança excessiva nos investimentos? Resumidamente, se policie. Admita que você está tão sujeito a erros e ignorância como qualquer outro. Não tome decisões impulsivas movidas por certezas fulminantes e certamente não tome decisões por conta de notícias, boatos ou “dicas quentes”. Diversifique seus investimentos. Exerça autocrítica constante para evitar decisões ruins. E seja cético quanto a promessas mirabolantes de investidores ativos. Eles podem se dar ao luxo de acreditar na própria infalibilidade; você, não.

Fazer tudo isso sozinho, é claro, requer bastante tempo e energia, além de uma imensa disciplina. Uma maneira prática de combinar todas essas precauções é automatizar os seus investimentos. O nosso robô, o Ueslei, não tem emoções nem opiniões. Ele não se acha melhor do que é porque ele não acha nada sobre nada nem sobre ninguém. Ele não negocia demais e nem de menos. Apenas monta posições cuidadosamente diversificadas, as monitora com infinita paciência e disciplina, e nunca, nunca age impulsivamente. O Ueslei, ao contrário de mim e de você, é invulnerável ao viés da autoconfiança. E é por isso que ele merece nossa confiança.      

Observação: alguns trechos desse post foram adaptados a partir de partes de um artigo sobre um outro viés irracional — o do tribalismo — que publiquei5 no site do Instituto Mercado Popular.

1 Depois de confrontados com o seu histórico, o efeito diminui, mas não some: o cara sabe que acertou 55% das 100 cestas anteriores, mas mesmo assim está disposto a apostar que vai acertar 65% das 100 cestas seguintes

2 Por exemplo, nem todo mundo é um ás da psicologia como eu.

Vide a nota de rodapé acima.

Não foi à toa que o Kahneman ganhou o prêmio Nobel de economia em 2002, mesmo sendo um psicólogo sem nenhum treinamento formal em economia. Curiosamente, quem o conhece conta que ele é inseguro e pessimista, inclusive em relação aos próprios projetos de pesquisa. Um caso raro do efeito Dunning-Kruger com sinal trocado?  

5  Como se trata de um autoplágio, estou pensando em me processar.

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20 de dezembro de 2016
Ultima atualização: 17 de agosto de 2018

Autores

Economista pela PUC-Rio e doutor em Matemática pelo IMPA, colabora com o time de Estratégia de Investimento da Vérios. Flavio é sócio-proprietário da consultoria SLQ Soluções Quantitativas e possui certificação CGA

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